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Sobrevivente da bomba de Hiroshima, japonês radicado em Manaus lembra o terrível dia

Hiroshi Nishiki, 89, recorda o dia 6 de agosto de 1945, há 70 anos, quando uma bomba atômica assolou a cidade de Hiroshima, no Japão, causando 240 mil mortes 06/08/2015 às 09:48
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À época, Nishiki, era um jovem desenhista de 20 anos, recém-formado em Arquitetura
Náferson Cruz e Nelson Brilhante Manaus

O relógio marcava 8h15 do dia 6 de agosto de 1945, quando um bombardeiro Boeing B-29 chamado “Enola Gay” jogou sobre Hiroshima, no Japão, a bomba de urânio batizada de Little Boy (garotinho, em inglês). Apenas 43 segundos depois, quando se encontrava a 600 metros do solo, uma bola de fogo explodiu devastando quase tudo que estava ao seu redor, matando instantaneamente cerca de 80 mil pessoas.

Era a primeira vez que a humanidade se deparava com essa terrível arma de destruição em massa. O genocídio completa hoje 70 anos, uma data que o Sr. Hiroshi Nishiki, de 89 anos, morador do conjunto Kíssia, bairro Dom Pedro, na Zona Centro-Oeste de Manaus, gostaria de ter apagado da memória.

À época, Nishiki, era um jovem desenhista de 20 anos, recém-formado em Arquitetura, mas que estava no mar, a serviço da marinha japonesa.

Ele conta que, quando voltou, a Segunda Guerra Mundial já havia exterminado quase todos os seus parentes. Só escaparam o padrastro, a mãe e cinco irmãos, que haviam fugido antes para a cidade de Osaka.

“Foi muito triste. Saímos do navio para ajudar, mas não tinha mais nada. De repente, vimos uma menina correndo nua, toda queimada e com as carnes caindo. Tentamos colocar panos com remédio, mas ficou grudado e caiu com pedaços de carne e ela morreu. Não encontrei mais nenhum parente em Hiroshima. Não sabia mais nem onde era nossa casa, acabou tudo, tudo queimado. Aí, fui para Osaka”, relata o arquiteto, sem conseguir segurar as lágrimas.

Nove anos depois da guerra, a vida ainda era muito difícil,  “faltava comida, não tinha emprego, era uma tristeza”. Então, a família Nishiki, convencida por Hiroshi, e outras trezentas pessoas resolveram embarcar num navio em direção ao Brasil, usufruindo do acordo pós-guerra firmado entre as duas nações.Mas, para poder viajar, teve que, às pressas, conseguir uma esposa (Eiko), que faleceu no dia 2 de janeiro deste ano.

Cidade quase foi devastada

Ao final de 1945, aproximadamente 69%   das construções de Hiroshima foram completamente destruídas. Pesquisas sobre os efeitos do ataque foram censuradas durante a ocupação do Japão até a assinatura do Tratado de São Francisco em 1951, devolvendo o controle do País aos japoneses.

Adaptação da família

Depois de um mês de viagem e uma parada rápida em Belém, as famílias foram divididas em barcos menores e distribuídas pela região. Em dezembro de 1954 os “Nishiki” já estavam em Manacapuru (a 80 quilômetros de Manaus), trabalhando como agricultores, uma atividade que eles não desenvolviam no Japão, mas uma das poucas aceitas como condição para entrar no Brasil. Todos foram trabalhar como braçais para terceiros, até conseguirem terras para suas próprias plantações.

Dois dos irmãos de Hiroshi pegaram gosto pela coisa, mudaram para terras mais férteis e hoje são grandes produtores, principalmente de frango. Muito mais hábil com um grafite que com uma enxada, Hiroshi e a família se mudaram para Manaus e ele começou a ganhar dinheiro desenhando e pintando placas publicitárias para empresas e comércios.

Visita ao Japão

Passaram-se 68 anos até Hiroshi visitar sua “pátria mãe”. Depois ele foi mais duas vezes, mas só na primeira teve coragem de voltar a Hiroshima. “Não tenho mais família lá, então fui só passear, mas quase desisto... Foi muito difícil relembrar tudo, chorei muito. Não quis mais ver aquela cidade. Agora fico até morrer no Brasil”, conclui o homem, que tem o nome parecido com o de sua cidade natal.

Com a esposa, Eiko, teve três filhas, sendo uma contabilista, a outra médica e uma nutricionista. A última, Júlia, 43, chegou a morar e trabalhar durante vários anos no Japão, mas nunca foi nem a Osaka, nem a Nagasaki e muito menos a Hiroshima.

Os efeitos do ataque 

Entre dois e quatro meses após os ataques atômicos, os efeitos agudos das explosões mataram entre 90 mil e 166 mil pessoas em Hiroshima e 60 mil e 80 mil em Nagasaki; cerca de metade das mortes ocorreu no primeiro dia. Nos meses seguintes, muitos morreram por causa de queimaduras, envenenamento radioativo e outras lesões, que foram agravadas pelos efeitos da radiação.

Em 2 de setembro, o governo japonês assinou o acordo de rendição, encerrando a Segunda Guerra Mundial.

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