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Cotidiano
adeus ao pioneiro

Trajetória empresarial de Moysés Israel se confunde com o desenvolvimento do AM

Moysés Benarrós Israel também deixou suas digitais na consolidação da agroindústria no interior do Estado e na indústria fabril da capital amazonense 08/07/2016 às 20:24 - Atualizado em 09/07/2016 às 11:09
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Estado do Amazonas perde um de seus empresários mais atuantes, que atuou no desenvolvimento da economia local (Arquivo AC - Antônio Lima)
Silane Souza Manaus (AM)

O Amazonas se despediu ontem de um dos seus maiores ícones empresariais. Moysés Benarrós Israel, 92, empresário de destaque na área econômica do Estado e um dos fundadores da Federação das Indústrias do Amazonas (Fieam), faleceu por volta de 22h de quinta-feira, no Hospital Check Up, onde estava internado há mais de um mês. Ele teve falência de múltiplos órgãos. O sepultamento foi realizado pela manhã, no Cemitério Israelita, bairro Adrianópolis, Zona Centro-Sul.

Moysés Benarrós Israel foi pioneiro, junto com seu tio Isaac Sabbá, na construção da primeira refinaria de petróleo do Amazonas. Suas digitais também se fazem presentes na consolidação da agroindústria no interior do Estado e na indústria fabril da capital amazonense. Ele ainda fez parte de importantes instituições que fomentaram a economia e o ensino, como a instalação do campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), no município de Itacoatiara.

Personalidades da comunidade Judaica, da indústria, do comércio e da política local foram dar o último adeus ao grande empreendedor e incentivador da educação e do desenvolvimento social do Estado. O Governador do Amazonas, José Melo, lamentou com pesar o falecimento do empresário e destacou que ele deixa um legado de sucesso profissional em nossa região. O Prefeito de Manaus, Artur Virgílio Neto, também lamentou e disse que houve uma enorme perda. 

“Uma grande figura humana e um grande homem público, mesmo não tendo exercido mandato. Não conheço ninguém que possa substituí-lo no Estado e no Brasil é difícil encontrar alguém que possa somar todas as qualidades que ele tinha que são legados para nós, como competência, capacidade de empreender, generosidade, coração largo e ao mesmo tempo honradez. Seu Moysés era amigo do meu pai, conversavam com muita cordialidade, mas pensavam de maneira diferente”, lembrou Arthur. 

 O presidente da Fieam, Antônio Silva, ressaltou que o seu Moyses era um homem de trabalho, mente lúcida, nos seus 92 anos ainda colaborava com várias ações e conselhos pensando na perenidade do modelo Zona Franca e no desenvolvimento do seu Estado. “Ele adotou o Amazonas como seu Estado do coração e participou de várias ações empresariais”, disse.

Piora

A filha mais nova do empresário Moysés Benarrós Israel, Janet Pinheiro Israel, 52, contou que ele tinha melhorado bastante, mas quando estava para ter alta teve uma pneumonia, que o fez retornar para a UTI, de onde não conseguiu mais sair com vida. “É um momento muito difícil. Ele foi tudo para todo mundo. Teve uma vida plena e frutífera, graças a Deus, ajudou muita gente e conseguiu fazer muita coisa pelo Estado. A prova disso são as obras que aí estão no Estado a fora”, lembrou.

 ‘Fui apenas um grande ajudante’

Nascido no Estado do Pará, em 1924, Moysés Benarrós Israel veio ainda jovem para Manaus, onde passou a ajudar o tio, Isaac Sabbá, pioneiro e construtor da Refinaria de Petróleo de Manaus. Eram os primeiros passos de uma carreira marcada pelo trabalho. Apesar de seus feitos, ele nem se considerava um administrador ou industriário. “Eu fui apenas um grande ajudante”,  definiu-se. 

O senhor começou a trabalhar como ajudante no escritório do seu pai. Foi nessa época que decidiu seguir a carreira empresarial?
Na verdade, eu não pensava muito no assunto. Comecei a trabalhar com 11 anos. Ia para a escola, fazia curso de datilografia e era auxiliar no escritório do meu pai. Ele (o pai) era representante comercial e também exportador de peles de animais e de uaicima, uma fibra parecida com a juta. Eu gostava de ajudar, mas não era o que eu sonhava em fazer.

