Domingo, 19 de Maio de 2019
DESCASO

Refúgio de usuários de drogas, Santa Casa de Misericórdia virou problema de saúde pública

O hospital está fechado desde o ano de 2004 devido ao acúmulo de dívidas que totalizam R$ 8.403.140,05. A reportagem visitou o prédio para mostrar todos os perigos que estão no local



06/01/2016 às 16:20

O cheiro de urina e de fezes toma conta do prédio da Santa Casa de Misericórdia de Manaus, localizado na Rua Dez de Julho, no Centro de Manaus. Fechado há 11 anos devido ao acúmulo de dívidas, o hospital está repleto de lixo, infiltrações, canos estourados, paredes pichadas e cachimbos improvisados com latinhas de cerveja para fumar crack. O imóvel não lembra em nada o passado glorioso da instituição que concedia atendimento médico a quem precisasse. Durante a visita da reportagem do Portal A Crítica à sede da Santa Casa de Misericórdia, os sentimentos que predominaram na equipe foram dois: medo e tristeza.

A sensação desconfortável já começa ao passar pelos tapumes colocados em volta do prédio. Dentro há três seguranças da empresa Visam para tentar garantir a preservação patrimonial e inibir a entrada de moradores de rua, delinquentes e usuários de droga, mas, por se tratar de segurança não armada e com um número inexpressível de vigilantes para mais de 11 mil metros quadrados de terreno, não há como cumprirem suas tarefas. Para tentar garantir a integridade de todos na visita, os seguranças tinham em mãos dois porretes.

Todas as dependências foram saqueadas. A fiação elétrica da instituição foi roubada, sobrando apenas dois transformadores na sala de energia. O cenário dentro da Santa de Misericórdia remete ao pós-guerra, com suas várias marcas de destruição. É também um cenário de filme de terror, com grandes salões cheios de macas enferrujadas e pedaços de pano sujos pelo chão.

De acordo com o vereador Mário Frota (PSDB), que também participou da visita, é muito triste ver como se encontra a instituição. Durante anos, o parlamentar organizou mutirões de limpeza no local.

“Não há palavras para expressar a minha tristeza, a minha indignação e a minha revolta de vir na Santa Casa e encontrá-la nessa situação. Aqui foi o primeiro grande hospital da cidade de Manaus. Tivesse dinheiro ou não, as famílias eram atendidas; na época nem se falava em SUS (Sistema Único de Saúde)”, relembra.

Drogas e moradores de rua

Algumas roupas estendidas foram encontradas no local onde funcionava a lavanderia do hospital, provavelmente de moradores de rua e usuários de drogas que utilizam o espaço. Bitucas de cigarro de maconha, tubos de caneta usados para cheirar cocaína e latinhas de cervejas utilizadas como cachimbos para fumar crack estão espalhadas pelo chão. Até uma velha Volkswagen Kombi estacionada no lado da lavanderia não escapou dos saques: todos os bancos, pneus e o painel foram levados.

Na parte central da Santa Casa de Misericórdia, onde tem uma área com árvores e muitas plantas, a equipe se deparou com um grupo de moradores de rua (cinco homens e uma mulher) tomando banho em um cano d’água quebrado. Com a nossa chegada, um dos homens ficou bastante exaltado, mas, após uma rápida conversa, se acalmou. Entre os moradores de rua, estava o jovem identificado como Gustavo. Ele disse à equipe de reportagem que ninguém do seu grupo dorme no local, por ser extremamente perigoso.

“A gente utiliza a Santa Casa de Misericórdia, que está abandonada, para tomar banho. Aqui é um lugar muito perigoso, aparece gente que usa droga e por isso ninguém dorme aqui. Nós já ouvimos dizer que muitas pessoas morreram aqui”, relatou.

Água empossada, telhas roubadas e livros jogados

Foi preciso tomar bastante cuidado ao subir alguns trechos da escada que leva ao segundo andar do hospital. Por causa da ação da chuva, dos cupins e dos vândalos, todo o telhado praticamente despencou. É difícil andar porque há muitos pedaços de tijolos e telhas de barro do tipo marselha pelo chão.

Como não existe telhado, as chuvas castigam cada vez mais o espaço. Encontramos um grande salão cheio de água parada, o que coloca em risco os moradores do em torno do prédio, assim como as próprias pessoas que invadem a Santa Casa de Misericórdia. Na água parada é que o mosquito aedes aegypti, transmissor da dengue, chikungunya e zika, se reproduz.

No segundo andar, encontramos o usuário de drogas identificado como Caique escolhendo algumas telhas para vender. Segundo ele, o local que se sente mais seguro é na Santa Casa de Misericórdia.

“Aqui me escondo da água da chuva, aqui tenho um teto para morar e daqui tiro umas madeiras, não vou mentir, para me alimentar e sustentar o meu vício. Não sou de estar roubando nada de ninguém por aí. Prefiro carregar umas madeiras no meu ombro ao roubar as pessoas”, declarou Caique.

“Já morreu um bocado de gente aqui dentro de overdose e de cheirar cola”, acrescentou. O roubo das telhas da Santa Casa de Misericórdia já foi denunciado em outras matérias do jornal e Portal A Crítica, mas nada até o presente momento foi feito para coibir os furtos.

Em outra sala da instituição foram encontramos mais de 100 livros da área de medicina jogados no chão. Boa parte dos títulos é da língua inglesa, sendo voltados em sua maioria às áreas de cardiopatia, ginecologia e obstetrícia.

Processo parado

De acordo com Tiago Queiroz, membro da Comissão Interventora da Santa Casa de Misericórdia, o processo de desapropriação do prédio está parado no Ministério Público. A atual dívida da instituição é de R$ 8.403.140,05. Ainda segundo ele, o que vem sendo feito nos bastidores entre a Susam e a Comissão Interventora é alinhavar o projeto do que funcionará na nova unidade de saúde, mas que ainda carece de aprovação do governador.


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