Terça-feira, 16 de Julho de 2019
MAUS CAMINHOS

Quadrilha que saqueou verbas da Saúde no AM usava ‘códigos’ para mascarar propina

Membros do esquema da Maus Caminhos tinham dicionário próprio e se referiam aos pagamentos ilícitos usando termos como “remédio”, “maca”, “exames” e “receita”



Maus-Caminhos.jpg Foto: A Crítica
28/01/2018 às 10:55

Chamados de mafiosos pela Polícia Federal, os empresários, secretários e servidores alvos da segunda fase da operação Maus Caminhos, a “Custo Político”, confeccionaram um glossário do crime para mascarar o pagamento de propina e vantagens indevidas para os envolvidos no esquema criminoso.

“Macas”, “exames”, “receita”, “projetos”, “ofícios”, “documentos” eram algumas das expressões usadas habitualmente pelo grupo, que valendo-se de seus cargos e poder de influência no Estado, desviou recursos públicos federais superiores a R$ 110 milhões da Saúde, segundo investigação federal.

Analista da PF esclarece em relatório que em novembro de 2014 o médico e empresário Mouhamad Moustafa, apontado pela PF como líder do esquema criminoso, diz em mensagem para Evandro Melo, ex-titular da Secretaria de Estado de Administração e Gestão (Sead) e irmão do ex-governador José Melo, que gostaria de encontrá-lo para lhe entregar os “remédios”, e marcam na sede da secretaria.

As ‘macas’ de unidade

Em abril de 2015, Evandro Melo pede ao empresário pagamento de propina no valor de R$ 20 mil para um blog local. Em troca era oferecido blindagem contra notícias negativas que envolvessem as empresas do médico. No dia 21 de maio de 2015, pessoa identificada na investigação como “Pávulo André” envia mensagem a Mouhamad. “Veja a possibilidade de acrescentar 4 macas nas 20 macas de hoje, pois é aniversário da unidade”. No mesmo dia o blogueiro agradece a Mouhamad, a quem chama de “Dr Galático”.

Para a PF, merece destaque que na conversa entre Mouhamad e André não há um encontro marcado para essa data, todavia no dia 30 de junho de 2015 André informa que esteve na semana anterior com o “02”, possivelmente Evandro Melo, e que o “apoio” foi aumentado para “30 bailarinas”. Novamente, André evita falar abertamente em dinheiro, mas é possível perceber que ele estava querendo dizer que o valor de R$ 20 mil seria aumentado para R$ 30 mil, diz o relatório da Polícia Federal.

’30 enfermeiras novas’

No dia 30 de julho de 2015, o blogueiro envia mensagem para Mouhamad sobre as “novas 30 enfermeiras”. No dia 11 de dezembro de 2015 Mouhamad diz que tem “relatórios” para entregar a Evandro, que pede ao empresário para deixar com Marinete – provavelmente sua secretária, Marinete Mendes da Silva.

Em mensagens no dia 17 de dezembro de 2015, Mouhamad pede para Evandro ajuda para liberação do dinheiro da Salvare – terceirizada da Saúde usada no esquema – que está no Bradesco. Entre esta data e o dia 5 de janeiro de 2016, as empresas controladas por Mouhamad (Total Saúde, Salvare, Simea, INC), receberam quase R$ 23 milhões em repasses do Governo do Amazonas. Conforme destacou o relatório, “todos esses episódios de “documentos” e “ofícios” levantam a suspeita de que, em verdade, esses termos são códigos para indicar a entrega de dinheiro”.

O líder do esquema em 16 de março de 2015 se oferece para “ver os exames” do ex-secretário, em 15 de abril de 2015, ele se oferece para ir na casa de Evandro para entregar o “projeto”. Evandro Melo amealhou, conforme a investigação, R$ 5,7 milhões do esquema. Por mês, o então secretário recebia R$ 300 mil.

Manteve mesada

Wilson Alecrim, ex-secretário que chefiou a Secretaria de Estado de Saúde (Susam), atuou não somente na criação do esquema criminoso na função de, enquanto gestor, iniciar a descentralização da gestão das unidades de saúde colocando-os sob o poder das empresas controladas por Mouhamad Moustafa, como foi mantido no esquema mesmo depois de ter deixado a pasta.

A investigação da Polícia Federal (PF) apontou que ele seria a pessoa na qual Mouhamad se refere como “do que foi embora e mandaram manter”, mesmo tendo deixado o cargo de secretário de Estado da Saúde, mas por ordem de “alguém”, a propina continuava sendo paga.

Cumprindo prisão domiciliar, Alecrim recebeu, segundo a PF, R$ 3,6 milhões de vantagens indevidas, sendo R$ 2,5 milhões em propina. Por 19 meses, o ex-secretário teria recebido uma mesada de R$ 133,5 mil.

