Segunda-feira, 02 de Agosto de 2021
TRABALHO DOBRADO

Sobrecarga feminina de trabalho pode gerar doenças físicas e mentais

Com a pandemia, as mulheres estão sentindo ainda mais o peso de desempenharem tantas funções ao mesmo tempo



20200426144021332496a_8E78E307-01A5-4229-9D07-3C1151F00255.jpg Foto: Reprodução/Internet
21/02/2021 às 08:00

Além de expor uma grande desigualdade de gênero, onde as mulheres estão quase sempre mais sobrecarregadas que seus parceiros, o home office e a adaptação do trabalho externo à pandemia também acarretou uma série de problemas à saúde feminina. É normal que muitas apresentem sintomas como falta de sono, mudanças no apetite, estado de alerta constante, irritabilidade, dificuldade de concentração, baixa do desejo sexual, dentre outros.

De acordo com a psicóloga Neyla Siqueira, caso sejam ignorados, esses sintomas podem manifestar problemas ainda mais sérios, como insônia, distúrbios alimentares, problemas de relacionamento, evoluindo possivelmente para ansiedade, depressão ou até fobias.



“Mais uma vez coube às mulheres o acúmulo de funções e agora literalmente dentro de casa e sem nem a opção de contato com as pessoas externas. Além do óbvio cansaço físico, as consequências dessa sobrecarga começam a aparecer na saúde mental, o que é mais difícil de identificar pois em geral relatamos em reconhecer fraquezas dessa natureza, afinal impactam no nosso ideal de mulher maravilha, sem falar que é por muitos entendida como frescura ou até TPM”, alertou a especialista.

Autocuidado

De acordo com ela, parte da mudança de comportamento depende da própria mulher, que precisa entender que estamos em um momento atípico e a auto cobrança só vai deixar a situação mais complicada. “Não fará diferença se você for dormir com a louça por lavar ou se as crianças não estão milimetricamente penteadas. Posteriormente, é estabelecer um plano com os outros integrantes da casa, divisão de tarefas mesmo. E por fim, tentar manter a individualidade no meio da multidão dentro de casa, ter um momento seu pra fazer o que se gosta, isso se chama autocuidado. Pode ser simples como um banho demorado ou um filme, o importante é não ter criança gritando, celular apitando com mensagens do chefe ou marido perguntando onde está alguma coisa”, explicou.

Falta de rede de apoio

Para a jornalista Janaína Andrade relata que a falta de rede de apoio por causa da pandemia foi um desafio a mais a se vencer nesse momento. Mãe do pequeno Antônio, de sete meses, a jornalista disse que não tem sido uma missão fácil. “É claro que, na teoria, sabemos que um bebê requer dedicação máxima física e mental, mas a pandemia remodelou isso. Se antes era possível contar com uma rede de apoio maior, momentos de lazer, passeios, confraternizações com a família e amigos para celebrar a chegada do bebê, agora isso é uma realidade distante, todas as mães continuamos com a missão de equilibrar maternidade, trabalho, vida familiar, casa e fazer a mágica de tirar uns raros minutos para literalmente se olhar no espelho”. 

Janaína relembra que se sentiu “desorientada” com a chegada de Antônio. “ Me senti angustiada e com preocupações que beiraram o extremismo. No início, eu não me permitia ter paz e entulhava meu dia de ‘missões”=’. 

Quando as missões não eram completadas com sucesso me sentia frustrada, porque a minha versão de antes conseguia organizar tudo. Com o passar dos meses, a forma (realista) que consegui enxergar as atividades do dia foi: se foi feito, ótimo. Se não foi feito, está tudo ótimo também”, pontuou.

Janaína relata que as pressões do dia a dia desencadearam sintomas físicos e ela precisou procurar ajuda profissional. “Botei o pé no freio e hoje tento aproveitar mais os momentos, observar o desenvolvimento do meu filho, ter uma conversa sadia com a minha mãe ou meu marido, ver um documentário. Acho que, sem julgamentos, podemos procurar algo que gostamos de fazer e nos permitir ter esse momento, nem que seja por 20, 30 minutos. Outra ferramenta que adotei foi a meditação, exercícios de respiração. Eu não faço uma hora de meditação, seria cômico se tivesse esse tempo, mas faço dez minutos e me ajuda, sim, a reduzir alguma angustias do dia”.
Ela também mandou um recado às mães que estão passando pelo mesmo momento. “Se eu pudesse deixar um recado fraterno para as muitas mulheres que vivem essa realidade, seria: você está fazendo o seu melhor, vai ficar tudo bem. Ah, muito importante: exclua palpiteiros da sua vida. Exclua aquelas pessoas que minimizam os seus sentimentos, que não lhe acolhem e que sempre saem com o famoso ‘mas é só a minha opinião”.

Relaxando com as cobranças

A enfermeira Maria Alice Santos sempre teve uma rotina atribulada em meio aos atendimentos domiciliares e plantões em hospitais. Com a situação da pandemia, precisou criar ainda mais alternativas para conseguir dar conta de todas as funções. Em meio à isso tudo, não pôde mais contar com o apoio da diarista, o que a deixou ainda mais sobrecarregada. “Precisei criar alternativas para que pudesse não me sentir tão mal com tanto trabalho e uma delas foi tentar relaxar em relação aos cuidados com a casa. Não que eu deixe tudo bagunçado, mas tento não me cobrar tanto para que esteja tudo perfeito o tempo todo”, afirmou.

Além disso, ela buscou novos hobbies para que pudesse direcionar a sua energia. “Nuca me vi nesse papel, mas estou cuidando de plantas em casa e adorando essa nova atividade. Tem me ajudado bastante a me manter mais calma e relaxada. Além disso voltei a ler e estou tentando relaxar mais”.

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