Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
Cultura

Mesa redonda discute a preservação da cultura dos indígenas e ribeirinhos

Mostra Multidisciplinar sobre Povos Indígenas encerra com mesa redonda na qual especialistas falaram sobre a fé dos ribeirinhos e o movimento de redução de direitos indígenas que ganha força no Brasil hoje



materia.JPG Mesa redonda reuniu antropólogo, sociólogo indigenista e represente da Associação de Mulheres Artesãs do Alto Rio Negro (Antônio Menezes)
11/08/2016 às 10:04

Uma mesa redonda sobre a importância das festas e da música na cultura ribeirinha e indígena no Amazonas, bem como o contexto político e a realidade Yanomami, além da atuação da Associação de Mulheres Artesãs do Alto Rio Negro (AMARN) na articulação política e geração de renda, fechou os debates da 1ª Mostra Multidisciplinar sobre Povos Indígenas. O evento em alusão ao Dia Internacional dos Povos Indígenas (9 de agosto) foi realizado pela Secretaria de Estado de Cultura (SEC), entre segunda e quarta-feira, no Centro Cultural Povos da Amazônia, na Zona Sul.

Na ocasião, o antropólogo Cristian Pio Ávila, explicou que as “comitivas de santo”, grupos de devotos que carregam a imagem do santo de devoção de comunidade a comunidade e recolhem donativos para fazer a festa do padroeiro, é fundamental para reforçar a identidade e os valores dos povos ribeirinhos e indígenas. “Essa expressão é comum nas comunidades ribeirinhas de praticamente todo o Estado do Amazonas. A festa de mastro e de santo é realizada pelo menos uma vez por ano em cada localidade e costuma durar três dias”, afirmou.



Conforme o antropólogo, essas festas tem muitas coisas importantes, dentre as quais possibilita que a comunidade faça propaganda de sim mesma. “Considero isso como uma das coisas mais importante porque como as comunidades são exogâmicas, os membros não se casam entre si, tem que procurar casamento fora da família, nada melhor do buscar parceiros e apresentar os filhos nessas festas. Além disso, a comunidade só cresce trazendo membros de outras famílias através do matrimônio e quanto maior ela é mais de fortalece”, lembrou Ávila.

Para ele, hoje está mais difícil para a comunidade realizar a festa por depender cada vez mais de dinheiro, mas ainda assim ela é uma expressão que não está ameaçada pela importância que tem na reprodução das comunidades e também em reforçar o “sentimento de comunidade”. “É uma expressão que tem garantia de ser longa e ter uma duradoura jornada pela frente. Não acho que as festas estejam ameaçadas até porque tem atração política, quanto maior a festa que a comunidade consegue fazer maior será o interesse político por ela”, apontou.

Agora, o antropólogo ressalta que algumas coisas dentro da festa estão se perdendo. O Gambá, ritmo do interior do Amazonas, que foi objeto de seu estudo, é um exemplo. “A música tradicional feita de forma acústica com tambores produzidos com material da floresta tem sido substituída dentro da festa. Antes era tocada durante todo o evento, hoje é apenas na hora de levantar e derrubar o mastro. As pessoas preferem dançar som mecânico de uma banda de forró. A maneira de comemorar a festa tem se modificado, mas a festa continua existindo”, observou.

Direitos

O sociólogo indigenista Silvio Cavuscens, por sua vez, destacou que as últimas três e quatro décadas foram propícias para a conquista de novos direitos e estabelecer a forma de convívio da sociedade nacional com os índios. Infelizmente, esse ciclo está chegando ao fim. “A conjuntura atual é desfavorável aos direitos indígenas. A gente ver no campo da educação, da saúde e territorial uma séria de problemas que afeta e atinge a autonomia do jeito de ser e a vida dos povos indígenas. Eles têm dificuldades de vivenciar sua realidade do jeito que querem”, disse.

Conforme Cavuscens, o fato de que os programas governamentais não sejam adaptados à realidade dos índios impacta de forma negativa na forma com que esses povos vivem. “O Bolsa Família, por exemplo, chega ao Amazonas do mesmo jeito que chega ao Sul do país, para qualquer pessoa pobre e necessitada. Não há preocupação em adequar a realidade indígena. Isso causa uma série de impactos, dentre os quais a mudança de hábitos dos índios”, afirmou, frisando que a interferência ameaça os direitos uma vez que uma nova realidade não é constituída.

Ele também apresentou o trabalho desenvolvido há 25 anos pelo Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami (Secoya). De acordo com o sociólogo indigenista, a organização apoia esses povos indígenas no enfrentamento dos desafios. “Buscamos implantar programas de educação diferenciada, de educação em saúde e apoiamos no processo organizacional dos Yanomami na perspectiva de favorecer maior autonomia e conhecimento em relação à sociedade nacional para que possam de fato, com conhecimento de causa, tomar as decisões que são devidas e melhor para eles”.

No Amazonas, o povo Yanomami se concentra nos municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira. Conforme Cavuscens, um terço da população Yanomami de todo país vive no Estado. “Nos 25 anos de existência da Secoya conseguimos alguns avanços junto a esse povo. Formamos 29 professores, implantamos educação diferenciada em dez escolas atingindo uma população de aproximadamente 600 crianças. Agora estamos trabalhando no processo de organização e desenvolvimento de suas atividades estimulando o protagonismo indígena”.

Os Dessanas em destaque na cultura

Ontem, no último dia da Mostra Multidisciplinar sobre Povos Indígenas, também teve uma oficina de instrumento musical indígena. Miguel Lana, índio Dessana, ensinou os participantes a confeccionar e a tocar uma “buzina de bambu”, instrumento utilizado no ritual da dança da fartura de peixe e carne, festa que dura 24h e é oferecida para famílias de outras etnias.  Miguel descende de uma famílias pioneira no registro da cultura Dessana e cujo marco inicial é a publicação do livro “Antes o mundo não existia”, de Firmiano Lana e o filho dele Luiz Lana. O livro é leitura obrigatória em todos os cursos mestrado e doutorado que tratam das questões amazônicas.

Miguel Lana ensinou participantes da mostra multidisciplinar a construir e tocar a flauta de bambu dos índios dessanas (Antônio Menezes)

Mostra

25 atividades, entre palestras, mesas redondas, oficinas de artesanato, gastronomia, apresentação de dança, exibição de filmes, os quais retrataram a cultura e a problemática indígena, foram apresentadas durante os três dias da 1ª Mostra Multidisciplinar sobre Povos Indígenas realizada no Centro Cultural Povos da Amazônia. 

A programação comemora o Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado no último dia 9. A data instituída em 2001 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em conjunto com os povos indígenas de diversas partes do mundo visa mobilizar a sociedade a fim de minimizar as desigualdades existentes e ampliar as garantias aos direitos das nações indígenas.

 

 


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