Sábado, 20 de Julho de 2019
ANATOMIA DO CRIME

Separar presos por perfil é solução para frear reincidência, diz especialista do AM

Membro de programa do canal Discovery que investiga casos de repercussão, o psicólogo criminal Christian Costa afirma que presos adquirem características referenciais com outros bandidos



christian-costa-1534092152.JPG Foto: Jair Araújo
12/08/2018 às 12:47

O psicólogo criminal amazonense, Christian Costa, de 42 anos, atua há 18 em casos criminais no Estado de São Paulo. Em seu histórico, ele acompanhou e ouviu mais de cinco mil criminosos dentre assassinos, homicidas, traficantes, maníacos e abusadores sexuais. Em seu trabalho, Ele relaciona ciência e prática na compreensão e intervenção de atos violentos. Chistian voltou a Manaus neste final de semana para ministrar o curso Responsabilidade Criminal: do Ato de Matar, Julgar e de Punir que acontece no próximo sábado, dia 18. Nesta entrevista, ele explica como a aplicação de conhecimentos de psicologia podem ajudar na elucidação de crimes e na captura de criminosos.

O que leva um assassino a cometer crimes tão cruéis? É possível dimensionar ou compreender isso?

Primeiramente, temos que entender que qualquer pessoa pode cometer crimes. Não há uma genética específica para cometer crimes em geral. No entanto, na medida em que o crime toma proporções de traços sádicos ou de crueldade então percebemos indivíduos com características psicopáticas. No momento que a gente percebe um crime cruel, automaticamente associamos a doença mental.

O psicopata é um doente mental?

Muitas vezes interpreta-se que o psicopata é um doente mental e isso não é verdade. A psicopatia é um transtorno da personalidade, é uma maneira de ser, por isso que não há cura: porque existe doença. Entender o comportamento criminal é entender as várias características que levam as pessoas a terem motivações específicas para cometerem crimes.

De que forma a psicologia, somada aos conhecimentos jurídicos, é importante para investigação ou conclusão de um caso?

A psicologia pode favorecer o entendimento do trauma, se existir ou não. A questão da psicopatologia forense, o papel do psicólogo na avaliação de criminosos e a psicometria são testes usados especificamente para entender essa personalidade frente ao evento crime, o atendimento clínico forense para vítimas e agressores. O agressor precisa de tratamento. Vale lembrar que não temos prisão perpétua e pena de morte no Brasil, o que significa que os 700 mil presos existentes no País vão deixar as cadeias. Nós precisamos pensar a segurança pública de trás para frente começando pelos presídios, a ressocialização e, depois, pensar nas ruas.

O que é a maturidade criminal?

A maturidade criminal é a aquisição de novas características comportamentais que favorecem o indivíduo a não sair do mundo do crime. Para amenizar a reincidência criminal que hoje alcança os 80%, a solução seria separar os presos por perfil de personalidade, pelo grau de maturidade criminal para evitar a contaminação desses indivíduos.

O que o senhor constatou sobre a maturidade criminal a partir de sua experiência?

Durante os 14 anos que trabalhei em presídios, percebi que indivíduos que ali entravam, saíam diferentes. Com os estudos de maturidade criminal, percebi que muitos indivíduos vão adquirindo características antissociais referenciais com outros bandidos.

Por exemplo, aquele que era o avião do tráfico sai do presídio querendo ser um mega traficante; aqueles que cometem pequenos assaltos quando saem ficam muito mais revoltados e são recrutados pelas grandes facções criminosas.

Nos últimos anos, o Amazonas teve altos índices de mortes por linchamentos de suspeitos de crime. Como podemos classificar isso?

Em relação aos linchamentos, isso não é fruto de uma sociedade moderna. A explicação é que esses indivíduos que cometem um ato de barbárie normalmente perdem a razão, a autodeterminação e quando digo razão falo de questões psicológicas. São atos de resposta automática, de violenta emoção. Você percebe que são pessoas que na sua grande maioria cometeram esse ato de extrema violência e provavelmente não cometerão mais.

Assim como em todas as lideranças, os indivíduos que tomam as decisões estimulam os mais comprometidos. O que podemos perceber é a justiça feita pelas próprias mãos, no entanto temos um sistema de justiça que deve ser respeitado.

E situações ainda mais extremas, como o massacre do Compaj no início do ano passado?

As rebeliões dentro das prisões nem sempre são motivados pela fuga. Na maioria das vezes a briga é pelo poder. É uma tentando controlar a outra lá de dentro, eles precisam desses soldados. Quando você entra em uma facção criminosa, você começa a ajudar mensalmente. É como um sindicato, eles são muito organizados. Eles têm um sistema de diretoria, de gerência, se assemelha a uma empresa.

Durante uma entrevista, eu ouvi de um mega traficante como funciona uma facção, e o que me surpreendeu é que os crimes de homicídios cometidos pelo tráfico que são de maior crueldade, são crimes de aviso para o outro. Então, briga dentro de presídios é poder e os esquartejados eram mensagens para outros.

Sobre o convite para participar de uma série de televisão voltado a investigação de crimes, como surgiu?

A série ‘Anatomia do Crime’ foi lançada no Investigação Discovery em julho do ano passado. São três temporadas, onde nós (eu e mais uma equipe de profissionais de São Paulo) analisamos os crimes de maior repercussão midiática e de maior crueldade no Brasil. Não há glamour falar de crime mas eu sinto que é necessário profissionais se dedicarem em passar isso à sociedade. A minha fala é voltada ao entendimento técnico-cientifico, mas é uma fala profilática também para que as pessoas prestem atenção no que podem evitar.

Qual a maior lição o senhor leva sobre o ser humano a partir de sua experiência profissional?

Nesses 18 anos como psicólogo criminal, eu percebi que a maldade está muito presente no ser humano. Nós temos a dificuldade de reconhecer esse lado sombrio. E por negarmos essa sombra, nós a alimentamos. O que quer dizer que não damos atenção especial ao nosso lado do mal, nós deixamos de lado e quando ele se manifesta, nós não sabemos lidar com ele.

Exemplo simples são ‘haters’ das redes sociais. São pessoas que estão sozinhas no quarto em frente ao computador tentando denegrir a imagem do outro. Outro exemplo é no trabalho, nem todas as pessoas se gostam, sempre haverá panelinha, um vai tentar puxar o tapete do outro e aquele que tenta ficar mais na sua vai ser criticado assim como aquele que demonstrar mais trabalho. O que aprendi nesses anos foi exatamente isso, a necessidade de conversar com o seu próprio demônio, e as pessoas negam isso.

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