Terça-feira, 12 de Novembro de 2019
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Programa da UEA dá suporte a gestantes que optam por ter o bebê sem intervenções desnecessárias

Muitas mulheres foram recentemente às ruas reivindicar o direito de serem protagonistas do parto, seja no hospital ou na tranquilidade do lar



1.gif Profissionais que atuam no Programa de Preparação para o Parto e Nascimento da da Universidade do Estado Amazonas (UEA) e as mães e pais que optaram por ter seus bebês por parto natural
11/02/2015 às 11:20

O Brasil continua liderando o ranking de partos cesáreos: as taxas chegam a 84% no sistema privado e a 40% no Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto o índice recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 15%. Mas o quadro está mudando. Exemplo disto são as recentes manifestações onde mulheres foram às ruas reivindicar o direito de serem protagonistas do parto, seja no hospital ou na tranquilidade do lar.

Buscar informações é a primeira dica que a atriz Monik Pétala Assi, 26, dá às mamães de primeira viagem. “Muito mais do que a escolha do tipo de parto, o importante é pesquisar e não confiar só na palavra de um profissional. Conhecer seu próprio corpo, se informar sobre os procedimentos possíveis e procurar conhecer suas limitações. Eu fui vencida pela ignorância uma vez, mas agora meu maior poder é o conhecimento, saber que eu sou capaz”.



Mãe de dois meninos, Monik deu à luz ao mais novo em casa, na companhia do marido, diferente de quando teve o primeiro filho. “Há quatro anos eu não tinha conhecimento sobre parto humanizado e tive um parto normal com intervenção. Para mim bastava ser ‘normal’, mas sofri violência obstétrica e senti muitas dores no corte por muito tempo. Não conseguia voltar à minha rotina normal”, relatou.

Durante a segunda gestação, Monik conheceu o Programa de Preparação para o Parto e Nascimento da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). “Eu achava que ia passar por tudo de novo. Mas na 25º semana da gestação uma amiga falou sobre o programa. O dia mais feliz da minha vida foi quando encontrei minha doula (acompanhante de parto profissional). Eu disse que não queria mais passar por isso. Ela me abraçou e prometeu que nada daquilo iria acontecer outra vez”, relatou.

O parto personalizado em uma piscina de plástico, com música ambiente, liberdade para se locomover e se hidratar com sucos e água tornou a experiência inesquecível para a atriz. “Não tem explicação. Até as dores diminuem quando você está em um ambiente de paz. A sensação é completamente diferente. Pude estar ao lado do meu primeiro filho, do meu marido e da minha doula, que me deu apoio psicológico”, lembrou

Faria tudo outra vez

A dentista Maria de Lurdes Muraiade, 35, teve o primeiro filho da maneira mais natural possível: em casa e sem intervenções cirúrgicas. Ela e o marido planejaram tudo e receberam todo um acompanhamento médico. “Tive a grata surpresa de conhecer o projeto. Eu ia para as consultas todas as sextas-feiras para fazer o pré-natal. Meu filho nasceu em novembro e foi tudo maravilhoso: ele veio ao mundo quando quis e em casa. Meu marido ainda pôde cortar o cordão umbilical”, contou.

O apoio do marido foi essencial durante toda a gestação. Felizes por ter dado tudo certo, o casal já planeja outra criança. “Fiquei grávido junto. Acompanhei em todas as consultas e pesquisava as melhores formas de parto. Agora nós já estamos planejando outro e vai ser da mesma maneira que meu primeiro filho nasceu”, comentou Francicarlos Fernandes, 40.

“O sistema não respeita os ritos do nascimento”

“São vários tipos de violência se comete contra as mulheres e elas não ficam sabendo disso”, afirmou o obstetra e doutor em biologia da reprodução Hugo Sabatino. “A gestante, o esposo e a família necessitam de uma preparação desde o atendimento nas consultas pré-natais ao pós-parto, mas isso não acontece sempre”, completou.

Hugo citou vários tipos de violência cometidas com gestantes, destacando as principais. “O fato do parto ser feito com a mulher deitada está desaproveitando as forças naturais do nascimento. Se você coloca uma mulher deitada o nascimento vai contra a gravidade, traz complicações para a mãe e para a criança. Enquanto que de cócoras, esse processo é mais fisiológico e natural, pois os diâmetros da bacia aumentam em 28 % ”, comentou. 


Outra violência mais comum, segundo o doutor, é tratar as grávidas como se estivessem doentes. “Os casais são tratados como doentes. A gestação e o parto não são processo patológicos, são processos normais e naturais quase sempre. As mulheres são colocadas dentro de uma instituição onde estão doentes, em um leito de doentes, onde utilizam de maneira rotineira a solução fisiológica e ocitocina para acelerar o parto. Isto é uma violência muito grande”, ratificou. 

Sabatino criticou ainda as cesáreas desnecessárias. “Toda mulher quando se submete à cesárea tem mais risco de ter uma complicação durante e depois da cirurgia. Além disso, a cesariana feita sem necessidade aumenta em 120 vezes a probabilidade de surgimento de problemas respiratórios para o recém-nascido, em 25 % os óbitos neonatais e triplica o risco da morte materna em comparação com o parto natural”.

Autor do livro “Atenção ao Nascimento Humanizado – Baseado em Evidências Científicas” - com três volumes - Sabatino também é um dos precursores do parto de cócoras no Brasil. Ele realizou mais de 2,5 mil partos de cócoras pela Unicamp. Atualmente o médico faz parte da equipe do Programa de Preparação para o Parto e Nascimento da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

Programa da UEA

O Programa de Preparação para o Parto e Nascimento na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) é pioneiro no Brasil e já atendeu, desde 2013, 51 gestantes com acompanhamentos de pré-natal. Foram 41 partos, sendo 16 partos domiciliares planejados. “Foram partos conscientes, bem informados, de risco habitual, acompanhados por uma equipe bem preparada desde as consultas pré-concepcionais, sem intervenções rotineiras, respeitando sempre os direitos sexuais e reprodutivos, onde a mulher teve liberdade, autonomia, privacidade e controle para ser protagonista do seu parto e nascimento sentindo-se segura no momento mais sublime e importante da vida”, enfatizou o coordenador do programa, professor Gabriel Saldaña.

Atenção pré-concepcional, pré-natal de risco habitual, preparação para o parto e nascimento, atenção ao parto baseado em evidências científicas e formação de doulas (acompanhantes de parto profissionais) para ofertar suporte contínuo às gestantes são algumas das atividades desenvolvidas pelo programa. Só em 2014, formaram-se 180 doulas. O profissional que atende parto domiciliar é médico, ou enfermeira obstetra, ou obstetriz, formados em cursos superiores e com experiência em atendimento de partos normais — com e sem complicações.

As consultas pré-natais iniciarão a partir do dia 13 de fevereiro, na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESA/UEA), das 18 às 22 horas. Mulheres em idade fértil e gestantes devem fazer o cadastro gratuitamente através do e-mail programadoulas@gmail.com, ou pelos contatos: 98158-3418, 98228-3155, 98119-0323, 99129-3810. Todo o acompanhamento até a hora do parto é gratuito. Interessadas em fazer o curso de doula também devem entrar em contato. 





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