Sábado, 18 de Setembro de 2021
POLÊMICA NA P.14

Presidente da CMM desiste de trocar nome de praça que homenageia líder negro

David Reis afirma que "troca" no nome da praça decorreu de equívoco, já que oficialmente logradouro não tinha denominação



praca_nestor_nascimento_9AC3D564-EA24-4327-A570-75121371BD7F.jpeg Foto: Gilson Melo
28/07/2021 às 15:48

Após uma série reações contrárias, o presidente da Câmara Municipal de Manaus (CMM), David Reis (Avante), decidiu não mudar mais o nome da praça conhecida como Nestor Nascimento, localizada na avenida Japurá, no bairro Praça 14 de Janeiro.

A mudança no nome da praça para Oscarino Farias Varjão/ Peteleco, em homenagem ao ventríloquo amazonense falecido em 2018, causou polêmica junto aos moradores do bairro, que programaram até um protesto para evitar a desfeita com Nestor.



A troca na denominação da praça se revelou um equívoco. Isso porque, junto à Prefeitura de Manaus, a praça não tinha nenhum nome. Por isso, explicou David Reis, os vereadores aprovaram o nome de Peteleco. A homenagem era um pedido do filho do artista.

“Em 2013, o ex-vereador Bosco Saraiva fez uma indicação para a Prefeitura para que essa praça recebesse o nome de Nestor Nascimento. Indicação é algo que o poder executivo procede ou não. Nesse caso, não procedeu. Mas as pessoas achavam que tinha sido dado o nome dessa praça como Nestor Nascimento. Mas, isso não ocorreu”, disse o presidente da CMM.

Segundo ele, quando soube de "rumores" de que o nome de Nestor seria retirado da praça e de que os moradores se sentiram ofendidos, achou melhor revogar o projeto: "Tive uma conversa com os moradores e com os representantes do movimentos afro e farei um projeto nominando a Praça como Nestor Nascimento, oficialmente".

Na versão de Reis, no papel, o primeiro nome da praça que não tinha nome foi, realmente, Oscarino/Peteleco. A homenagem durou uma semana. “Vamos apresentar um projeto revogando a lei que nomeia a praça como Oscarino/Peteleco”, disse o presidente da CMM.

Satisfeitos

O artista Miguel Soares, morador do bairro, disse que os moradores estão satisfeitos com a solução dada à polêmica. “Agora tudo foi descoberto. Pelo o que vi, os trâmites da lei, a Praça não tinha nome de nada. Desde 2013, o Bosco Saraiva batizou a Praça como Nestor Nascimento e assim ela ficou conhecida.

O artista explicou que a praça se estende desde a avenida Japurá até a avenida Tarumã, na área inferior passa avenida Major Gabriel. “É um local de convivência da comunidade. O pessoal vem aqui para se distrair, para namorar, para encontrar os amigos, para fazer zumba, funcional. Então nós da comunidade da Praça 14 decidimos transformar o protesto (contra a mudança de nome) em uma comemoração, com artistas do bairro e com a Escola de Samba Vitória Régia, que vai homenagear Nestor Nascimento em seu enredo”, disse o artista referindo-se ao Sarau da Resistência que seria realizado em forma de protesto à mudança do nome, nesta quarta-feira, as 15h.

Nas redes sociais foi criado um grupo denominado "Em respeito à memória", que destacava a vida e trajetória de Nestor Nascimento, com uma nota de repúdio à medida que dava à praça o nome de Oscarino Varjão Faria, assinados pelos movmentos #NestorNascimento #Manaus #MovimentoNegro #SomosAResistencia #SomosCultura #SomosHistoria #VidasNegrasImportam. 

Movimento em ação

Além desse ato que foi transformado em comemoração após a decisão de revogar a lei, uma audiência pública estava programada para acontecer na Câmara Municipal de Manaus. “Protocolamos um documento na PGE e fomos à CMM onde ficou decidido que o nome da praça não irá mudar. Acreditamos que é notória a ação da sociedade nesse caso. Os movimentos sociais da negritude se reunira em prol de uma derrubada, pedindo para ser revogada uma lei que feriu a memória de um líder negro”, disse o presidente do Instituto Nacional Afro Origem, Christian Rocha.

