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Ruas alagadas por conta da cheia escondem riscos à saúde das crianças no Cacau Pirêra

Mesmo expostos a vários tipos de doenças, eles brincam de futebol, organizam corrida de ‘barquinhos’ feitos de isopor, nadam e até pescam tucunarés 25/05/2015 às 12:29
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Crianças brincam sem se importar com o perigo
luana carvalho ---

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A subida dos rios, que geralmente causa prejuízo à economia rural e inundações nas casas dos ribeirinhos, é encarada de outra maneira por aqueles que carregam consigo a inocência de ser criança. Mesmo expostos a vários tipos de doenças, eles brincam de futebol, organizam corrida de ‘barquinhos’ feitos de isopor, nadam e até pescam tucunarés.

No distrito do Cacau Pirêra, localizado no Município de Iranduba (a 27 quilômetros de Manaus), as águas começaram a invadir as ruas há cinco dias. Moradores do bairro Nova Veneza aguardam ansiosos pela construção das pontes de madeira. Muitas casas ainda estão sem a “maromba” (assoalho improvisado) porque, segundo os moradores, as tábuas ainda não foram doadas pela prefeitura.

Também há relatos de pessoas que adoeceram. De janeiro até maio deste ano, quase 64 mil casos de diarreia foram registrados no Amazonas e 96 casos de Hepatite A foram diagnosticados. No ano passado, foram 998 em todo o Estado.

Mas, mesmo com todos os problemas ocasionados pelo ciclo natural das águas e tendo que disputar espaço com peixes e animais peçonhentos, os irmãos Silva (Adriano, 14, André, 13 e Zaqueu, 12), fazem da situação um momento de lazer.

Foto: Márcio Silva 

Eles estavam com uma rede de pesca improvisada, concentrados, olhando para as águas do rio que alcançou a rua onde moram. “Queremos pegar ‘piabas’ para servir de isca para pescar tucunaré”, contou Adriano, o mais velho.

Do outro lado da rua, três crianças com menos de 10 anos brincaram de corrida de barco. Na rua de trás, a brincadeira era futebol. “É sempre muito triste. Mas parece que já estamos acostumados. Quando o rio enche a gente se diverte um pouco antes de ir para a escola. Muitos de nós ficam doentes, mas não temos como fugir”, disse Evellyn Leão, 13, que está com a casa completamente alagada.

‘Educação em risco’

“Saio de casa com meus três irmãos. A menor, que está na creche, vai no meu ‘cangote’. Subo a calça até o joelho, coloco o tênis na mochila, levo uma toalha para enxugar os pés, e atravesso”, conta o estudante Carlos Eduardo Ribeiro, 14. Assim como ele, dezenas de crianças da comunidade passam pelas mesmas dificuldades na hora de ir à escola. “Por enquanto ainda dá pra eles irem, mas depois que encher mais vai ficar impossível sair de casa sem as pontes. Estamos esquecidos”, desabafa a mãe dele, Socorro Ribeiro, 52.

Análise: Bernardino Albuquerque, Dir. da fundação de vigilância em saúde no Amazonas

“As crianças podem contrair doenças”

Essas águas possuem um alto nível de poluição, onde além dos resíduos sólidos, há uma expressiva quantidade de material fecal. Consequentemente, a possibilidade de contrair infecções é muito maior, principalmente por meio de germes cujo mecanismo de transmissão é a veiculação hídrica. Ao deglutir esse material contaminado, as crianças podem contrair doenças graves, uma infecção viral, como hepatite A, ou mesmo uma infecção bacteriana, salmonelose, que causa diarreia intensa e outros tipos de infecções intestinais. Fora isso, também há a questão do contato da água poluída com a pele. A água, quando contaminada, pode ocasionar dermatoses, problemas de pele que geralmente provoca coceira no corpo. Também não podemos desprezar o risco de acidentes com animais peçonhentos, como cobras, que é mais recorrente neste período de cheia”. 


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