Personalidade criminosa

Resolver brigas em festas com agressões físicas sob o respaldo de coronel da Polícia Militar (PM), tramar a morte de uma viúva e até de esposa e filho de um desafeto. Esses são alguns dos episódios narrados em representação da Polícia Federal que relata a personalidade violenta do médico e empresário Mouhamad Moustafa, suspeito de chefiar uma organização criminosa que desviou recursos da Saúde.

Análises dos materiais apreendidos na operação “Custo Político” demonstram a violência de Mouhamad. Em conversa por meio de aplicativo, o empresário fala com Priscila Marcolino, coordenadora financeira do esquema e seu braço direito, a respeito de um processo por assédio moral que uma mulher identificada como “Karen”, estaria movendo. “Ela vai mover por tortura agora”, diz Mouhamad.

Entretanto, apesar da recomendação de Priscila para tomar cuidado, diante do fato de que “os parentes dela (Karen) são barra pesada”, o empresário revela que não se intimida e diz: “quero ver se são pior que eu” e que não chegaria aonde chegou se tivesse medo de “bandido grande”. Para a PF, isso demonstra que ele se sentia protegido pela estrutura policial e pelos agentes públicos por ele corrompidos.

Em outro episódio, ocorrido em 9 de julho de 2015, Priscila envia uma mensagem de áudio a Mouhamad informando a respeito do fato de que a empresa Salvare teria que indenizar uma viúva em razão de falha no serviço. “A viúva a gente acha quem é e mata ela e fica tudo resolvido, não vai ter que pagar po*** nenhuma, entendeu? Aí não sobra mais nada pra ninguém”.

Em março de 2016, Priscila conversa com Mouhamad sobre uma confusão em um camarote de uma festa. O empresário ordena então que ela mande o “coronel” para tirar o envolvido na “porrada”. “Coronel” para a PF, se trata de Aroldo da Silva Ribeiro, que trabalhava como segurança pessoal de Mouhamad.

“Manda o coronel tirar na porrada e ver quem é o cara”, diz o médico. Meia hora depois Mouhamad manda nova mensagem para Priscila: “Já dei porrada no cara aqui na delegacia. Bati nele e vazei, pra não dar nada pra mim”.

Em outra ocasião, a PF destaca vídeo em que Mouhamad manda da casa de Gilmar. Na conversa, o empresário afirma que a casa logo será deles e faz ameaça de matar a mulher e filha de Gilmar.

Conversa sob suspeita

Em janeiro de 2016, Mouhamad Moustafa e Pedro Elias, também ex-secretário da Saúde, buscam, segundo a PF, dissimular o pagamento de propina com termos médicos. Entretanto, a PF considera que “ofende o senso comum o fato de um médico precisar de outro para passar uma receita”, bem como a “farmácia” fazer a devolução da “receita” em período posterior ao seu recebimento.

Além disso, o fato de Mouhamad se dar ao trabalho de restituir a “receita” devolvida ao secretário à época, juntamente com o fato de que a “farmácia” não aceitou a receita “por divergência na assinatura do médico” é avaliado pela Polícia Federal como “cômico se não causasse asco”. Pedro Elias teria recebido R$ 1,6 milhão em vantagens indevidas, sendo R$ 1,4 milhão de propina e o restante em diárias em hotéis, viagens e outros.

Mouhamad leva ‘documento’ a Lobo

No dia 4 de setembro de 2014, Mouhamad marca uma reunião com o então secretário de Estado de Fazenda (Sefaz), Afonso Lobo, alegando que precisava de cinco minutos para deixar “uns documentos” que achava que “só ia ter em mãos semana que vem”. Lobo prontamente responde: “Pode ser amanhã, irmão?”

“O teor da conversa, ainda que desvinculado dos demais indícios de pagamentos de dinheiro em espécie e outras vantagens econômicas, já revela a fragilidade daquilo que quer parecer. Chama atenção o fato de um secretário de Estado receber rapidamente um empresário para entregar documentos, função que poderia ser executado por pessoas que assessoram ou auxiliam os envolvidos em tarefas de menor importância”, diz trecho do relatório da PF.

Afonso Lobo teria recebido, segundo a PF, R$ 2,2 milhões em vantagens indevidas, sendo R$ 1,6 milhão em propina. Lobo, até então é o ex-secretário que teria recebido suborno pelo maior período – 32 meses, de acordo com a PF, em parcelas mensais de R$ 50 mil.

Chama a atenção da Polícia Federal o grau de intimidade entre Lobo e o empresário. Em conversa no dia 17 de dezembro de 2014, Mouhamad diz: “Bom dia, doutor, grande abraço ao senhor, você é um irmão e lhe admiro e respeito mais a cada dia”. O secretário retribui: “A recíproca é verdadeira.

Esquema mafioso

“Custo Político” foi, de acordo com a PF, o código utilizado por Mouhamad Moustafa para se referir ao pagamento de propina para agentes do alto escalão do governo. O método utilizado pelos membros da organização, segundo a PF, se assemelha com a Omertà, um código de honra da máfia italiana.

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