Quarta-feira, 22 de Setembro de 2021
TEMPESTADES DE VERÃO

Sem trégua: verão amazônico deve ter mais tempestades do que o normal

Meteorologistas ouvidos por A CRÍTICA afirmam que pluviometria mensal pode ultrapassar os 70mm. Esse deve ser o terceiro ano seguido em que as chuvas invadem período ‘mais seco’



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26/06/2021 às 09:16

Com poucos dias para o mês de julho, período que dá início a altas temperaturas na Amazônia, os especialistas preveem que o chamado ‘verão amazônico’ deste ano pode apresentar chuvas acima do normal, com pluviometria ultrapassando 70 mm ao mês.

De acordo com o meteorologista Flavio Natal Mendes de Oliveira, do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) em Manaus, o verão amazônico tende a ocorrer entre os meses de junho a novembro, sendo os meses de julho a setembro os mais secos. Segundo Flávio, as chuvas acima do normal no primeiro trimestre de 2021 já davam sinais de que o Amazonas teria um terceiro ano consecutivo mais chuvoso.



"O ano de 2021 choveu acima do normal, principalmente até o mês de março, um sinal de padrão chuvoso que vem desde a estação chuvosa passada (de 2020). A probabilidade de período seco com chuvas abaixo do normal praticamente é descartada. A previsão para os meses de julho a setembro no Norte do Brasil é de chuvas ainda acima do normal, ou seja, de aproximadamente acima de 70 mm ao mês e com temperaturas dentro da faixa de normalidade entre 23ºC (mínima) e 34ºC (máxima), já que o retorno do La Niña a partir de outubro ainda é a previsão mais provável, indicando também que provavelmente poderemos ter um terceiro anos consecutivo mais chuvoso", descreve Natal.


Período conhecio pela seca na Amazônia pode trazer algumas tempestades como surpresa. Foto: Junio Matos

Este balanço que o inverno amazônico deste ano foi mais intenso também é reforçada pelo professor doutor em Clima e Ambiente, Rogério Ribeiro Marinho. Segundo o pesquisador, o mês de março registrou chuvas três acima do esperado.

"Choveu mais do que o esperado sim. Podemos observar que desde a segunda quinzena de outubro do ano passado, há uma anomalia positiva. Ou seja, choveu acima da média na região, principalmente entre fevereiro e junho. Em alguns casos, como em março, houve registros de chuvas três vezes superior do que o esperado", afirmou Marinho.

Entretanto, conforme o Boletim Climático da Amazônia para o trimestre Junho-Julho-Agosto, emitido pelo Serviço de Proteção da Amazônia (Sipam), em algumas faixas das regiões Centro-Sul e Leste do Amazonas a precipitação pode ficar abaixo da média de chuvas, além de apresentar altas temperaturas.

"Com base no boletim climático da Amazônia feito pelo Sipam, em relação a precipitação, o prognóstico afirma que em algumas áreas do Amazonas a precipitação pode ficar abaixo da média climatológica. Principalmente na região da faixa centro-sul e leste do Amazonas. Já para temperatura, no Estado do Amazonas, Pará e Maranhão e parte de Mato Grosso e Tocantins o prognóstico é que fique acima da média", explica o pesquisador.

Vazante dos rios

Além de causar altas temperaturas na região, o verão amazônico também implica no redução do nível dos rios, ou seja o fenômeno da vazante. Na última quarta-feira (23), o rio Negro apresentou pela segunda vez um "repiquete" que elevou o nível de volta para 30,01 metros - um centímetro abaixo do recorde histórico registrado ainda neste ano.

Apesar disso, segundo a engenheira hidróloga do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), Luna Gripp, ainda é muito cedo para afirmar sobre como será o processo de vazante deste ano. Mas, ressalta que o fato da capital testemunhar a maior cheia do rio Negro não significa que também teremos um grande período de seca.


Rio Negro permanece acima dos 30 metros. Foto: Gilson Mello

"Essa falta de chuvas geralmente está associada na diminuição dos níveis dos rios. Uma coisa importante ressaltar é que quando a gente observa os dados relacionados entre cheias históricas e vazantes históricas, eles não apresentam uma boa relação. Ou seja, o fato de temos a maior cheia de toda a história dos rios Negro, Solimões e rio Amazonas que estão sofrendo um grave processo de inundação, não existe nenhuma afirmação que indique que teremos um processo de vazante muito extrema ou pouco extrema. O que vai determinar é como a chuva vai se comportar ao longo de toda a bacia nos próximos meses porque a vazante ela se estende normalmente, até outubro, novembro", afirma Gripp.

O pesquisador Rogério Marinho relembra que após a grande cheia do rio Negro registrada em 2009, no ano seguinte a capital amazonense apresentou uma grande seca. Segundo Marinho, o ano de 2022 tem chances de ter um baixo nível dos rios.

"É natural de se esperar principalmente a partir de julho e agosto, uma queda brusca no nível dos rios do Amazonas. O que temos que ficar atento é quanto a velocidade a essa queda. Foi registrado uma grande cheia esse ano. Mas o histórico recente de eventos climáticos extremos nos últimos 20 anos, tem mostrado que estes eventos extremos tem ficado cada vez mais frequentes. Ou seja, recordes sendo quebrados e mais próximo um do outro. Em 2009 tivemos uma grande cheia e no ano seguinte uma grande seca. A mesma coisa podemos observar em anos anteriores", destaca o pesquisador.

Aplicativo acompanha nível do rio Negro

Em matéria publicada nessa quinta-feira (24), A CRÍTICA divulgou o aplicativo-web criado pelo meteorologista e consultor da empresa Meteonorte, Willy Hagi, que possibilita à população entender melhor o nível do rio NEgro, desde o início do ano até a sua condição atual.

Por meio do link https://cotadorionegro.herokuapp.com/ , é possível verificar de forma digital possíveis sinais de vazante e repiquetes no rio que banha a orla manauara.

Cuidados

Marinho afirma ainda que a população e principalmente os órgão públicos devem estar atentos aos impactos que o baixe índice de chuvas podem causar no Amazonas, principalmente no período de pandemia.

"E talvez devemos estar preparados, sociedade civil organizada, defesa civil, governantes, toda a população para estar atento a redução da precipitação, aumento da temperatura e os prováveis impactos que podem ocasionar no dia a dia, como as queimadas ilegais, problemas respiratórios em crianças e idosos, principalmente nesse contexto da pandemia", finalizou Marinho.

 

 

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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