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Cotidiano
SEGURANÇA PÚBLICA

Sindicatos ligados à Polícia Civil denunciam falta de estrutura e efetivo no AM

Diante de casos recentes de invasões criminosas a unidades policiais do interior do Estado, entidades sindicais denunciam condições precárias dos prédios e efetivo muito abaixo do adequado 24/08/2018 às 03:25
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Foto: Reprodução/Internet
Álik Menezes Manaus (AM)

Casos de revolta popular como o ocorrido no município de Caapiranga, na tarde da última quarta-feira (22), quando moradores tentaram invadir a delegacia da cidade para agredir suspeitos de assassinato, expõem a fragilidade das unidades policiais do interior e o déficit de efetivo policial. O assassinato do chefe da Polícia Militar dentro do quartel da corporação em São Gabriel da Cachoeira, na segunda-feira (20), e o motim de presos na delegacia de Uarini, ontem (23), reforçam ainda mais esse problema.

O vice-presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Amazonas (Sinpol-AM), Odirley Araújo, disse para A CRÍTICA que o Estado coloca em risco a vida dos servidores das polícias. Segundo ele, há 22 anos as delegacias dos municípios do interior não passam por reformas.

Para Odirley Araújo, as delegacias do interior não possuem estrutura para atendimento ao público e, muito menos, para oferecer um ambiente seguro aos policiais. Os prédios, segundo ele, têm dois metros de largura e, no máximo, quatro de fundo, divididos em recepção, sala do delegado e a cela.

“Estamos denunciando essa situação há anos. Nós, policiais, estamos colocando a nossa vida em risco. Essa é a realidade. Em casos como esse de Caapiranga, o policial não consegue se proteger, falta estrutura e mais efetivo”, denunciou.

Ele disse que as delegacias de todos os municípios do interior vivem a mesma realidade: falta de efetivo policial e estrutura física inadequada. “Já pedimos e propomos várias vezes que enviassem mais servidores para atuarem nos municípios. Nós temos feito denúncias desde 2015 sobre essa tragédia em delegacias. Precisamos ter condições para o funcionamento e segurança para a própria polícia”, disse.

Os prédios são tão pequenos e limitados que, segundo Araújo, em delegacias como as das cidades de Benjamin Constant, Rio Preto da Eva e Fonte Boa, os atendimentos às vezes são realizados ao ar livre em frente à unidade. “Outro dia denunciamos que havia 32 presos algemados na parte de fora de uma delegacia porque não havia espaço dentro do prédio”, lembrou.

O presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado do Amazonas (Adepol-AM), Mário Aufiero, afirmou todos os municípios do interior sofrem com a precariedade da estrutura e a falta de efetivo policial adequado. “Essa situação coloca nossos policiais em risco e precisa ser revisto pelo governo do Estado, precisa colocar mais efetivo de Policia Militar no interior”, disse.

Aufiero informou que vai pedir uma audiência com o Governo do Estado e a Secretaria de Segurança Pública  (SSP-AM) para pedir o remanejamento de policiais para municípios do interior. “Vamos nos reunir hoje (ontem) com a diretoria da Adepol para alinhar e vamos solicitar uma audiência. Precisamos resolver esse problema agora, precisamos que esses municípios tenham o policiamento adequado”, acrescentou.

Sem respostas

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) em busca de respostas sobre a possibilidade de remanejamento de efetivo e a precariedade das delegacias, mas até o fechamento da edição não obteve respostas.

Presos amotinados destruíram a delegacia de Uarini

A delegacia de Uarini, que funciona como unidade prisional na cidade (distante 565 quilômetros de Manaus), foi destruída, na manhã de ontem, durante um motim de presos.

Desde o início da manhã, 36 detentos iniciaram atos de desordem que resultaram na destruição da unidade. A situação ocorreu um dia após uma revista geral da Polícia Civil, que recolheu objetos proibidos, como celulares e drogas, que estavam em posse dos detidos, informou a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM), em nota.

Não há informações de foragidos, nem de feridos. Com a chegada da tropa extra da PM, enviada de Tefé em uma lancha rápida cedida pelo Exército Brasileiro, os presos se renderam. Os 36 detentos foram transferidos para a Unidade Prisional de Tefé, à tarde, e hoje serão trazidos para cumprimento de pena em Manaus.

Tenente foi morto dentro de quartel em São Gabriel da Cachoeira

O comandante da 2º Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM) de São Gabriel da Cachoeira, o tenente Jefferson Silva dos Santos, foi morto dentro de uma unidade da PM local, na noite da última segunda-feira.

Além dele, outro policial militar também foi baleado, mas passa bem. O suspeito de cometer o crime é um homem identificado apenas como Renato, que havia sido preso minutos antes, supostamente por integrar uma quadrilha que vinha realizando assaltos na cidade.

Renato foi encaminhado ao quartel da PM no município e, ao ser interrogado pelo comandante e o soldado Nathan Andrade, conseguiu tomar a arma de um dos policiais e atirou contra os dois. O comandante foi baleado no coração e na perna e chegou a ser levado para o Hospital de Base do Exército, mas não resistiu aos ferimentos. No dia seguinte, uma  equipe formada por delegado, peritos e policiais desembarcou no município para investigar o crime.

Revolta em Caapiranga

As seis pessoas que permanecem internadas após a confusão ocorrida na quarta-feira na delegacia de Caapiranga tiveram ferimentos provocados por arma de fogo. Quatro delas permanecem em observação, um tem quadro de saúde estável e outra segue internada em clínica cirúrgica, conforme informou a Secretaria de Estado da Saúde (Susam).

Policiais e moradores de Caapiranga trocaram tiros, em frente à delegacia, após a população se aglomerar para tentar fazer um linchamento de dois suspeitos presos. A agitação começou após a informação da transferência, para Manacapuru, de Osiane Mendes Lopes e Reginaldo Pereira dos Santos Júnior, que estavam presos desde a madrugada sob a suspeita de envolvimento no homicídio de Cosmo Dantas Mendes.

Um homem identificado como Carlos Paulo Lima Pereira morreu na confusão e 12 pessoas ficaram feridas, entre elas o promotor de Justiça Daniel Amazonas e o delegado Sinval Souza. Quatro feridos foram atendidos no hospital do município e liberados. Cinco foram transferidos para o hospital de Manacapuru e um para o Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio, em Manaus.

Desde segunda-feira, Cosmo está desaparecido e, segundo investigações, Osiane e Reginaldo são suspeitos da execução. Até o momento, o corpo de Cosmo não foi localizado. Os três têm diversas passagens pela polícia por envolvimento com o tráfico, porte de arma de fogo e homicídio. Osiane fazia parte do mesmo grupo criminoso de Cosmo, mas estavam rompidos.

Na quarta-feira, a situação ficou descontrolada por voltas das 17h, quando a multidão tentou invadir a delegacia atirando pedras. Os policiais deram tiros de advertência e daí começou a troca de tiros entre manifestantes e policiais.

Após o tiroteio, manifestantes ainda tentaram incendiar a delegacia jogando bombas caseiras, e também fizeram barricadas para impedir a saída de quem estava no prédio. A SSP-AM enviou reforços para conter os ânimos e determinou investigação rigorosa dos fatos.

Barbárie em Borba

No dia 8 de julho deste, uma multidão invadiu o quartel da Polícia Militar de Borba (a 151 quilômetros de Manaus) e tirou de lá o jovem Gabriel Lima Cardoso, de 18 anos, suspeito de homicídio, que foi linchado em via pública durante a revolta. A unidade foi depredada durante a ação. Vinte pessoas foram indiciadas.

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