Terça-feira, 21 de Maio de 2019
RARIDADE

AM registra primeiro caso de sobrevivência de feto com mãe que teve morte encefálica

Médicos mantiveram a mãe viva por aparelhos para que o bebê pudesse nascer. Infelizmente, a criança viveu só por cinco dias



ana_braga2.JPG
Bebê faleceu cinco dias depois de ter nascido. A avó materna ainda o pegou no colo (Foto: Euzivaldo Queiroz)
02/01/2017 às 05:00

Foram cinco dias de luta pela vida. Infelizmente, o filho da dona de casa Raimunda Nonata R. da Silva, 30, que nasceu no último dia 23, com 770 gramas, não resistiu e faleceu na quarta-feira (28), em Manaus. Raimunda deu entrada na Maternidade Ana Braga, no dia 8 deste mês, após sofrer um acidente vascular cerebral isquêmico. Logo em seguida, ela teve o diagnóstico de morte encefálica, mas os médicos da unidade a mantiveram viva por aparelhos durante duas semanas para que o bebê pudesse nascer.

De acordo com o diretor da Maternidade Ana Braga, Antenor Barbosa Filho, este caso raro – de sobrevivência de um feto em que a mãe teve morte encefálica – foi o primeiro, que se tem conhecimento, registrado no Amazonas. Lamentavelmente, o bebê não conseguiu resistir à prematuridade. Porém, Antenor evidenciou que a história impressionante ainda teve um desfecho feliz: a família de Raimunda doou os órgãos (fígado e rins) dela possibilitando com isso salvar outras duas vidas.

“Mesmo diante da tristeza da morte da mãe e agora da criança, nós ainda podemos usufruir de alguma alegria proporcionada pela bela atitude da família de autorizar a doação de órgãos da Raimunda”, afirmou o diretor da maternidade. Ele enfatizou a conquista da equipe da unidade de conseguir manter as funções biológicas da paciente que teve morte encefálica para que seu bebê pudesse adquirir mais idade gestacional para poder nascer. “Acredito que seja o segundo caso no Brasil”, disse.

Conforme Antenor, todo o protocolo de morte encefálica foi seguido no caso de Raimunda Nonata e o bebê dela, durante os 15 dias em que seus órgãos foram mantidos funcionando com ajuda de aparelhos e medicamentos, foi acompanhado 24h por dia. “Até que no dia 23, foi evidenciado por meio desse monitoramente que ele estava em sofrimento. Imediatamente providenciamos a cesárea e o bebê nasceu com 770 gramas e de 26 semanas (seis meses). Nasceu vivo e chorando”, contou.

O pediatra intensivista da Maternidade Ana Braga, Jefferson Pereira Guilherme, relatou que o bebê estava no limite da viabilidade e não conseguiu resistir por mais tempo. “Era uma prematuridade extrema. O bebê não estava pronto. Foi feito todo o possível por ele, mas a criança não respondeu ao tratamento. Demos toda a assistência que podíamos e ele não teve melhora, pelo contrário, só piorou e infelizmente veio a óbito. O quadro dele era muito dramático”, afirmou.

Mantida por aparelho

O médico intensivista Paulo Henrique Gonçalves, da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Materna da Maternidade Ana Braga, explicou que as funções corporais da dona de casa Raimunda Nonata R. da Silva, 30, que eram controladas pelo cérebro, passaram a ser mantidas por aparelhos e medicamentos para que o bebê pudesse continuar vivo. Isso aconteceu por 15 dias.

“Nesses casos, a mãe se torna uma incubadora para que possamos manter o feto vivo até onde pudermos conseguir. E foi assim que nós fizemos, entramos com medidas terapêuticas, medicamentosas, de ventilação mecânica, entre outras, tentamos prolongar o efeito dessa gestação o máximo possível para ter uma viabilidade fetal”, relatou.

Gonçalves disse que mãe e filho eram monitorados 24h por dia e sete dias por semana. Um centro cirúrgico foi montado dentro da UTI Materna para a qualquer momento fazer a cesárea. “O bebê manteve crescimento e também um ganho de peso, mas chegou-se um momento que não pudemos mais manter a gestação e optamos pela decisão da cesárea”, afirmou.

Personagem

A dona de casa Raimunda Nonata era minha filha adotiva da agricultora Marli Ribeiro Carvalho, 56, que a criou desde que tinha três meses de nascida. “Ela era filha da minha irmã, que se separou e não tinha como sobreviver com a criança. Era minha sobrinha e filha ao mesmo tempo”, destacou.

Conforme Marli, quando soube que ela estava internada veio imediatamente para Manaus de Carauari para acompanhar a filha. “Esse era o segundo filho dela, ela já tinha uma menina de nove anos. Foi muito triste o que aconteceu com ela e meu neto. Cheguei a pegar ele no colo, foi muita alegria. Me senti bem, mas infelizmente a situação dele não era boa. Eu falei pra ele resistir porque era semente da mãe dele...”, contou emocionada.

A agricultora relatou que a decisão para doar os órgãos de Raimunda foi decidida em conjunto com a mãe biológica dela. “Ela falou comigo sobre fazer a doação... Aquele momento era muito difícil para nós, mas para outras pessoas podia ser de alegria aí eu concordei. Agora, também quero ser uma doadora”, afirmou Marli.

Saiba mais

Este ano, dois casos deste tipo chamaram a atenção. O primeiro aconteceu em fevereiro em Portugal, onde uma mulher que teve morte encefálica foi mantida viva por aparelhos e medicamentos durante 55 dias para que o bebê que estava com 17 semanas conseguisse sobreviver. A criança nasceu na 32ª semana, pesando 2,350 quilos e com a saúde perfeita. O segundo, ocorreu em julho, aqui no Brasil. O fato foi registrado no Espírito Santo, onde uma jovem de 17 anos, após ter a morte encefálica constatada, foi mantida viva durante 44 dias para dar à luz uma menina. A criança nasceu com 30 semanas e pensando 1,110 quilos.

Destaque

Conforme o doutor Antenor Barbosa, Maria Nonata teve uma Eclâmpsia e, posteriormente, um acidente vascular cerebral isquêmico, que se dá quando há uma obstrução da artéria, impedindo a passagem de oxigênio para as células cerebrais, que morrem. Com isso, a paciente teve morte encefálica, que é a completa e irreversível parada de todas as funções do cérebro.

Frase

“Foi uma vitória das equipes da UTI Materna, UTI Neonatal, obstetras que fizeram à cesárea, e de todos os profissionais da maternidade porque foi um trabalho realmente em equipe”. Antenor Barbosa Filho, diretor da Maternidade Ana Braga


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.