Domingo, 17 de Outubro de 2021
Entrevista

Quantia de dinheiro desviada por ano, no Brasil, devido à corrupção, chega à casa de 200 bilhões de reais

Em entrevista ao A CRÍTICA, o delegado Guilherme Torres, titular da Delegacia Especializada em Combate à Corrupção (Deccor), falou sobre o tema



image_4C574405-C83D-46CC-83F5-BD870751CCBF.jpg Fotos: Reprodução e. Junio Matos
07/10/2021 às 09:49

A corrupção brasileira é socialmente estrutural e a única forma de diminuí-la é por meio de intensa fiscalização. Essa é a opinião do delegado Guilherme Torres, titular da Delegacia Especializada em Combate à Corrupção (Deccor), que conversou com  A CRÍTICA nesta terça-feira (05), dia em que a unidade policial completou um ano.

Torres desempenhou os cargos de secretário da Secretaria Executiva Adjunta de Operações (Seaop), diretor do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO) e delegado titular da Delegacia Especializada em Roubos, Furtos e Defraudações (Derfd). Ele, que também atuou pela Polícia Civil do Amazonas (PCAM) nos municípios: Novo Airão, Urucará e Tabatinga - do interior do estado - reiterou que a Deccor é um primeiro passo no tratamento da corrupção brasileira. Segundo o delegado, ela é crônica e mata mais que o tráfico de drogas.

Você sente que a Deccor combate apenas a corrupção, mas não o raiz do problema?

Sinto que foi dado o primeiro passo. Caminhamos, mas ainda há muita estrada a ser percorrida. Quando passei a entender a corrupção como algo macroscópico, passei a ver as delegacias de combate à corrupção como apenas um primeiro passo. No meu entendimento, a corrupção deveria ser crime hediondo no Brasil. Ela rouba o futuro de gerações e mata. Deveria ser mais combatida do que o tráfico de drogas. A raiz da corrupção é muito mais profunda do que podemos imaginar. Ela é um problema cultural e precisamos lutar contra isso. O Brasil foi colonizado de uma maneira na qual ser malandro é legal.

O que o Estado pode fazer para tornar a corrupção uma exceção e não uma regra no Brasil?

O primeiro passo foi dado: criação das delegacias de combate à corrupção. O segundo é estruturá-las com equipamentos de inteligência, efetivo policial, autonomia das polícias. Aí sim começaremos a dar um passo muito mais robusto. A possibilidade de ocorrência de interferências políticas precisa acabar e isso acontecerá por meio da autonomia da polícia. Assinei no dia 4 de outubro um documento em apoio ao delegado Akira Sato, que renunciou ao cargo de delegado-geral de Santa Catarina. Ele o fez por não aceitar interferência política em investigação policial. O sistema político brasileiro é assim. A corrupção é crônica no Brasil. A corrupção brasileira não é própria de partido A ou B, mas das pessoas. É necessário haver uma mudança de mentalidade, de cultura. A fiscalização é, com certeza, a saída para esse problema.

 

 

Como você se sente a respeito desse primeiro ano de trabalhos da Deccor?

Ela é um desafio, porque nunca existiu. Eu sou o primeiro delegado da Deccor. A delegacia de combate à corrupção é um movimento do Ministério da Justiça, que teve de ser implantada em todos os estados. Atualmente, todos os 27 possuem uma. Eu a vejo como um primeiro passo no combate à corrupção. Hoje, o maior desafio da minha carreira é a Delegacia Especializada em Combate à Corrupção.

A escassez de efetivo da qual a Polícia Civil do Amazonas sofre atualmente afeta os trabalhos?

Hoje, eu tenho três investigadores. O ideal, de acordo com o Ministério da Justiça, são 25. Precisamos aumentar o efetivo da Deccor e isso já está dentro da programação do Ministério da Justiça. Precisamos ter autonomia da Polícia Civil, administrativa e financeiramente.

Qual é o perfil dos criminosos investigados pela delegacia?

Os alvos são  mais poderosos. A Deccor não investiga somente servidores públicos. Se o particular tiver ciência que uma pessoa é servidora pública e cometer um crime com ela, ele poderá ser investigado por nós.

O que você projeta para o segundo ano da Deccor?

Pela programação, teremos mais incentivo financeiro, equipamentos de inteligência, provavelmente um aumento de efetivo. Aí as investigações vão acelerar, e é isso que espero para o próximo ano da delegacia.



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Repórter de A Crítica
Jornalista graduado no Centro Universitário do Norte (UniNorte), que busca trazer um pouco de storytelling a todos os aspectos da vida, principalmente aos textos que levam sua assinatura.

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