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Cotidiano
EDUCAÇÃO

Por que o Brasil ainda tem poucos pós-graduados?

Apesar do aumento de ofertas de cursos, instituições de ensino ainda estão muito centralizadas no Sudeste 24/08/2017 às 12:08
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Até 2015, o Brasil tinha quase 4 mil cursos de pós-graduação, segundo dados da Capes (Coordenação de Pessoal de Nível Superior). Um número elevado para um país que ainda tinha poucos universitários até o final dos anos 1990 e que teve um crescimento significativo de alunos no ensino superior nos últimos dez anos.

Esse dado é ainda mais relevante levando em conta que, em 1980, o Brasil tinha apenas mil ofertas de cursos e, dez anos depois, tinha aumentado esse número em apenas 40%, o que não significou um aumento na qualidade do ensino. De lá para cá, o país quadruplicou as possibilidades de um aluno se pós-graduar.

Apesar disso, o grande desafio atual é descentralizar essa conquista: todos os estudos sobre pós-graduação no Brasil de hoje apontam para a massiva regionalização de instituições de ensino – o grande entrave para que o projeto de levar esse nível de educação para os rincões do país se materialize.

“A maior parte do alunado e das titulações está localizada em pouco mais de meia dúzia de instituições, concentradas na região Sudeste, refletindo uma heterogeneidade do ensino superior que, em geral, permanece oculta nos embates ideológicos entre instituições públicas e privadas ou é escamoteada pelos interesses corporativos das universidades federais”, diz a professora Eunice Durham, do Núcleo de Pesquisas sobre Ensino Superior (Nupes) da Universidade de São Paulo.

O problema é mais antigo do que aparenta: em 1989, dos 32 mil alunos matriculados em cursos de pós-graduação no Brasil, 23,7 mil estavam no Sudeste. O Nordeste tinha apenas 160 e o Norte, por incrível que pareça, tinha apenas 28 pessoas nesse nível de aperfeiçoamento naquele ano. A principal universidade brasileira já era a USP, em São Paulo.

Hoje isso se visualiza no número de instituições que oferecem cursos de pós-graduação avaliados com nota acima de 7 pelo Capes: 77 estão em São Paulo, 27 no Rio de Janeiro e 18 em Minas Gerais. No Nordeste, há apenas um curso na Bahia. No Norte, nenhuma menção.

Em julho de 2015, para piorar a situação, o governo federal cortou 5% da verba do Programa de Apoio à Pós-Graduação (Proap), que era utilizada para custear as locomoções de pesquisadores e os trabalhos de campo de diversos pós-graduandos pelo país. Da mesma forma, os recursos que a Capes recebe para pagamento de bolsas de estudo caíram de R$ 7,4 bilhões em 2015 para R$ 5,3 bilhões em 2016.

“Fazer ciência no Brasil não é fácil, é quase um altruísmo”, reclama Ana Maria Carneiro, do Laboratório de Estudos de Educação Superior da Unicamp.

Todos esses problemas diminuem uma taxa importante para o país: a de pós-graduados. Segundo o Capes, o Brasil tinha 325 mil alunos matriculados em algum curso desse nível em 2015, número que parece alto, mas quando comparado com a média internacional, demonstra ser inferior. Em um ranking com outras 37 nações elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o país só ficou à frente de México e Chile em número de mestres e doutores. Para cada 100 mil brasileiros, 7,6 são pós-graduados.

Sem saída, os alunos distantes dos grandes centros procuram atenuar a ausência de ofertas fazendo cursos a distância. É o caso do estudante de Direito manauara Ricardo Freitas, de 22 anos. Sem conseguir estudar em uma universidade pública – inclusive em outros estados –, ele decidiu se matricular em uma graduação EAD. A expectativa dele, quando se formar, é fazer o mesmo com a pós-graduação.

“Tenho meus horários, faço meu plano de estudos e todo o material que enviam é muito bom. Estou conseguindo até estagiar em um escritório por causa do curso”, diz ele. “Foi a alternativa que encontrei para não ficar sem estudar”, finaliza.

 

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