Domingo, 15 de Setembro de 2019
crise social

Saques coletivos na Venezuela revelam a dimensão da fome da população

Mesmo em um país com a maior reserva de petróleo do mundo, é possível que as pessoas se rebelem porque não há comida suficiente: essa é precisamente a Venezuela que seus líderes juraram evitar.



ven.JPG Fotos: Meridith Kohut/The New York Times
09/07/2016 às 15:36

Com os caminhões de entrega sob ataque constante, os alimentos da nação agora são transportados com escolta armada. Soldados vigiam padarias. A polícia usa balas de borracha contra multidões desesperadas que invadem supermercados, farmácias e açougues. Uma menina de quatro anos de idade foi morta a tiros quando gangues de rua disputavam comida.

A Venezuela vive a convulsão da fome. Centenas de pessoas na cidade de Cumaná, lar de um dos heróis da independência da região, marcharam em direção a um supermercado recentemente, gritando por comida. Arrombaram um grande portão de metal e invadiram; pegaram água, farinha, fubá, sal, açúcar, batata, tudo que conseguiram encontrar, deixando para trás apenas congeladores quebrados e prateleiras tombadas.

E mostraram que, mesmo em um país com a maior reserva de petróleo do mundo, é possível que as pessoas se rebelem porque não há comida suficiente. Essa é precisamente a Venezuela que seus líderes juraram evitar.

Em 1989, em um dos piores momentos da nação, conflitos se espalharam por Caracas, a capital, com centenas de pessoas mortas pelas forças de segurança. Conhecido como "Caracazo", ou o "choque de Caracas", tudo começou com os baixos preços do petróleo, cortes em subsídios e uma população subitamente empobrecida.

O evento marcou a memória de um futuro presidente, Hugo Chávez, que disse que a incapacidade do país de cuidar de seu povo e a repressão da revolta pelo Estado eram a razões pelas quais a Venezuela precisava de uma revolução socialista.

Agora seus sucessores se encontram em um dilema semelhante, ou talvez até pior.

O país está ansiosamente procurando maneiras de se alimentar. O colapso econômico dos últimos anos prejudicou a produção ou a importação de comida em quantidade suficiente. As cidades foram militarizadas sob um decreto de emergência do presidente Nicolás Maduro, o homem que Chávez escolheu para continuar sua revolução antes de sua morte, há três anos.

"Se não há comida, haverá mais motins", disse Raibelis Henriquez, 19 anos, que esperou o dia todo por pão em Cumaná. 

Mas enquanto os motins e confrontos deixam o país alarmado, é a fome que continua a ser a constante fonte de descontentamento. A espantosa proporção de 87 por cento da população diz não ter dinheiro para comprar comida suficiente, segundo a mais recente avaliação de qualidade de vida feita pela Universidade Simón Bolívar.

Cerca de 72 por cento do valor do salário mensal estão sendo gastos para comprar comida, de acordo com o Centro de Documentação e Análise Social, grupo de pesquisa associado a Federação Venezuelana de Professores. Em abril, o centro constatou que uma família precisaria do equivalente a 16 salários mínimos para se alimentar corretamente.

Pergunte às pessoas nesta cidade quando fizeram uma refeição pela última vez e muitos irão responder que não foi hoje.

Lucila Fonseca, 69 anos, tem câncer linfático e sua filha de 45 anos, Vanessa Furtado, um tumor no cérebro. Apesar de também estar doente, muitos vezes Vanessa abre mão da pouca comida que tem para que sua mãe não pule refeições.

"Eu era bem gorda, agora já não sou mais. Estamos morrendo em vida", disse a filha. Sua mãe acrescentou: "Fazemos agora a dieta do Maduro: sem comida, sem nada".

Economistas dizem que anos de má gestão econômica, agravada pelos baixos preços do petróleo, principal fonte de receitas do país, acabaram com o suprimento de alimentos. Canaviais no centro agrícola do país estão parados por falta de fertilizantes; máquinas não utilizadas vão depreciando em fábricas estatais fechadas; alimentos básicos como milho e arroz, que já chegaram a ser exportados, agora precisam ser importados e chegam em quantidades insuficientes para atender à demanda.

Em resposta, Maduro reforçou seu controle sobre o fornecimento de alimentos. Usando decretos de emergência assinados este ano, o presidente colocou grande parte da distribuição nas mãos de um grupo de brigadas leais aos esquerdistas, uma medida que os críticos dizem ser reminiscente do racionamento de alimentos em Cuba.

"Eles estão dizendo, em outras palavras, que você terá comida se for meu amigo, se for meu simpatizante", disse Roberto Briceño-León, diretor do Observatório de Violência Venezuelano, um grupo de direitos humanos.

Essa é uma nova realidade para Gabriel Márquez, 24 anos, que cresceu nos anos em que a Venezuela era rica e prateleiras vazias eram inimagináveis. Ele estava em frente ao supermercado invadido pela multidão em Cumaná, uma imensidão de caixas e garrafas quebradas e prateleiras derrubadas. Algumas pessoas, incluindo um policial, procuravam restos de comida pelos destroços.

"No carnaval, costumávamos atirar ovos uns nos outros só por diversão. Agora um ovo vale ouro", disse ele.

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