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Cotidiano
Igarapés

Ilhados pela vazante: Seca castiga quem depende da água para viver e trabalhar

Para quem mora sobre as águas, basta o nível de rios e igarapés baixar um pouco para os problemas aparecerem. Tudo fica mais distante e difícil de chegar até a residência, caso da energia elétrica e água potável 10/10/2016 às 05:00 - Atualizado em 10/10/2016 às 08:27
Show vazante
Imagem aérea do igarapé de Educandos, reduzido a um "filete" de água
Silane Souza Manaus (AM)

A vazante não foi tão severa este ano em Manaus. Mas, para quem mora sobre as águas, basta o nível de rios e igarapés baixar um pouco para os problemas aparecerem. Tudo fica mais distante e difícil de chegar até a residência, caso da energia elétrica e água potável. Sair de casa também não é nada fácil em função da lama que se acumula ao longo das margens do rio Negro e seus afluentes, onde flutuantes e embarcações acabam ficando encalhados em meio a um “tapete” de lixo.

A dona de casa Vânia da Silva, 50, conta que todos os anos, após a vazante, ela tem que reparar os danos que o flutuante da família sofre após ficar encalhado às margens do igarapé da Colônia, na Zona Leste. “O desnível do solo toda vez danifica a estrutura do flutuante. Este ano, só a metade dele está encalhada, mas algumas vigas já se quebraram e a parte de trás está comprometida. Essa época do ano é muito ruim, a água e a energia chegam bem fraquinhas”, relata.

O flutuante do mecânico Assis Ferreira da Silva, 43, ficou totalmente na terra. Ele disse que viajou por dois dias e, quando voltou para casa, era tarde: ele não conseguiu puxá-lo para o canal do igarapé da Colônia. Uma das vigas que sustenta a estrutura do flutuante quebrou e ele corre risco de se partir ao meio, visto que uma das boias está sendo sustentada por várias toras de madeira, diz Assis. “Ele ficou posicionado numa área muito ruim, com grande desnível em um dos lados. Isso me preocupa muito”.

Mais ‘perto’ da água
No lago do Aleixo, também na Zona Leste, entre os flutuantes que ficaram encalhados está o do vigilante Antônio Sérgio, 36. Ao contrário de Assis, ele teve sorte, uma vez que o flutuante ficou sobre uma área bem plana. “Graças a Deus não tive nenhum problema. Até agora a estrutura dele está intacta. Eu o deixei encalhar de propósito para ficar mais próximo da rua onde pegamos água potável. A do lago não dá para fazer nada nesse período, fica muito barrenta”, aponta.

Quem mora em flutuantes no igarapé do São Raimundo, Zona Oeste, não tem outra opção a não ser ficar sobre a terra em vez de ficar sobre a água, já que o igarapé vira um pequeno canal, por onde nem canoas consegue passar direito. “Eu só moro aqui porque não tenho condições de comprar uma casa em terra. Se pudesse não estaria mais aqui porque as dificuldades são muitas. É uma vida de sofrimento”, afirma a autônoma Sônia Freitas da Silva, 53.

Lama e lixo
No igarapé do 40, a situação não é muito diferente. Apesar de o canal ficar mais largo que o do São Raimundo, o volume de lama e lixo é maior. “A maioria dos flutuantes e barcos que ficam dentro do igarapé quando está cheio vão para o rio Negro na vazante. Ficar aqui não dá para eles porque é muita lama, fica muito ruim para sair de casa, a não ser que coloque pontes de madeira para poder andar sem se atolar”, disse o catraieiro Geraldo Lopes, 64.

Perto da média’
O último boletim do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) aponta que as estações monitoradas do rio Negro estão em processo de vazante com cotas próximas das médias para época. No Porto de Manaus, o rio Negro segue baixando em ritmo normal. Mas seu nível está 2,76 metros acima do nível registrado no mesmo período do ano passado.

Cacimba é a 'salvação' na vazante
Uma famosa cacimba é o que o empresário João Prestes utiliza para compensar a falta de água limpa durante o período de vazante no lago do Aleixo, Zona Leste. “Identificamos quatro olhos d’água e cavamos para fazer a cacimba porque, quando seca, a água do lago não presta, fica muito barrenta, não é como na cheia, que fica pretinha e muitas pessoas vêm para tomar banho”, conta.

A água da cacimba sai gelada e limpa. Dá para tomar banho e lavar as coisas, conta João, que pretende perfurar outra. “Aqui no lago há mais de dois mil olhos d’água”, aponta ele, que deixou o flutuante encalhado bem próximo ao poço de água. “Deixei o flutuante ficar em terra propositalmente porque no ano passado, como não conhecia o lago, fiquei ilhado no meio dele, porque secou muito e não tem canal”, revela. 

Além de morar, o empresário também trabalha no local. Na cheia, o flutuante dele recebe muitas pessoas que vão ao lago do Aleixo para se refrescar. Agora, na seca, a água não tem boa qualidade, o que faz o movimento de frequentadores cair drasticamente.

 

 

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