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Rastros da negritude: heranças da cultura afro resistem ao tempo e ao preconceito na capital do AM

No Dia da Consciência Negra, jornal A CRÍTICA conta histórias da população negra em bairros tradicionais de Manaus, como Morro da Liberdade e Praça 14 20/11/2014 às 09:52
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Manaus concentra pequena e expressiva população negra, herdeira de escravos
Luana Carvalho Manaus (AM)

Maria Januária da Silva, 79, é a moradora mais antiga do Beco dos Pretos, no bairro Morro da Liberdade, Zona Sul de Manaus. O local, que antes se chamava “Beco São Benedito”, é tradicionalmente conhecido pelas festas promovidas por negros.

“Quando cheguei aqui não tinha nada, só algumas árvores de tucumã e araçá. Tinha um sítio velho que era do Raul, mas o Vicente quem tomava conta. Morava também o Tibucio e suas filhas”, relembra a “tia Nega”, como ela é conhecida por todos no bairro.

Embora apenas 4,1% da população do Amazonas tenham se autodeclarado pretos no último Censo de 2010, as heranças da cultura africana continuam vivas em algumas partes da cidade de Manaus.

Além do Beco dos Pretos, outro “reduto” dos afrodescendentes é a Comunidade do Barranco, na Praça 14, mesma zona. Os dois lugares foram mapeados por pesquisadores do projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, que trabalha com os povos e comunidades tradicionais na Amazônia e em outras regiões do Brasil.


Maria Januária, 79 anos, a "Tia Nega" (Foto: Erica Melo)

“No dia Nacional da Consciência Negra fazemos uma grande feijoada, onde todos do beco participam. Essa festa já chegou a reunir mais de mil pessoas, mas muitos vizinhos já morreram e outros foram embora por causa do Prosamim”, contou Nega.

Bastante vaidosa e determinada, a aposentada exalta o orgulho pela cor. “Eu me sinto muito feliz, me sinto bonita, linda, maravilhosa, piso no chão firme e pra mim não tem nenhuma mulher mais linda do que eu. Valorizo minha pessoa e minha personalidade negra”.

Resistência

Dono do “Bar dos Pretos”, o comerciante Luiz Gonzaga Gonçalves, 51, é filho de negros e principal “historiador” da área. “Nos reunimos no meu bar para festejar e comemorar. Eu procuro guardar um pouco dessa história, resistindo para que nossa comunidade não se acabe”, comenta o filho de um agricultor negro.

Em seu bar, quadros com fotografias de antigamente chamam a atenção.  Entre as atividades mais tradicionais do bairro, está a feijoada, a festa do mingau e o futebol do final de ano.

“Antes da chegada do Prosamim nós nos reuníamos muito mais. Os moradores não queriam ir embora de suas casas. Muitos que foram adoeceram e morreram por causa da tristeza”, contou, enquanto mostrava as fotos dos antigos campeonatos de futebol.

A resistência no beco é coletiva. Atualmente, o local conta com pouco mais de 30 famílias. “A gente não quer que a tradição e nossa história acabem. Aqui vivem negros valentes, descendentes de escravos que lutaram pela liberdade. Somos um povo feliz e tudo que mais queríamos é que não tirassem mais famílias do beco”, completou Luiz.

Tia Nega compartilha o mesmo desejo dele. Apesar de gostar de viajar, ela garante que sempre voltará para a mesma comunidade. “Aqui é muito bom. Nunca tivemos brigas entre vizinhos. Todos eram e continuam amigos. Os filhos dos que se foram continuam mantendo a tradição e eu espero, sinceramente, que isso nunca se acabe”.

Mãe Zulmira

O beco é muito conhecido pelo batuque da Mãe Zulmira, descendente do Estado do Maranhão. A influência da maranhense era muito grande entre os moradores da área, por isso, a casa da mãe de santo era bastante frequentada pela comunidade. “Era a maior Mãe de Santo do Morro, uma referência no bairro”, relembra Luiz Gonzaga.  

Em números, 3.483.985 é a população do Amazonas, de acordo com o Censo 2010. Destes, cerca de 150 mil pessoas se autodeclararam pretas. Entre pretos e pardos, o número chega a 2.545.857 milhões no Amazonas.

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