Sábado, 31 de Outubro de 2020
MAPA DA FOME

Quase um milhão de amazonenses conviveram com a fome entre 2017 e 2018

Pesquisa do IBGE revelou que mais de 71% dos moradores do AM estavam com algum grau de insegurança alimentar. Ao menos 37% destes conviviam com a fome como uma realidade diária



miseria-eduardo-familia-bsb-2017-8711_106E0F46-B243-40C7-8CF7-DB9047D13279.jpg Foto: Reprodução/Internet
17/09/2020 às 12:30

Do total de 1 milhão e 14 mil domicílios particulares permanentes estimados pela POF 2017-2018, no Amazonas, 34,5% ou 349 mil estavam em situação de Segurança Alimentar, enquanto 65,5%  ou 665 mil domicílios particulares restantes estavam com algum grau de Insegurança Alimentar. É o que revela os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, disponibilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, nesta quinta-feira (17). Dentre esses, a proporção de domicílios em IA leve foi de 48,4% (322 mil domicílios), e 30,0% (199 mil) dos domicílios particulares estavam em IA moderada, e 21,6% (144 mil) em IA grave. Tanto a situação moderada quanto a grave, colocaram o Amazonas na segunda pior posição do país.

Os resultados apresentados nas pesquisas discutiram a classificação dos domicílios particulares brasileiros segundo quatro graus: segurança alimentar (SA), insegurança alimentar leve (IA leve), insegurança alimentar moderada (IA moderada) e insegurança alimentar grave (IA grave).Considerando o nível de IA grave como a forma mais severa de baixo acesso domiciliar aos alimentos, é possível afirmar, com base nos resultados da POF 2017-2018, que cerca de 144 mil domicílios no Amazonas passaram por privação quantitativa de alimentos, que atingiram não apenas os membros adultos da família, mas também suas crianças e adolescentes. Houve, portanto, ruptura nos padrões de alimentação nesses domicílios e a fome esteve presente entre eles, pelo menos, em alguns momentos do período de referência de três meses.



Quanto ao número de moradores do Amazonas em situação de Segurança ou Insegurança Alimentar, a POF 2017-2018 revela que, dos 3 milhões e 893 mil moradores estimados no Estado, 1 milhão e 128 mil deles, ou 29,0%, estavam em Segurança Alimentar; e 2 milhões e 765 mil, ou 71%, em situação de Insegurança Alimentar, sendo 1 milhão e 325 mil, em IA leve, 819 mil em IA moderada, e 622 mil em IA grave. Ou seja, 622.000 pessoas em todo estado passaram por privações quantitativa de alimentos, havendo assim, ruptura nos padrões de alimentação dessas pessoas.

Numa comparação com os percentuais do Brasil, pode-se afirmar que os percentuais do Amazonas eram mais altos no que diz respeito à Insegurança Alimentar. Enquanto a proporção nacional foi de 36,7%; no Amazonas, a proporção foi de 65,5%, ou seja, 28,8 p.p. mais alta. Dessa forma, a Insegurança Alimentar no Brasil atingia 36,7% e, no Amazonas, atingia 65,5%, ou seja mais de 6 a cada 10 domicílios.

A proporção da Região Norte é de 57,0% de algum grau de Insegurança Alimentar. Considerando os demais Estados do Norte, a proporção de Insegurança Alimentar do Amazonas é a maior, com a taxa de 65,5%. O segundo Estado com maior proporção de IA é o Pará (61,2%), e o terceiro, o Amapá (59,4%). O Estado da Região Norte com menor percentual de IA é Rondônia, com 36,3%. É importante ressaltar também que a taxa de Insegurança Alimentar do Amazonas foi a segunda maior registrada no país, sendo inferior apenas à do Maranhão (66,2%).

Fome no Norte do país

Na Região Norte, havia um total de aproximadamente 5 milhões de domicílios, no período da pesquisa (2017-2018). Dentro deste universo, a pesquisa identificou que em cerca de 2,2 milhões havia segurança alimentar. Em 2,8 milhões de domicílios, contudo, havia alguma insegurança alimentar. Desses, em 1,6 milhão de domicílios a insegurança alimentar era leve, em 749 mil domicílios a insegurança alimentar era moderada e em 508 mil domicílios, a insegurança alimentar era grave. Assim, 43,0% dos domicílios da Região Norte apresentaram segurança alimentar.