E qual era o seu grande sonho?
Eu queria mesmo era ser engenheiro químico. Muito tempo depois quando começamos a trabalhar com petróleo, eu gostei. Pensei: agora sim! Tem química no meio. Até hoje sou um grande leitor do assunto e tenho assinatura das principais revistas sobre o tema. Cheguei a cursar o pré-politécnico em Belém pensando nisso e foi lá que eu conheci o Paul (Le Cointe) que fundou a Escola de Química do Pará. Ficava na Praça da República e não dava diploma, mas eu pedi para assistir as aulas e lavar as pipetas do laboratório. Aprendi muito nessa época. Depois, para continuar os estudos, o único lugar possível seria a Universidade Mackenzie em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Eu cheguei a ir, mas não deu certo.

Que acontecimentos mudaram  os planos iniciais?
A essa altura meu pai já tinha morrido e meus tios - Jacob e Isaac Sabbá - assumiram os negócios. Um deles - Isaac - estava em São Paulo e me levou para lá para que eu pudesse cursar o Mackenzie. Mas quando eu cheguei lá, o Getúlio (Vargas) baixou um decreto que obrigava as universidades a trabalharem com um percentual mínimo de professores brasileiros e o Mackenzie não atendia o critério, portanto não havia curso. Com isso, todas as vagas do Rio de Janeiro foram ocupadas rapidamente por alunos de São Paulo e eu fiquei sem vaga. Decidi voltar para Belém, mas o navio demoraria um mês para sair e nesse meio tempo, fiquei trabalhando com meu tio Isaac.

O fato de ter ficado marcou o resto da sua caminhada profissional?
Sim, porque quando chegou a hora de embarcar, ele me pediu pra ficar com ele trabalhando e eu aceitei. Ele me deu uma máquina de datilografia Hamilton e  disse: “escreva aí: bens com que entra o senhor Isaac Sabbá na Empresa Individual I B Sabbá”. Esse texto marcava o início da empresa dele e a partir daí eu passei a trabalhar na empresa e nunca mais voltei para à área química, pelo menos não oficialmente.

Em 1942, aos 18 anos, o senhor foi emancipado para se tornar sócio de Isaac Sabbá na empresa, que passou a se chamar Isaac Sabbá & Cia. Nessa época vocês já trabalhavam com petróleo?
 A nossa empresa foi se desenvolvendo até que chegou a esse tempo, mas era uma empresa exportadora de gêneros. Meu tio instituiu um sistema que depois virou uma norma que eram as promissórias rurais. A gente dava dinheiro, as pessoas coletavam a castanha, a gente pegava a promissória e  caucionava no banco. Funcionávamos  como um pequeno banco.  Depois, lá pela década de 50, no pós-guerra, é que diversificamos e passamos a comercializar o petróleo.  

Como foi iniciar aqui um projeto tão visionário?
Difícil. Se eu falasse para alguém que estávamos tentando instalar uma refinaria naquela época ninguém ia acreditar. Aqui não tinha nada, nenhum equipamento necessário. Buscamos tudo de fora. Para levantar a maior torre da refinaria, que tinha 60 metros, gastamos um mês e meio, com 40 engenheiros trabalhando dia e noite. Usávamos dormentes - estruturas de madeira - para erguer a torre e íamos subindo a ferragem pouco a pouco. Era a mesma tecnologia utilizada – acredita-se – para erguer as pirâmides do Egito. Um trabalhão. Mas era importante fazer a refinaria, não só para nós, mas para o Estado. Começamos com cinco mil barris e logo passamos para dez mil, com a ajuda de um grande projetista e amigo, Roberto Campos.

Frases

"Moysés Benarrós Israel foi um dos empresários de destaque na área econômica do Estado e deixa um legado de sucesso profissional em nossa região”. José Melo - Governador do Amazonas
 
“Ele nunca enxergou outro empresário do seu ramo de atividade como um competidor, e sim como parceiro”. Etelvina Garcia - Biógrafa de Moysés Israel

“Ele tinha equilíbrio para discutir todo tipo de assunto. Fez investimentos grandes, trouxe a tecnologia da época para Manaus e Itacoatiara e deu emprego para muita gente”. Ralph Assayag - Presidente da CDL Manaus

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