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Cotidiano
Superando crise

Superando crise, Cirandas de Manacapuru dão show e dividem título de campeã

Após acordo entre Flor Matizada, Guerreiros Mura e Tradicional, decidiu-se todas as associações seriam consideradas vencedoras, devido as dificuldades da crise financeira 28/08/2016 às 20:44 - Atualizado em 29/08/2016 às 08:14
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Muita gente já dizia que a ciranda não sairia. Mas a ciranda foi pra rua com prazer e alegria como sempre faz, tradicionalmente, há 20 anos no Festival de Cirandas de Manacapuru. No último sábado (27), contrariando a crise e a ausência de recursos financeiros governamentais, as associações folclóricas Flor Matizada, Guerreiros Mura e Tradicional, mesmo em formato reduzido, deram um espetáculo de cor e entusiasmo a quem foi à Arena do Parque do Ingá tomado de torcedores das agremiações. Após um acordo entre as cirandas, decidiu-se que neste ano, em face que com as dificuldades não haveria disputa, todas as associações folclóricas foram consideradas campeãs do 20º Festival.

Flor Matizada

A Flor Matizada foi a primeira a adentrar na arena. Assim como as co-irmãs, a então campeã do Festival reduziu a quantidade da sua apresentação, mas não deveu em nada em qualidade para brincar com toda sua desenvoltura característica dentro do tema “Raiz, Arte e Paixão do Império da Magia Cirandeira”.

A associação folclórica começou sua apresentação surpreendendo: o apresentador, Afonso Jr., entrou no Parque do Ingá sentado em uma canoa, sendo conduzido por brincantes no meio da torcida, e desabafando. “Hoje vai ter ciranda sim. Quem está doente é a classe política brasileira. Viva a cultura do nosso povo e a identidade cabocla. Viva a ciranda”, disse ele, emocionando os torcedores.

E em seguida entraram os cantadores Erickson Mendonça e Bebezinho para enlouquecer a galera lilás e branca. O Cordão de Cirandeiros representou a Flor Matizada e, no total, a agremiação trouxe 200 componentes. Antes, um grupo de componentes veteranos se apresentou freneticamente; abrindo a evolução, veio a brincante Rosirene Oliveira, que encarnou a personagem Constânzia e trouxe uma criança - ambas vestidas lindamente com roupas de plumas e brilhos. Clássicos do folguedo como “Ciranda ô Ciranda / Vamos Todos Cirandar” foram entoados, em um bailado que encantou e arrancou aplausos dos torcedores.

A Porta-Cores Fernanda Sabóia veio dos céus em uma escultura içada por cabos e que representava a escola Nossa Senhora de Nazaré, que deu origem à ciranda na década de 1980. Um dos pontos altos foi quando parte dos cirandeiros foi para a torcida literalmente, evoluindo e interagindo com a sua galera. De uma nave espacial veio a a princesa Cirandeira, Giovanna Maddy: a jovem trouxe graça e beleza ao Parque do Ingá e à Flor Matizada.

No passo “Explosão da Paixão” surgiu a Cirandeira Bela Camila Marques: ela veio em uma alegoria que representou um beija flor. Ao final todos os itens foram evoluir para a sua galera lilás e branca no meio da torcida. Na arena, uma verdadeira apoteose dos itens principais encerrou com chave de ouro a exibição da ciranda.

Mura

O apresentador Adalto Jr. foi o responsável por abrir os trabalhos da Guerreiros Mura, aquecendo a torcida com frases de incentivo e abrindo alas para o famoso cantor Gamaniel Pinheiro, que está há 23 anos na ciranda do bairro da Liberdade.

O tema deste ano foi “Somos Luta, Somos Glória, Guerreiros Mura uma História de Vitórias”, enfatizando as conquistas que fizeram a associação folclórica ser uma supercampeã de Manacapuru. A roupa dos cirandeiros foi uma das mais luxuosas entre as três cirandas que se apresentaram na noite de sábado no Parque do Ingá: cheia de brilho e trazendo cocares de penas tanto nos homens quanto nas mulheres, fazendo alusão ao nome indígena que ostenta a agremiação.

A Princesa Cirandeira Paula Araújo chegou misteriosamente e arrancando suspiros: ela saiu de um cesto indígena trazido por índios. A item abriu a série de apresentações de itens oficiais onde a Guerreiros Mura mostra seu carinho pelos brincantes: cada uma das mulheres belas oficiais da agremiação evoluiu sob umacanção exclusiva pra ela!

A Mura relembrou a conquista de 2004, quando trouxe o tema “Uma Amazônia que Clama por Preservação”.  Na apresentação do sábado passado, a agremiação trouxe a cirandada “Bicho Solto”, e a aparição do tradicional personagem Carão e coreografias de crianças do projeto “Arte no Bairro”.

O cantor Edilson Santana fez participação  especial cantando junto com a artista Rossi Mendonça para a chegada da Porta-cores Sabrina Sales, que surgiu de dentro de uma alegoria da flor da vitória-régia. Ela evoluiu lindamente e mais uma vez a agremiação cantou uma canção que trazia seu nome.

Em meio a um jardim surgiu com esplendor a Cirandeira Bela Talita Bastos - a roupa dela lembrava uma  bela borboleta: ela até empunhou a bandeira com as cores azul, vermelha e branca da Guerreiros Mura. A exemplo de outros itens ela teve canção em sua homenagem. A coreografia da dança foi do artista Marcelo Dias.

