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Cotidiano
música e história

Estudantes contam os dilemas dos imigrantes nordestinos a partir de canções

Por meio de interpretações cênicas de músicas de Luiz Gonzaga e outros compositores sertanejos, projeto escolar estimula a discussão sobre os enfrentamentos políticos, sociais e econômicos da Região Nordeste 13/07/2016 às 21:56 - Atualizado em 13/07/2016 às 22:05
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Alunos da E.E Presidente Castelo Branco tiveram a oportunidade emergir no conhecimento através de um instrumento pedagógico por excelência: a música popular. Foto: Aristide Furtado
Aristide Furtado Manaus (AM)

Inspirados nas lições do educador Paulo Freire de que valorização dos saberes dos estudantes é fundamental na produção do conhecimento, os professores Sebastião da Silva Filho e Socorro Marreiros buscaram nas canções de Luiz Gonzaga e de outros compositores sertanejos, que já fazem parte do imaginário popular, o instrumento pedagógico por excelência para desnudar a realidade da população nordestina e de seus enfrentamentos políticos, sociais e econômicos.    

Na manhã desta quarta-feira (13), na quadra poliesportiva da Escola Estadual Presidente Castelo Branco, no bairro de São Jorge, Zona Centro-Sul de Manaus, uma centena de alunos e alunas finalistas do Ensino Médio se revezaram em um palco ornamentado com galhos secos e retorcidos, grama queimada, solo árido numa alusão ao semi-árido e à caatinga, cenário típico do nordeste brasileiro, para cantar e encenar os dilemas de um povo historicamente forçado a migrar de sua região por conta do abandono e da ausência de políticas públicas. 

O evento reuniu conteúdos de geografia e história. E apresentou músicas como Asa Branca, Lamento Sertanejo, Assum Preto, Aquarela Nordestina, o último pau de arara. “O objetivo do projeto 'Música e História' é ajudar o aluno a ter maior compreensão da realidade do nordeste, da complexidade dessa região. Entender porque o nordestino acaba migrando para o norte e sudeste. Estimular os alunos a pesquisarem sobre esse tema e tentar ver como o  compositor  retratou a vida dessa população, uma leitura dos aspectos, sociais, geográficos e econômicos”, disse o professor de história Sebastião Filho. 

Adepto do princípio de que a educação se processa dentro e fora da sala de aula, o educador ressalta as vantagens da intertextualidade na leitura do mundo e na formação de valores. “A educação é mais ampla e vai além da sala de aula. É importante essas experiências para os alunos interagirem entre eles, aprenderem a planejar, explorar a temática. Isso faz  com que tenham um enriquecimento em termos de conhecimento e trabalha a solidariedade, a parceria, valores importantes para a vida em sociedade”, explicou o professor, enfatizando que esse cruzamento de saberes dá mais sentido aos conteúdos programáticos do currículo escolar. 

“Por ser de lá, do sertão, lá do cerrado, lá do interior do mato, da caatinga e do roçado, eu quase não saio, eu quase não tenho amigo, eu quase que não consigo ficar na cidade sem viver contrariado”, cantarolavam uma equipe de alunas, enquanto outros dramatizavam a angústia do retirante que foge para à cidade grande em busca de melhores dias, lembrando os milhares de nordestino que rumaram para São Paulo e para Manaus, principalmente no período áureo da exploração da borracha.

“Deu pra gente mostrar o que o nordestino passa não só por questões climáticas, mas por  falta de investimento naquela região que é  muito rica”, contou Mena Bianca, 18, estudante do terceiro ano. “Para fazer essa apresentação a gente precisa pesquisar mais, ficar mais interada do assunto para poder transmitir. Só pode transmitir conhecimento se o tiver. É uma forma muito divertida de aprender. É  esforço braçal e intelectual. Foram duas semanas de trabalho intenso”, afirmou.  

Acima de tudo ficou a união, disse Ester Nascimento, 18, sobre a importância do trabalho em equipe. “Aprendemos  sobre a vida no nordeste e a dificuldade que enfrentam, políticas e sociais, por falta de recursos. Aprendemos também a agradecer e a valorizar mais o que temos e a valorizar a cultura desse povo nordestino. Sentimos, de uma certa forma,  na pele o que eles passam. Deu pra ter uma boa noção de como é”, disse a estudante que, ao final da apresentação, recitou um dos versos da canção ‘Nordeste independente’, imortalizada a voz  de Elba Ramalho, como um grito de alerta à classe política: “Povo do meu Brasil, políticos brasileiros, não pensem que vocês nos enganam, porque nosso povo não é besta”.  

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