Em relação às outras grandes regiões, a proporção de segurança alimentar do Norte foi a mais baixa. A Região Nordeste apresentou 49,7% dos domicílios com segurança alimentar, a Região Centro-Oeste, 64,8%, Região Sudeste, 68,8%, e Região Sul, 79,3%.

Consequentemente, a Região Norte foi a região que apresentou a maior proporção de domicílios com Insegurança Alimentar, 57,0% (2,8 milhões de domicílios); a Região Nordeste foi a segunda maior, com 50,3% (9 milhões de domicílios); depois, a Região Centro-Oeste, com 35,2% (1,9 milhão de domicílios); a Região Sudeste, com 31,2% (9,4 milhões de domicílios), e a Região Sul, com 20,7% (2,2 milhões de domicílios).

Na Região Norte, dos 2,9 milhões de domicílios com Insegurança Alimentar, 55,8% apresentaram IA leve (1,6 milhão de domicílios), 26,3% (749 mil domicílios) apresentaram IA moderada e 17,9% (508 mil domicílios) apresentaram IA grave. Em relação à Insegurança Alimentar grave, a Região Norte foi a que apresentou o maior percentual (17,9%), seguido pela Região Nordeste, com 14,2% (1,3 milhão de domicílios), pela Região Centro Oeste, com 13,4% (251 mil domicílios), pela Região Sul, com 10,8% (237 mil domicílios) e pela Região Sudeste, com 9,2% (864 mil domicílios).

Quanto ao número de moradores da Região Norte em situação de Segurança ou Insegurança Alimentar, a POF 2017-2018 revela que dos 17 milhões e 767 mil moradores estimados Para a Região, 6 milhões e 720 mil deles, ou 37,8%, estavam em Segurança Alimentar; e 11 milhões e 47 mil, ou 62,2%, em situação de Insegurança Alimentar, sendo 5 milhões e 938 mil (33,4%), em IA leve, 3 milhões e 61 mil (17,2%), em IA moderada, e 2 milhões e 48 mil (11,5%), em IA grave.

Desempenho só piorou

Em 2004, quando a PNAD Contínua avaliou a situação de Segurança Alimentar dos domicílios pela primeira vez, a Região Norte possuía 53,4% de domicílios em situação de SA, e 25,3% estavam em IA moderada ou grave. Em 2017-2018, a proporção de domicílios com SA foi de 43,0%, ou seja, caiu mais de 10 p. p., em relação a 2004; e a proporção de domicílios com IA moderada ou grave foi de 25,7%, ou seja, cresceu 0,05 p.p., nesse período (de 2004 a 2018).

É possível afirmar, também, que em 2004, a Região Nordeste era a que tinha menor percentual de domicílios em Segurança Alimentar, com 46,4%, enquanto o Norte tinha 53,4%. O cenário que mudou em 2017-2018, quando a Região Norte aparece como aquela com menor proporção de domicílios nessa situação, 43,0%; o Nordeste com 49,7%. Historicamente, as Regiões Norte e Nordeste continuam apresentando as menores proporções de domicílios com SA, enquanto as Regiões Sul e Sudeste têm apresentado as maiores proporções.

Características dos domicílios

Quando consideramos a segurança alimentar para os domicílios que possuíam o abastecimento de água na Região Note, dos 59,2% ligados rede geral de distribuição e 40,8% tinham outra forma de abastecimento de água. Entre os que estavam ligados à rede geral de água, 62,3% tinham segurança alimentar. Já os tinham outra forma de abastecimento, somente 37,7% dos domicílios possuíam SA.

Considerando o esgotamento sanitário, entre os que possuíam segurança alimentar, 22,9% estavam ligados à rede de esgoto ou água pluvial; 71,2% possuíam fossa e 5,9% tinham outra forma de ligação ou não possuíam esgotamento.

