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Cotidiano
RUMOS EDUCACIONAIS

Professores devem atentar para habilidades socioemocionais, alertam especialistas

“O socioemocional não é uma coisa e as disciplinas são outras. Se o estudante tiver problemas socioemocionais, vai ter dificuldades para aprender as disciplinas”, explicou a professora e socióloga Lourdes Atié, uma das debatedoras do Congresso Socioemocional LIV 2018 26/08/2018 às 14:07
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Foto: Divulgação
Vitor Gavirati* Rio de Janeiro (RJ)

Sentimentos não são descartáveis. A frase estampada na ecobag entregue aos participantes do Congresso Socioemocional LIV 2018 resume bem a ideia das mais de 700 pessoas que foram ao Windsor Barra Hotel, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, nesse sábado (25) para o evento: é preciso trabalhar as habilidades socioemocionais dos alunos nas escolas.

“O socioemocional não é uma coisa e as disciplinas são outras. Se o estudante tiver problemas socioemocionais, vai ter dificuldades para aprender as disciplinas”, explicou a professora e socióloga Lourdes Atié, pós-graduada em Educação na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), na Argentina.

Atié foi uma entre os debatedores do Congresso, organizado pelo Laboratório Inteligência de Vida (LIV), que teve também a presença do psicólogo norte-americano Howard Gardner, autor da teoria das inteligências múltiplas. O LIV é um programa de habilidades socioemocionais do grupo Eleva Educação, empresa de ensino privado que tem como principal investidor o empresário Jorge Paulo Lemann.

A educação socioemocional tem sido um dos temas mais importantes do ano no debate educacional, principalmente após o desenvolvimento social e emocional entrar na lista de conteúdos obrigatórios da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento norteador que determina os principais temas a serem trabalhados nas escolas públicas e privadas de todo o país.

Com a nova BNCC, a educação no Brasil mira objetivos que ultrapassam a aprendizagem de conteúdo e focam no desenvolvimento pessoal e social dos alunos. Anos antes da aprovação da nova Base (que ocorreu em 2018), a Eleva Educação desenvolveu o LIV, que hoje está em mais de 100 escolas de todo o país, atendendo mais de 70 mil alunos. Em Manaus, a Creche Escola Bebê Bombom e o Colégio Connexus, no bairro São Francisco, Zona Sul, são alguns dos educandários que contam com o LIV na grade curricular.

Entendendo o LIV

O programa LIV acontece uma vez por semana dentro do currículo, tentando contribuir para a formação de um cidadão mais completo diante dos desafios do século XXI. Os materiais são pensados para promover a reflexão, o debate, a escuta, a investigação e o questionamento, não existindo respostas “corretas” ou “esperadas”.

Segundo a direção do LIV, a partir de um planejamento pedagógico estruturado, o programa tem a preocupação de sempre dialogar com a linguagem e os interesses dos alunos, com um currículo desenvolvido pensando nas particularidades de cada faixa etária.

Escola de encantamento

Para Lourdes Atié, a escola de hoje precisa ser de “encantamento” e é necessário mais ousadia por parte dos professores, fugindo dos padrões convencionais de avaliação, por exemplo. Durante o congresso no Rio de Janeiro, Caio Lo Bianco, gerente da Eleva Educação e líder do LIV, falou que o programa segue essa ideia. “Nós nos perguntamos se o aluno vai gostar de estar na aula de socioemocional”, disse.

Entre os recursos didáticos utilizados nas aulas do LIV aparecem, por exemplo, livros de histórias infantis e séries audiovisuais no melhor “estilo Netflix” e vídeos da youtuber Jout Jout. Os roteiros das produções são pensados pelos profissionais do Laboratório, buscando apresentar valores que podem estar sendo conhecidos pelos alunos, conforme sua faixa etária.

Uma das histórias infantis apresentadas no ensino fundamental aborda a separação dos pais de um personagem. “São situações parecidas com o que ele vive na vida real e propostas que dialogam mais facilmente com os alunos”, justificou Lo Bianco, sobre o recurso do audiovisual nas aulas.

Crianças em perigo e a necessidade do socioemocional nas escolas

Para o pediatra Daniel Becker, médico do Instituto de Pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em Homeopatia, o contexto atual em que as crianças e adolescentes crescem impõe prejuízos ao desenvolvimento dos jovens.

A parentalidade distraída (uso frequente do celular por parte dos pais que diminui a atenção aos filhos), o padrão de competitividade da escola, a má alimentação e a exposição excessiva a desenhos animados, séries e dispositivos eletrônicos como celulares são alguns dos hábitos prejudiciais. Insônia, obesidade, problemas mentais e a perda de capacidade criativa estão entre as consequências, segundo Becker.

“A exposição aos desenhos, histórias prontas, faz com que a criança perca a criatividade. E que profissional nós queremos para o futuro que não tenha imaginação?”, questiona. Convergência e sustentabilidade são as chaves para combater os problemas.

“O que é bom para a terra é bom para a vida. Se você anda de bicicleta, prática uma atividade e ainda ajuda no meio ambiente e no transporte. Se você come alimentos orgânicos, ajuda a saúde e a terra que se recompõe sem agrotóxicos. A criança precisa estar mais em contato com a natureza. Nós ficamos 17 horas por dia acordados. Os pais deveriam dedicar 10% desse tempo, um dízimo, para atenção aos filhos”, comentou.

Inteligências múltiplas

O psicólogo Lino de Macedo, livre-docente pela Universidade de São Paulo, um dos maiores nomes da Psicologia do Desenvolvimento no Brasil, foi outro dos expositores. Quase como um preâmbulo para a fala de Howard Gardner, Lino explicou no congresso carioca que inteligência tem a ver com a capacidade de leitura e interpretação do mundo. “O que nós fazemos na vida é organizar prioridades. Como aprender a coordenar prioridades? Isso é inteligência, valor de vida. É o desafio”, mencionou o pesquisador.

O psicólogo Howard Gardner explicou sua principal teoria. “Achamos que não há uma forma, mas várias formas de inteligência. Duas ideias são importantes: individualização e pluralização. A primeira diz respeito a aprender o máximo sobre cada aluno. A segunda sobre ensinar o que é importante de diferentes formas. Assim, o aluno pode demonstrar o que aprendeu de forma mais confortável e pode mostrar o que entendeu de diversas formas”, explicou.

Segundo Gardner, o fato de cada indivíduo ter uma forma de inteligência – como a musical, por exemplo – não significa que ele tenha todas as outras formas (interpessoal, intrapessoal, entre outras). Assim, deixando de lado a ideia de que a inteligência pode ser medida com um quociente de inteligência (o famoso Q.I).

Questionado sobre qual o desafio para a implantação de sua teoria para a elaboração das aulas nas escolas, Gardner é enfático. “Não se pode forçar os professores. Eles devem olhar essas ideias como atraentes e fazê-las de forma voluntária”, afirmou.

*O repórter viajou a convite da organização do evento

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