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Cotidiano
Amazonas

Projeto institui remição de penas através da leitura em presídios do Amazonas

A literatura passou a fazer parte do dia a dia dos internos desde o início do ano com o projeto “Remição da Pena pela Leitura”. Dos 206 que estão inseridos, de acordo com a direção dos presídios, alguns já demonstram mudança de comportamento 27/06/2016 às 12:12 - Atualizado em 27/06/2016 às 19:10
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Marcio Pessoa tomou gosto pela leitura e quer mudar de vida / Foto: Joana Queiroz
Joana Queiroz Manaus (AM)

A leitura de obras literárias nas unidades prisionais de Manaus começou em janeiro deste ano com a implantação do projeto Remição da Pena pela Leitura. Atualmente, 206 reeducandos participam da leitura de obras literárias que está ajudando os internos a terem dias de suas penas perdoadas. Márcio Pessoa da Silva, 34, o “Marcinho Matador”, é um que diz que teve a vida modificada pela leitura e está cheio de planos e sonhos que serão realizados assim que ganhar liberdade.

Nesse mês, a corregedoria do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) instituiu o projeto “Encontro com a Leitura – Ler Liberta”, e regulamentou a remição de pena pela leitura no âmbito dos estabelecimentos penais do Amazonas. Conforme o corregedor do TJ-AM, desembargador Flávio Pascarelli, foi em atendimento ao disposto na Lei de Execuções Penais (LEP) no que diz respeito à assistência educacional aos custodiados.

De acordo com o provimento assinado pelo corregedor e futuro presidente do TJ, podem participar do programa internos dos regimes fechado e semi-aberto. O projeto ainda poderá ser integrado a outros programas de mesma natureza. A cada livro lido o interno tem quatro dias abatidos de suas sentenças.

A leitura está despertando nesses internos a vontade de dar um novo rumo nas suas vidas (fora do crime) ao ganharem liberdade. “Vejo esse essa oportunidade como uma chance de eu mudar de vida quando ganhar liberdade”, disse a interna Kariane Rodrigues da Silva, 25, sentenciada a cumprir 23 anos de prisão por latrocínio.

Volta por cima

A literatura passou a fazer parte do dia a dia dos internos desde o início do ano com o projeto “Remição da Pena pela Leitura”. Dos 206 que estão inseridos, de acordo com a direção dos presídios, alguns já demonstram mudança de comportamento.

Marcinho já leu quatro livros e teve uma boa avaliação pelo grupo multifuncional que avalia a leitura feita pelos presos. “Nunca recebi um elogio na minha vida. Fui elogiado pelo secretário Pedro Florêncio”, afirmou.

Marcinho relata que pela leitura descobriu que pode ter uma vida normal, sem ter envolvimento com o crime. Para ele o projeto é uma oportunidade para mudar de vida. Aprendeu a tocar instrumentos de cordas, está ensinando os colegas a tocar e escrevendo um livro contando a história da sua vida.

Das três obras que leu, duas são de auto-ajuda e um sobre a Amazônia. “Como ter um bom relacionamento conjugal”, escrito por um pastor, foi o que mais gostou. “O que eu aprendi com essa leitura compartilhei com a minha mulher”, revelou ele que não quer mais ser chamado pelo apelido de “Marcinho Matador”. “Quem botou esse apelido em mim foi um cara que eu matei, mas esse apelido eu já joguei no mar do esquecimento”, revelou.

Biblioteca do presídio

O secretário Pedro Florêncio, da Secretaria da Administração Penintenciária (Seap), destacou que os livros lidos pelos presos que fazem parte do projeto são da biblioteca de cada unidade. Eles recebem o volume, fazem a leitura e depois devolvem. Os livros permitidos são de auto-ajuda, religiosos, romances e de poesias. Antes de chegar as mãos do interno, o livro é avaliado para ver se está dentro das normas estabelecidas pelo projeto.

Reeducando faz planos para o futuro

Marcinho conta que foi criado no bairro Colônia Oliveira Machado, na Zona Sul, e quando criança sonhava em ter uma vida normal. Pretendia estudar, ter uma profissão e constituir uma família. Ainda na adolescência passou a ver um traficante que vendia droga próximo de sua casa. O mesmo ganhava muito dinheiro todo dia, enquanto a mãe de Marcinho trabalhava o mês todo para receber um salário mínimo. Foi pensando em ter uma vida melhor que ele passou a vender droga. Ajudou a família a melhorar de vida, comprou tudo que sonhava, mas de acordo com ele, de nada valeu. Foi preso várias vezes por tráfico de droga e por homicídio.

Hoje, o reeducando disse que conheceu o projeto Remissão da Pena Pela Leitura, que lhe deu a oportunidade para mudar vida. Ele já conseguiu remir 12 dias da sua pena.

Blog: Kariane Rodrigues, reeducanda

"Desde janeiro, fui atraída para o projeto pelo gosto de ler. Gosto de me expressar bem com as pessoas e porque eu viajo e sonho através dos livros. Já li três e o último foi o “Caçador de Pipas” e o “Dito Neguinho da Flauta”. Os meus preferidos são aqueles baseados em fatos reais. Sou pessoa emotiva, há livros que me fazem sorrir e outros que me levam a viajar. Além de estar no projeto, estou concluindo os meus estudos e quero ser advogada, deixar para trás todas as besteiras que eu fiz. Tenho um companheiro que está lá fora e me incentiva a crescer, e estou grávida. Sonho dar uma vida melhor para ele, para que ele trilhe outros caminhos diferentes dos meus e não cometa os mesmos erros que cometi. Vim parar aqui porque me juntei com pessoas erradas, mas eu acho que as coisas acontecem com a permissão de Deus para a gente melhorar".

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