Entretanto, quando são observados os resultados para os domicílios com IA moderada ou IA grave, na Região Norte, o percentual dos domicílios com Rede geral de distribuição água (56,8% e 56,6%, respectivamente. No caso do esgotamento sanitário as diferenças são ainda maiores. A existência de Rede geral, pluvial ou fossa ligada a rede está em somente 14,7% dos domicílios em IA moderada e em 16,7% dos domicílios com IA grave. Em ambos os casos, a existência de Fossa não ligada a rede é bastante relevante (67,4 e 54,9%, respectivamente).

O uso de combustível (Gás de botijão ou encanado) para a preparação dos alimentos apresentou 96,7% de uso nos domicílios com SA do Norte, 94,2% de uso nos domicílios com IA moderada, e 90,3% nos domicílios com IA grave. Já o uso de Lenha ou carvão foi bem mais frequente nos domicílios com IA moderada (47,3%) e IA grave (51,4%), o que pode estar indicando que o uso dessa alternativa por razões de custo. Quanto ao uso de Energia elétrica como combustível para a preparação dos alimentos, quanto maior o grau observado para IA menor o uso, sendo 38,1% nos domicílios em SA e 25,9% nos domicílios com IA grave.

Quando o foco de comparação é a cor ou raça da pessoa de referência, aqueles domicílios cuja pessoa de referência se declarou parda são os que apresentaram os maiores percentuais em todos os níveis de IA. Enquanto nos domicílios com SA eles representaram 67,7%,nos níveis de IA moderado e grave, os percentuais de domicílios com pessoa de referência parda ficaram acima de 70% (73,1% para IA moderada e 72,0% para IA grave). Com relação à composição dos domicílios, quando se observa a correlação entre o total de moradores e a condição do domicílio quanto à SA ou IA, nota-se uma relação inversa existente entre esta variável e a prevalência associada. Para os domicílios em condição de SA, 54,3% apresentaram até três moradores. Em contrapartida, esse percentual foi de 48,3% para os domicílios em IA grave. Registra-se, portanto, uma diferença de 6 pontos percentuais entre estas duas condições extremas.

Condições de vida

No caso da avaliação subjetiva do padrão de vida relativa à Alimentação, chama a atenção que, nos domicílios em Insegurança Alimentar na Região Norte, um percentual considerável avaliou o padrão como bom ou satisfatório. Nos domicílios com IA moderada, 35,2% avaliaram o padrão como bom e 48,9% como satisfatório. Já nos domicílios com IA grave, 29,2% avaliaram o padrão de vida no que tange à Alimentação como bom e 48,0% como satisfatório.

Em relação a avaliação da saúde, é interessante notar que mesmo nos domicílios da Região Norte com SA o padrão de vida para esse quesito foi considerado ruim para 23,6%, um percentual bastante elevado haja vista que, nesse segmento, a avaliação ruim para Alimentação foi de 1,1%, de Moradia, 5,2%, e Educação, 11,4%. No caso dos domicílios com IA grave, a avaliação do padrão de vida relativo à Saúde foi considerada ruim por 49,7% dos domicílios, a pior avaliação de todos os quesitos.

A avaliação subjetiva do padrão de vida nos quesitos Saúde e Educação foram as que apresentaram as menores diferenças entre os domicílios com SA ou IA, da Região Norte. Comparando-se, por exemplo, os domicílios com SA com aqueles em IA grave, que avaliaram o padrão de vida como bom, no caso da Alimentação, a diferença foi de 41,1 pontos percentuais (70,3% e 29,2%, respectivamente), no caso do quesito Moradia, 22,8 pontos percentuais (67,2% e 44,4%, respectivamente), no quesito saúde, 17,9 pontos percentuais (46,6% e 28,7%, respectivamente) e no quesito Educação, 17,5 pontos (59,2% e 41,7%, respectivamente). Mesmo assim é importante ressaltar que, enquanto 11,4% dos domicílios com SA avaliaram o padrão de vida no quesito Educação como ruim, o mesmo foi feito por 25,1% nos domicílios com IA grave. Já no quesito Saúde, 23,6% dos domicílios com SA avaliaram o padrão de vida como ruim, e o mesmo foi feito por 49,7% nos domicílios com IA grave.

 

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