Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
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Quer um carro autônomo? Pois os caminhões devem chegar antes ao mercado

Apesar do entusiasmo do Vale do Silício com os carros autônomos, provavelmente ainda teremos que esperar anos até ver um desses nas ruas. Mas o que dizer a respeito dos caminhões? Uma startup norte-americana composta aposta que as coisas podem ser diferentes



TRUCKS_MARKOFF_BSPR_4_1399488.JPG Foto: Rami­n Rahim­ian/T­he New Y­ork Times

Imagine que você está dirigindo em uma rodovia tarde da noite quando um caminhão enorme se aproxima de você. Então você relaxa, porque sabe que ele está mantendo uma distância segura e parece estar dentro dos limites de velocidade. Agora imagine que não há ninguém atrás do volante.

Apesar do entusiasmo do Vale do Silício com os carros autônomos, provavelmente ainda teremos que esperar anos até ver um desses nas ruas. Mas o que dizer a respeito dos caminhões? Uma startup aposta que as coisas podem ser diferentes.

A startup se chama Otto e é comandada por 15 ex-funcionários do Google, incluindo oito engenheiros. A empresa quer transformar o frete de longa distância, que é o feijão com arroz do setor de transporte comercial e, para isso, conta com nomes importantes dos projetos do carro autônomo do Google e do Google Maps.

Os engenheiros acreditam que automatizar caminhões, ao invés de carros de passageiros, seja economicamente mais vantajoso e tenha uma melhor aceitação entre os órgãos reguladores. Nos Estados Unidos, os caminhões correspondem a 5,6 por cento de todos os veículos e são responsáveis por 9,5 por cento dos acidenteis fatais em rodovias, de acordo com dados do Ministério dos Transportes.

Com a automação – ao menos no ponto em que se encontra agora –, os veículos de passeio poderiam se tornar absurdamente caros para qualquer pessoa que não ganhasse o mesmo que um dos chefões do Vale do Silício. Até recentemente, o sensor a laser utilizado no carro do Google custava US$75 mil.

Os custos estão caindo, mas ainda vai levar algum tempo até que cheguem a um patamar realista para os motoristas comuns. Contudo, um caminhão zero km custa facilmente mais de US$150 mil, o que significa que o custo extra da robotização faria mais sentido. Além disso, a novidade poderia tornar o transporte mais simples, permitindo, por exemplo, que o motorista durma enquanto o caminhão assume o comando.

Mesmo assim, a automação do transporte comercial ainda é controversa e pode representar o fim de muitos empregos. Existem mais de três milhões de motoristas de caminhão apenas nos Estados Unidos, de acordo com a Associação Americana de Transporte Rodoviário, e cerca de 1 em cada 15 profissionais do país trabalha para uma empresa de transporte rodoviário.

Muitos temem que a automação do setor represente um estrago gigantesco para as pequenas cidades do país, cuja economia depende do fluxo constante de caminhões em rotas de longa distância.

“Se os caminhoneiros deixarem as rodovias, o efeito sobre as cidades pequenas será similar ao visto há algumas décadas, quando as rodovias modificaram os trajetos que passavam por estradas menores”, afirmou Scott Santens, pesquisador independente, em uma postagem do ano passado.

Os últimos anos, os veículos autônomos se tornaram um dos projetos prediletos do setor de alta tecnologia. O Uber acredita que essa seja uma boa forma de se livrar dos motoristas. A Tesla e outras montadoras veem a automação como uma ótima maneira de aumentar a segurança para os motoristas e passageiros. Até a Apple estaria trabalhando em alguma tecnologia de automação veicular.

O Google, em particular, é um defensor ferrenho da criação de tecnologias de automação e seu veículo autônomo pode ser visto com frequência nas ruas da Baía de San Francisco. Além disso, a empresa anunciou um acordo no início de maio com a Fiat Chrysler para instalar a tecnologia em uma frota de minivans.

Desde a fundação da empresa pelos veteranos dos projetos do carro do Google e do Google Maps, Anthony Levandowski e Lior Ron, em janeiro deste ano, eles já contam com 41 funcionários e fazem testes em três caminhões da Volvo, tendo percorrido mais de 16.093 quilômetros. Durante um fim de semana, a empresa testou um caminhão autônomo nas estradas de Nevada.

A Otto começou em uma velha oficina mecânica, próxima da entrada de uma rodovia no bairro de South of Market, em San Francisco. Contudo, o novo escritório tem espaço o bastante para abrigar os três Volvos da empresa, que foram equipados com câmeras, radares e sensores a laser giratórios conhecidos como Lidar.

Esse é basicamente o mesmo sensor utilizado nos protótipos desenvolvidos pela Google, pela Nissan, pela Baidu e por outras empresas. Contudo, Levandowski afirmou que o alto preço dos caminhões comerciais dá aos seus projetistas mais espaço para utilizar sensores de alta qualidade.

A Otto irá oferecer a tecnologia como opcional que pode ser comprado por donos de caminhões de grande porte, ou talvez como um serviço a ser oferecido a transportadoras de longa distância.

“No início sabemos que existem estradas em que podemos dirigir com mais segurança. Nessas estradas vamos dizer ao motorista que ele pode tirar um cochilo ou fazer uma pausa. Se a estrada tiver 800 quilômetros, estamos falando de 10 horas, o que é o suficiente para descansar de verdade”, afirmou Levandowski.

Os fundadores da empresa não revelaram quanto dinheiro investiram até o momento. Eles só disseram que pretendem “demonstrar a viabilidade comercial em breve”.

Mesmo com o progresso das tecnologias, a Otto ainda precisa encarar um verdadeiro labirinto regulatório e inúmeros concorrentes.

Uma startup do Vale do Silício conhecida como Peloton está concentrando seus esforços em comboios de caminhões para obter maior eficiência energética. No ano passado, a Daimler Trucks North America demonstrou um caminhão autônomo em Nevada. A Volvo e outras montadoras também realizaram demonstrações de caminhões autônomos em rodovias europeias.

As regras para veículos motorizados na Califórnia impedem que o sonho da Otto de ver um caminhão seguindo sozinho enquanto o motorista dorme se realize. Contudo, muitos outros estados permitiriam esse avanço técnico.

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