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Cotidiano
Vidas mutiladas

Trabalhadores mutilados são esquecidos em Itacoatiara

Eles trocaram o trabalho na pesca e na agricultura pela promessa de melhores condições de vida no então promissor mercado madeireiro, mas após trágicos acidentes de trabalho se viram abandonados e sem apoio nem justiça 01/05/2016 às 10:10 - Atualizado em 01/05/2016 às 12:39
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Ademi perdeu o braço direito ao operar uma máquina usada no corte da madeira, em 1999, aos 27 anos / Márcio Silva
Náferson Cruz Manaus (AM)

A vegetação úmida, estruturas esquecidas no tempo e máquinas deterioradas indicam o caminho para histórias de outras vítimas.  Ademi Neves Cantuário, de 44 anos, guarda as marcas de um acidente traumático. Em 1999,  quando tinha 27 anos de idade, perdeu o braço direito quando operava a máquina “serra de fita”, usada no  corte de madeira, na empresa Braspor Madeireira, também localizada no Município de Itacoatiara.

“Lembro muito bem daquele dia”, disse Ademi. Após uma pausa de alguns segundos, emocionado, ele continuou: “Vi muitos acidentes, sabia dos perigos, mas jamais poderia imaginar que isso iria acontecer comigo. Minha vida mudou muito, se não fosse a minha família, não sei o que seria de mim”, disse.

Ademi relata que, após o acidente, passou por situações adversas. “Fui operado duas vezes para fazer a correção da primeira cirurgia e, até hoje, não recebi minha indenização”, lamentou.

Para o sustento da família, o ex-destopador - função registrada em seu antigo crachá - conta  apenas com o auxílio acidente, no valor de R$ 408 mensais. Para aumentar a renda no sustento da família, a esposa de Ademi, Nádia Maria Diniz Cantuário, 49, comercializa “dindin”. “Para muitos, há  dinheiro  demais, mas para outros há poucos recursos. Mesmo assim, não esmorecemos, pois é  com um renda mínima que uma de nossas filhas esta prestes a concluir a faculdade”, conta Nádia, com orgulho.

Para ela, a falta de apoio ao marido após o acidente reflete a angústia, desamparo e humilhação de um trabalhador que dedicou sua vida à empresa. “Apesar de tudo que aconteceu, não perco a esperança que as coisas irão melhorar”, comentou Nádia Cantuário.

Em sua peregrinação na tentativa de receber pelo tempo de  serviço prestado, Ademi recorreu ao  Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), porém sem êxito. Na última tentativa, em fevereiro de 2014, o órgão alegou que Ademi estava apto para retornar às atividades. Outra baixa veio do laudo médico, que lhe  negou a aposentadoria. Este mês, Ademi espera que a Justiça lhe dê provimento  para  obter  um novo laudo médico, mediante a uma perícia e, posteriormente, seja concedida a ele a tão sonhada aposentadoria.

Das roças para as fábricas

Em sua maioria, os operários eram homens e mulheres que abandonaram suas atividades tradicionais no campo, como a pesca, o roçado, o artesanato e outros afazeres, para trabalhar nas indústrias. Na maioria dos relatos, o salário que recebiam era insuficiente para o sustento da família e a maioria não conseguia pagar o aluguel de uma casa, sendo obrigados a morar em albergues e cortiços.

Antes de chegar a Itacoatiara e ocupar a vaga de “operador de talha” na extinta Fantick Amazônia, que mais tarde deu lugar à Carolina Madeireira, também desativada, Militão Martins, hoje com 72 anos, conta que trabalhou no cultivo de  juta e no roçado. “Trabalhei em vários setores no ramo da madeira: colagem de laminado, operador de talha, ajudante de operador de torno e outras atividades, mas no campo me sentia melhor porque não corria tanto perigo”, lembrou Militão, que perdeu o dedo da mão direita quando operava uma máquina na Carolina. 

De fala mansa e esboçando cansaço, Militão recorda que as atividades nas fábricas em que prestou serviço não lhe renderam o suficiente para ter a vida que queria, porém permitiu a ele arcar com as despesas dos estudos dos  filhos e construir, não a casa dos sonhos, mas uma residência simples e modesta, onde recebeu a equipe de reportagem.  Ao final da entrevista, o ex-operário, sentado sobre a cama,  lamentou os danos causados às pessoas vítimas das mutilações. “Essas pessoas, assim como eu, só queriam dar conforto às suas famílias e acabaram dessa forma, infelizmente”.

Denúncias desde 1985

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores Madeireiros de Itacoatiara, desde 1985, as denúncias de acidente de trabalho nas indústrias vêm sendo feitas, porém sem êxito. A maioria das  empresas fechou e deixou a “Velha Serpa”, levando o lucro e deixando para trás equipamentos, prédios, casas, terras, lotes de madeira e uma “legião de mutilados” sem nenhum auxílio.

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