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Cotidiano
PROJETO

Projeto escolar que sofreu intolerância religiosa chega a sua 10ª edição em Manaus

Amparado pelas leis 10.639/03 e 11.645/08, o projeto foi criado no ano de 2005 primeiramente como uma amostra, feita pelos alunos do 3ª ano do ensino médio 18/12/2015 às 16:51 - Atualizado em 25/02/2016 às 18:52
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Alunos do 3º01 falaram sobre o filme Xingu (2012)
Anônimo redator

Em um ano onde o preconceito racial eclode nas redes sociais e manchetes de jornais em todo o país, um projeto escolar que trata do tema, se consolida no Amazonas. Intitulado “Preservação da Identidade Ético-Cultural Brasileira”, o projeto interdisciplinar chega a sua décima edição neste ano, promovendo a igualdade das raças na Escola Estadual Senador João Bosco Ramos de Lima, localizada na Avenida Noel Nutels, Zona Norte de Manaus.

Amparado pelas leis 10.639/03 e 11.645/08, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, o projeto foi criado no ano de 2005 primeiramente como uma amostra, feita pelos alunos do 3ª ano do ensino médio. Com a proporção que tomou nos anos seguintes, a amostra foi transformada em projeto interdisciplinar que serve também como requisito para a obtenção de notas aos alunos da escola.

Durante todo o ano, são realizadas atividades voltadas ao projeto que tem seu ápice nas proximidades do Dia da Consciência Negra, comemorada em 20 de novembro. Em 2015, a feira cultural ocorreu nos dias 02 e 04 de dezembro, para os turnos matutino e vespertino, respectivamente. A temática das salas neste ano, foram filmes que abordam temáticas raciais, como: Xingu, 12 Anos de Escravidão, Rapa Nui e Tempo de Matar, entre outros.

Para o estudante Victor Cavalier, 17, do 3º01, cuja sala defendia o filme  brasileiro ‘Xingu (2012)’, o projeto interdisciplinar exerce grande influência para sua formação. “Esse projeto tem muita na nossa formação étnico-cultural, pois visa ajudar tanto na nossa formação como aluno e também como cidadão do Amazonas, ajudando nos conceitos e aspectos da nossa vida”, afirma.

“Creio que é importante passar para as pessoas um pouco mais da cultura indígena e afro-descendente. Nosso filme tem a temática indígena, e nós não conhecíamos o povo. É uma cultura diferente”, diz Laila Lopes do 3º04, onde foi feita a defesa do filme ‘Rapa Nui’, de 1994.

Intolerância em 2012

Em 2012, um grupo de 13 alunos evangélicos se recusou a participar do projeto, alegando não concordarem com os temas estudados em algumas obras da literatura brasileira como homossexualidade e candomblé, por exemplo.

Eles reuniram-se e fizeram uma apresentação independente sobre as missões evangélicas da África. A atitude foi incentivada pelos pais e pastores do alunos. Na época, a revolta repercutiu nacionalmente.

Nonata relembra o incidente com tristeza. “Foi uma situação bastante difícil, pois sempre tive muito cuidado em trabalhar o assunto com os alunos evangélicos”, afirma.

Criadora

O ‘Projeto Interdisciplinar Preservação da Identidade Ético-Cultural Brasileira’ foi criado em 2005, pela professora Raimunda Nonata Freitas, formada em História pela Universidade Estadual Paulista – UNESP e pós-graduada em ‘História da Amazônia: Sociedade, Cultura e Poder’, pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM.

Nonata implementou o trabalho inicialmente com os alunos dos terceiros anos. “No decorrer do processo, cheguei a conclusão que os alunos não conheciam sobre a cultura do Brasil e principalmente sobre a cultura indígena, e como professora de história, acredito que é preciso conhecer a nossa própria história para podermos valorizar e respeitar”, afirma.

O projeto foi ganhando força nos anos seguintes e a partir do ano de 2009, ganhou adesão de todas as doze salas do turno matutino da escola. Dois anos depois, em 2011, o projeto também chegou ao turno vespertino.

“A cultura negra e indígena ainda é muito desvalorizada. Todos nós que somos descendentes dos indígenas acabamos sofrendo preconceito e discriminação ainda hoje em nosso país. Presenciamos isso no dia-a-dia e queremos que os nossos alunos sejam diferentes, e aprender a respeitar essas diferenças para construir uma sociedade mais digna”, complenta.

No encerramento da 10ª edição da feira, Nonata comemorou a realização desse ciclo. “Um trabalho que dura dez anos, é porque alguma coisa importante ele tem. A valorização leva o conhecimento dos nossos alunos a diversidade cultural. Sou muito grata aos alunos, pois se não fosse a dedicação deles, não teríamos chegado onde chegamos” encerra.

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