O momento mais emocionante da festa foi quando o apresentador Adalto Jr. homenageou a professora Mirtes Pinheiro, falecida dia 14 de março deste ano aos 72 anos e que, além de ter sido torcedora fervorosa da Guerreiros Mura, também era mãe do cantor Gamaniel Pinheiro (que não se conteve e parou em vários momentos a música para chorar ao relembrar sua genitora).

Tradicional

Uma das mais queridas agremiações de Manacapuru, a Tradicional foi a terceira e última ciranda a se apresentar no 20º Festival. Um dos itens mais queridos da torcida, o apresentador Vivaldo Freitas conduziu a 1h30 de exibição da associação folclórica com a popular maestria e improviso, sempre com apoio da TOT (Torcida Organizada da Tradicional). Fazendo jus ao nome, a primeira canção a ser entoada, já com o cantor Abraham Lincoln,foi o clássico e famoso refrão cirandeiro “Boa noite meus senhores / Boa noite autoridades / A Ciranda lhes deseja saúde e felicidade”. Era a deixa para os cirandeiros mostrarem todo o seu gingado e entusiasmo, sem deixar a peteca cair durante a evolução.

Um momento de emoção foi na chegada à arena da Porta-Cores Joelma Barroso: ela veio pelo ar conduzida por uma coruja gigante representando o “Saber Tradicional”. Era a despedida da item oficial, que a partir deste ano vai se dedicar a projetos particulares.

A Princesa Cirandeira Alessandra Mendonça representou a “Filha da Miscigenação”: como uma verdadeira majestade, ela apareceu para o público sentada em um trono cuja alegoria foi confeccionada pelo artista parintinense Oseás Bentes.

A torcida da Tradicional foi à loucura quando entrou em cena a Cirandeira Bela Ane Santana. Uma das mais lindas representantes das cirandas, ela demonstrou arrojo ao vir dentro de uma gigantesca coroa içada por um guindaste. No chão, a habitual raça e desenvoltura de sempre, desta vez em uma bela fantasia de plumas verdes e brancas, com prateados de pedras verdes.

O apresentador Vivaldo Freitas também relembrou o nome da professora Mirtes Pinheiro, e agradeceu ao apoio da também professora Cleonice Brito pelo apoio à ciranda Tradicional.

O encerramento do 20º Festival de Cirandas de Manacapuru ocorreu em meio a uma apoteose com a presença de brincantes da Flor Matizada e Tradicional e de dirigentes da Guerreiros Mura. Era o sentimento de dever cumprido após o mais difícil ano das cirandas da “Princesinha do Solimões”.

Blog: Maria Madalena Campelo, 65, professora e fundadora da Flor Matizada

“Parei recentemente de fazer parte da ciranda após problemas de saúde nos rins muito sério que eu descobri em janeiro. Só 40% dos rins funcionando nos dois. Estou tratando da saúde. Mas esse problema  não me afeta em nada para acompanhar a ciranda aqui no Parque do Ingá. Eu amo a Flor Matizada. Só vim pra ver ela. Não estou muito bem, mas é esse amor que me traz até aqui.

Tudo começou numa festa junina do colégio Nazaré onde uma professora que mora em Manaus, mas tinha vindo trabalhar conosco, falou para nós da apresentação da ciranda em 1980; nós nos interessamos e levamos à frente até agora. Mas quem trouxe realmente pra cá foi a professora Perpétuo Socorro de Oliveira. Eu nunca dancei, mas cantava, puxava e organizava”.  

Blog: Gamaniel Pinheiro, cantor da Guerreiros Mura

“Eu peço até desculpas, pois eu tentei segurar ao máximo as lágrimas ao relembrar a minha mãe (Mirtes Pinheiro), mas não deu. Minha mãe ficava ali na arquibancada, no cantinho, e aí ela era a pessoa que dava a força para mim e para o meu irmão na ciranda. Sem dúvida nenhuma é o momento de maior emoção nesses anos para mim, que estou na Guerreiros Muras e que já fui da Flor Matizada e participei lá da Tradicional, no início da ciranda. Estou na Guerreiros Mura desde 1999, e esse é um momento única da minha vida, que eu não sei explicar e nem sei se vou viver novamente. Só quero agradecer a vocês que vieram prestigiar o nosso Festival. Quero dedicar essa apresentação e o título desta ano para ela e a todos que se dedicaram para que esse espetáculo acontecesse, não da maneira como gostaríamos e com a grandiosidade, mas da maneira que sabemos fazer, motivando, trazendo a nossa torcida para perto da gente e colocando os cirandeiros acima de tudo, fazendo o bailado, o gingado que eles sabem fazer”.

Joelma Barroso, 25, porta-cores da Tradicional

“Hoje eu vivi uma emoção sem igual. Acho que de todas as emoções que eu já senti aqui na ciranda, este não tem igual foi a minha despedida da associação. Foi meu momento mais emocionante, e de maior alegria também por mostrar todo o trabalho que estamos fazendo nesses anos. Estou cheia de felicidade. E sei que a próxima Porta-Cores que assumir meu cargo vai se dar muito bem, e existem pessoas maravilhosas para ocupar meu lugar. E com certeza ela vai um show também. Estou há quatro anos como item e 2 anos no cordão de cirandeiros. Saio por motivos particulares, faculdade (ela faz o Curso Superior de Tecnologias em Alimentos na Universidade do Estado do Amazonas (UEA)), correria, estou me formando, etc. Está complicado e não dá pra conciliar atualmente. Quem sabe futuramente, não é mesmo?”

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