Publicidade
Cotidiano
Notícias

Psicólogas amazonenses criam projeto em prol de pacientes portadores de Alzheimer

O projeto de duas psicólogas amazonenses, Alessandra Andrade Negreiros e Eliana Monteiro, vem trazendo resultados animadores com idosos que possuem a doença 19/10/2014 às 11:53
Show 1
Nas oficinas, as profissionais trabalham com gravuras, cores, números e outros objetos que estimulam as funções cerebrais dos pacientes com Alzheimer
Acyane do Valle ---

Esquecer de fazer coisas rotineiras, como escovar os dentes, pentear e lavar o cabelo, não se lembrar de como se servir na hora das refeições, de não saber o nome dos filhos e de outros parentes, e até fazer a mesma pergunta frequentemente, é o que acontece a muitos idosos que estão com perda de memória. O problema pode ser provocado pelas transformações naturais do processo do envelhecimento, ou devido a uma doença neurológica.

Para as famílias, é extremamente doloroso e difícil enfrentar esse tipo de situação sem se deixar abater. “Minha mãe tem a doença de Alzheimer e ela esquece de muita coisa, sobretudo os momentos recentes. Vê-la assim, sem conseguir fazer quase nada hoje, sabendo que toda sua vida foi dedicada à família e ao trabalho, extremamente ativa, não tem como descrever a dor que todos nós sentimos, porque estamos impotentes”, conta a autônoma Socorro Pereira, 44.

Mas o projeto de duas psicólogas amazonenses, Alessandra Andrade Negreiros e Eliana Monteiro, pode mudar histórias como essa. A Oficina de Treino Cognitivo, implantada há quatro meses, no Centro de Convivência do Idoso do bairro de Nossa Senhora Aparecida, Zona Sul, vem trazendo resultados animadores com idosos que possuem perda ou falha de memória, especialmente aqueles que têm a doença de Alzheimer, na qual ocorre a degeneração do sistema nervoso central, resultando na perda progressiva das habilidades cognitivas - memória, atenção, aprendizado, percepção, pensamento, orientação, compreensão, cálculo, linguagem, julgamento e outras funções executivas. É a partir da relação entre todas estas funções que a pessoa entende a grande maioria dos comportamentos, desde o mais simples até as situações de maior complexidade, e que exigem atividades cerebrais mais elaboradas.

Alessandra Negreiros, especialista em Gerentologia, explica que o resultado mais significativo da oficina foi registrado com um idoso, paciente de Alzheimer, que não andava, não falava, não conversava com a família e não comia direito. “Hoje ele já vai ao banheiro sozinho, conversa com as pessoas, diz que quer participar das aulas. Os progressos foram muito significativos”, diz. “Pode parecer pouco, mas trata-se de um avanço muito grande para esse usuário”, completa.

Estratégias para vencer o mal

Os métodos são simples, utilizando figuras, números e objetos diversos nas atividades, que estimulam as funções cerebrais. O treino cognitivo é o que há de mais novo no combate ao Alzheimer e outras demências, de acordo com os debates promovidos em Congresso Brasileiro de Geriatria, ocorrido na cidade de Belém (PA), no mês de abril deste ano.

Além disso, os especialistas recomendam o envolvimento do idoso nos momentos familiares, visitas e passeios. “É preciso tirar o idoso do isolamento. Às vezes, o idoso só fica no quarto, e é preciso fazer justamente o contrário, levá-lo para as refeições com a família, passear, conversar mais, envolvê-lo em diversas ações, isso ajuda muito também”, orienta Alessandra.

O Centro de Convivência do Idoso já possuía uma oficina da memória, pois com o envelhecimento, o indivíduo perde várias funções. Para retardar esse processo, a oficina trabalha com o estímulo da memória. “Apesar disso, vimos a necessidade de abrir um novo grupo, para treino cognitivo de pessoas com Alzheimer e outras doenças decorrentes do AVC (Acidente Vascular Cerebral, mais conhecido como derrame), Mal de Parkinson e aqueles com processo natural do envelhecimento”, explica Alessandra.

Atividades definidas de acordo com os ‘talentos’

A turma de idosos da oficina de cognição foi dividida de acordo com a necessidade de cada um. “Para isso, tivemos que conhecer a vida deles, a família, o cuidador, a profissão que exerceram e assim trabalhar uma estimulação em cima de algo que eles têm uma referência, porque não adianta desenvolver atividade envolvendo números com uma pessoa que sempre viu arte”, ressalta. Com um dos participantes, de Alzheimer, as psicólogas realizam atividades em inglês com ele. “Ele fala tudo em inglês. Foi preciso ver o perfil dele para trabalhar as tarefas”, informa a psicóloga.

A oficina conta com as duas psicólogas e quatro estagiários e 18 participantes, a maioria mulheres; as aulas ocorrem toda sexta-feira durante uma hora. “Quem tem Alzheimer, não consegue ficar mais de 45 minutos. Levamos em consideração o tempo deles também, mas sempre de olho no exercício”, acrescenta.

AVCA aposentada Emília Menezes de Leão, 70, participa das atividades e diz que adora montar o quebra-cabeças. “Só em vir para cá, me sinto melhor; fazemos novas amigas”. Ela teve AVC e hoje convive com o lado esquerdo do corpo paralisado.

Raimunda Alves, 74, é do município de Santarém (PA) e mora há dez anos em Manaus. Ficou muito doente, em consequência de um “derrame” que sofreu, mas vem apresentando resultados muito positivos a partir dos trabalhos na oficina. “Eu falo muito atravessado, mas estou falando”, afirma.

Maria da Conceição Pantoja Lopes, 62, também teve derrame há cinco anos e tem dificuldade para falar. Moradora da Silves, no igarapé do 40, conta que não pode fazer nada no dia a dia devido às limitações impostas pela doença, e que por isso as aulas – tanto as da oficina cognitiva quanto as da memória -, eram importantes para ela. “Gosto de fazer tudo e estou aqui aprendendo”, acrescenta.

Publicidade
Publicidade