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‘Se o carro pegar fogo, como a pessoa vai fazer para apagá-lo?’, questiona titular do Detran

Leonel Feitoza foi surpreendido com a decisão de ontem (17) do Contran. A partir de agora, os extintores de carro passarão a ser optativos depois 45 anos de obrigatoriedade 18/09/2015 às 10:37
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Resolução pegou de surpresa empresários, que tiveram que cancelar novos pedidos. Os usuários também se sentiram lesados
Rafael Seixas Manaus (AM)

Poucos dias antes de começar a valer a obrigatoriedade dos extintores de incêndio do tipo ABC em carros, prevista para o dia 1° de outubro, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) decidiu em reunião na manhã desta quinta-feira (17) que o uso de extintor em automóveis de passeio passa a ser optativo no Brasil.

Alguns condutores da capital amazonense não ficaram felizes com essa medida de última hora, pois se anteciparam em adquirir o produto. Esse foi o caso do engenheiro Marcelo Duarte que, em janeiro deste ano, comprou o item de segurança pelo preço de R$ 140.

“Fiquei p*** porque gastei esse valor numa coisa que deveria custar de R$ 80 a R$ 100. No posto em que comprei, o vendedor abusou no preço porque ele sabia que em outros locais não havia mais o produto. Quando reclamei para ele, o meu amigo foi de tarde no mesmo posto e conseguiu comprar o mesmo extintor ABC por R$ 120. Fui penalizado por um capricho do Contran, e isso é um absurdo”, disse Marcelo Duarte, relembrando que a exigência da troca começaria a valer em 1º janeiro deste ano e provocou correria às lojas no fim do ano passado, resultando em falta do produto e denúncias de preços exorbitantes e de venda de equipamentos vencidos.

Sobre a nova medida do Contran, o engenheiro acredita que tudo não passa de uma nova maneira de lesar o consumidor. “Em países de primeiro mundo, eles não veem o extintor de incêndio como item primordial de segurança. Ele (Contran) deveria cobrar das montadoras para tornar obrigatório o automóvel sair com itens como freios ABS, controle de tração (ASR), de estabilidade (ESP) e airbags que, às vezes, são oferecidos como itens opcionais”.

O uso obrigatório do extintor em automóveis é mais comum nos países da América do Sul. Nos Estados Unidos e em boa parte das cidades do continente Europeu, também não existe a obrigatoriedade, pois as autoridades consideram que a falta de treinamento e despreparo dos condutores em manusear o extintor geram mais risco de danos à pessoa do que o próprio incêndio.

Decisão prematura

O advogado Peter Laborda comprou ano passado um veículo, modelo Citroen C3, que já veio com o extintor do tipo ABC.  Para ele, a decisão do Contran de retirar a obrigatoriedade do extintor é arriscada, pois “segurança nunca é demais”. “No meu ponto de vista, quanto maior a segurança para a população em geral, seja condutor, passageiro ou pedestre, melhor. Temos que ter meios ou utensílios para que isso seja possível. No caso de trocar o extintor BC para o ABC, eu sou a favor”.

O uso do extintor ABC continua sendo obrigatório para veículos de uso comercial, incluindo aqueles destinados ao transporte de passageiros, caminhões, caminhão-trator, micro-ônibus, ônibus e destinados ao transporte de produtos inflamáveis, líquidos e gasosos.

Posicionamento

Apesar de não concordar com o novo posicionamento do conselho, o presidente do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM), Leonel Feitoza, explicou que é uma decisão superior e que será cumprida.

“O extintor é um item de segurança do veículo. Eu não sei o porquê do conselho aprovar essa resolução, porque estava exigindo anteriormente a obrigatoriedade do extintor do tipo ABC e agora diz que o uso é opcional. Se o carro pegar fogo, como a pessoa vai fazer para tentar apagá-lo ou amenizá-lo? Não sei com base em qual estatística ou estudo eles fizeram essa resolução. É uma coisa que fico meio sem saber o que dizer, porque é uma determinação e temos que cumprir, embora eu veja o extintor como item de segurança”, declarou o presidente, alertando que carros antigos, principalmente do modelo Volkswagen Kombi, costumam pegar fogo na capital amazonense.

Ainda segundo Feitoza, o Estado do Amazonas conta com mais de 700 mil veículos em uso. Desses, mais da metade são veículos de passeio. O presidente do Detran-AM reconhece que essa medida possa prejudicar empresários que já haviam encomendado o produto para revendê-los.

O presidente do Detran-AM não concordar com a decisão tomada pelo Contran,
mas explicou que é uma decisão superior e que será cumprida

“O Contran vinha há muito tempo prorrogando esse prazo da obrigatoriedade do extintor do tipo ABC para dar tempo das distribuidoras comprarem os produtos. Coloquei mês passado, na reunião da Associação Nacional dos Detrans (ANB), essas resoluções do Contran que são impostas e depois revogadas. Por exemplo, o Simulador de Direção Veicular era obrigatório e depois já não era. Essas e outras resoluções discutíveis podem ser revogadas a qualquer momento”, informou.

Os veículos comerciais passarão a ser fiscalizados a partir de 1° de outubro de 2015. A punição para veículos sem extintores ou com validade vencida é de multa de R$ 127,69, além de cinco pontos na carteira de habilitação.

Pedidos cancelados 

A medida do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) de tornar opcional o uso de extintores de incêndio em carros de passeio atrapalhou o cronograma de algumas empresas que revendem o extintor do tipo ABC. A Emops, situada na avenida Constantino Nery, na Zona Centro-Sul, terá que cancelar alguns pedidos que já estavam programados.

“Estávamos com uma programação de pedidos com os fornecedores e, sabendo da notícia, nós fizemos o cancelamento porque, com certeza, as vão deixar de comprar o extintor do tipo ABC. As pessoas não estavam preocupadas com a segurança, mas sim em pagar multa”, disse Deidy Oliveira, assessora da diretoria da Emops, que acredita ainda que as empresas que solicitaram o produto com antecedência terão prejuízos.

“Mesmo que faça uma promoção ou diminua bastante o preço, acho difícil alguém querer comprar o extintor porque já não vai ser obrigatório tê-lo”, opinou Deidy.

Os clientes da Auto Peças Benayon, localizada na Praça 14 de Janeiro, na Zona Sul, sempre procuram pelo extintor do tipo ABC, mas, segundo o vendedor João França, é difícil encontrar distribuidor. “Por isso, nós pegávamos de 20 a 30 extintores para revender no mês. Agora, sendo opcional tê-lo, não sei se voltaremos a vender”. Tanto na Emops quanto na Auto Peças Benayon, os extintores do tipo ABC são vendidos ao preço de R$ 100 (cada). 

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