Para Christian venceu a ação dos movimentos de negritude. “Nós não somos inimigos do parlamento municipal. Mas, eles devem nos escutar. A partir de agora, eles irão pensar duas vezes antes de implementar seus projetos de lei no que tange a comunidade negra, que está acordada. Se  existisse uma conscientização de classe como foi feito nesse episódio, o nosso estado e a nossa sociedade seria diferente”, disse Christian Rocha.

Tristeza

Quem não está comemorando é a família do artista Oscarino Varjão. Segundo a viúva do ventríloquo, Orlandina Varjão, o desejo de ter seu nome na praça que passava bem atrás de sua casa e para a qual o imóvel dá passagem, na parte inferior do logradouro, era do próprio Oscarino. “Me sinto triste com essa decisão. Ele sempre olhava a praça e tinha vontade que o nome dele fosse dado a ela. Ficamos muito sentidos. Ainda acho que eles deveriam cumprir a homenagem, porque ele morava aqui, nossa casa é aqui, a lembrança dele é aqui”, disse a viúva de Peteleco. 

Para não deixar de homenagear o Oscarino/Peteleco a solução foi construir um busto no local onde fica a casa do artista para lembrá-lo para a posteridade. A Prefeitura Municipal de Manaus também levantou a possibilidade de dar o nome de Peteleco a outra praça na cidade.

SAIBA MAIS

Quem foi Nestor Nascimento?

Nestor José Soeiro do Nascimento era natural de Manaus de uma família tradicional do bairro da Praça 14 de janeiro. Fundador da Associação dos Moradores e Amigos da Praça 14, Sócio Fundador da Escola de Samba da Vitória Régia. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Amazonas e um dos fundadores do Centro Acadêmico de Direito da universidade. Exerceu a função de Segurança do Ministro Lira Tavares pelo Ministério do Exército em 1968, escolhido pelo General Costa e Silva no Palácio das Laranjeiras. Atuou como repórter universal de notícias, no Rio de Janeiro, no ano de 1968; exerceu a função de colunista e Repórter no Jornal A Notícia, em Manaus, no período de 1972 à 1975; atuou como Diretor Geral do curso Dinâmico, em Manaus, no período de 1972 à 1979; atuou como assessor parlamentar na Câmara Municipal de Manaus, no ano de 1995. Foi procurador chefe da Câmara Municipal de Manaus, no período de 1996 a 1997 e Subsecretário Municipal do Desenvolvimento Social, em Manaus, no ano de 1983 (Prefeito Amazonino Mendes). Ativo participante como sócio da Escola de Samba da Vitória Régia e da Academia Samurai de Judô. Proprietário de um dos primeiros cursos de pré-­vestibular de Manaus (curso Dinâmico). Foi Vice-Presidente do Clube da Madrugada c membro da Sociedade dos amigos de Portugal de Manaus e ainda foi Presidente do Conselho Estadual de Cultura 92/94. Atuou e fundou o Movimento Alma Negra – MOAN, em Manaus. Foi Presidente do Conselho de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra no ano 1988 e atualmente Presidente do Instituto dos Direitos Civis (I. D. C.) – AM. Ganhou o diploma de Honra ao Mérito, do Instituto Brasileiro, no ano de 1975. Pela sua trajetória em defesa dos direitos civis.
Nestor Nascimento visitou os EUA a convite de Bill Clinton/1997, então presidente dos Estados Unidos, onde manteve contato com várias entidades, visitou o Capitólio, a Casa Branca e na oportunidade concedeu entrevista à voz da América como um dos mais ilustres defensores dos direitos civis no Brasil. 

Quem foi Oscarino Varjão Faria?

Oscarino Farias foi um artista e ventríloquo, criador e interprete, por mais de 60 anos do boneco Peteleco. Nasceu na comunidade em Iranduba, em 1937. Foi engraxate na rua Marquês de Santa Cruz e  vendedor de ajudava a mãe, dona de tapiocas no Mercado Municipal. Confeccionou um boneco, conhecido nacionalmente e considerada Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas. Realizou apresentações em escolas, programas de rádio e TV em várias localidades do país. Era reconhecido como mestre na arte de ventriloquia pela habilidade de se expressar sem mexer a boca.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.