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“Sou apenas um grande ajudante”, diz Moysés Israel

A três dias de seu aniversário de 90 anos, o empresário relembra momentos marcantes de sua trajetória no desenvolvimento da economia local 07/02/2016 às 12:26
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Moysés Israel é o 1º vice-presidente da Federação das indústrias do Estado do Amazonas
Juliana Geraldo Manaus (AM)

Ele nasceu na década de 20 e acompanhou o desenvolvimento de Manaus, observando sua expansão e sendo agente ativo de sua transformação. Prestes a completar 90 anos – a serem comemorados nesta quarta-feira, 10 –, o filho primogênito de Salomon Benarrós Israel  e Carlota (Cotinha) Sabbá Israel,  Moysés Israel é a prova viva de que a diferença entre a facilidade e a dificuldade está no esforço empenhado para se realizar sonhos.    

Com trato leve e maneiroso com as pessoas, como diz em sua biografia publicada em 2014, ele é pioneiro, junto com seu tio Isaac Sabbá, em grandes empreitadas empresariais, como a construção da primeira refinaria de petróleo do Amazonas. Suas digitais também se fazem presentes na consolidação da agroindústria no interior do Estado e na indústria fabril da capital amazonense. Parte do Polo Industrial de Manaus tomou assento em propriedades que foram dele.

“E ainda não terminei”, diz ele que carrega planos grandiosos para resolver problemas que não são apenas seus. A CRÍTICA entrevistou, nesta  semana, este homem de cabelos brancos e muitas histórias para contar. Um homem que apesar de seus feitos, nem se considera um administrador ou industriário. “Ele (o tio)   é que era o industriário. Eu fui apenas um grande ajudante”,  define-se. 

O senhor nasceu em Manaus e viveu no Centro da cidade por muito tempo, acompanhando muitas transformações. Que memórias o senhor traz daquela época?

Moramos em casas que ficavam em ruas como Joaquim Nabuco e Sete de Setembro. Da minha infância lembro de correr  em cima do telhado atrás de  papagaio e de ficar lá em cima jogando pedrinhas nas pessoas que passavam na rua. Da cidade lembro muito de lugares como o Teatro Amazonas, porque quando eu tinha 12 ou 13 anos, os melhores alunos do ginásio eram premiados com ingressos para os espetáculos. Naquela época ir ao teatro era um verdadeiro privilégio, ainda mais porque tínhamos acesso ao camarim. Imagina o que era para um garoto conhecer os artistas? 

O senhor começou a trabalhar como ajudante no escritório do seu pai. Essa época lhe ajudou a decidir o que viria a fazer depois, quando veio a trabalhar como diretor comercial da Companhia de Petróleo do Amazonas ?

 Era bom. Na verdade, eu não pensava muito no assunto. Comecei a trabalhar com 11 anos. Ia para a escola, fazia curso de datilografia e era auxiliar no escritório do meu pai. Ele era representante comercial e também exportador de peles de animais e de uaicima, uma fibra parecida com a juta. Eu gostava de ajudar, mas não era o que eu sonhava em fazer.

 E qual era o seu grande sonho?

 Eu queria mesmo era ser engenheiro químico. Muito tempo depois quando começamos a trabalhar com petróleo, eu gostei. Pensei: agora sim tem química no meio. Até hoje sou um grande leitor do assunto e tenho assinatura das principais revistas sobre o tema. Cheguei a cursar o pré-politécnico em Belém pensando nisso e foi lá que eu conheci o Paul (Le Cointe) que fundou a Escola de Química do Pará. Ficava na Praça da República e não dava diploma, mas eu pedi para assistir as aulas e lavar as pipetas do laboratório. Aprendi muito nessa época. Depois, para continuar os estudos, o único lugar possível seria a Universidade Mackenzie em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Eu cheguei a ir, mas não deu certo.

 Que acontecimentos mudaram  os planos iniciais?

A essa altura meu pai já tinha morrido e meus tios - Jacob e Isaac Sabbá - assumiram os negócios. Um deles - Isaac - estava em São Paulo e me levou para lá para que eu pudesse cursar o Mackenzie. Mas quando eu cheguei lá, o Getúlio (Vargas) baixou um decreto que obrigava as universidades a trabalharem com um percentual mínimo de professores brasileiros e o Mackenzie não atendia o critério, portanto não havia curso. Com isso, todas as vagas do Rio de Janeiro foram ocupadas rapidamente por alunos de São Paulo e eu fiquei sem vaga. Decidi voltar para Belém, mas o navio demoraria um mês para sair e nesse meio tempo, fiquei trabalhando com meu tio Isaac. 

Essa decisão de ficar marcou o resto da sua caminhada profissional?

 Sim, porque quando chegou a hora de embarcar, ele me pediu pra ficar com ele trabalhando e eu aceitei. Ele me deu uma máquina de datilografia Hamilton e  disse: “escreva aí: bens com que entra o senhor Isaac Sabbá na Empresa Individual I B Sabbá”. Esse texto marcava o início da empresa dele e a partir daí eu passei a trabalhar na empresa e nunca mais voltei para a área química, pelo menos não oficialmente.    

Em 1942, aos 18 anos, o senhor foi emancipado para se tornar sócio de Isaac Sabbá na empresa, que passou a se chamar Isaac Sabbá & Cia. Nessa época vocês já trabalhavam com petróleo?

 A nossa empresa foi se desenvolvendo até que chegou a esse tempo, mas era uma empresa exportadora de gêneros. Meu tio instituiu um sistema que depois virou uma norma que eram as promissórias rurais. A gente dava dinheiro, as pessoas coletavam a castanha, a gente pegava a promissória e  calcionava no banco. Funcionávamos  como um pequeno banco.  Depois, lá pela década de 50, no pós-guerra, é que diversificamos e passamos a comercializar o petróleo.   

Vocês já faziam o refino do petróleo aqui ou só distribuíam?

Não. Trazíamos do Peru para distribuir aqui. Acontece que a qualidade do produto deixava muito a desejar e eu ia muitas vezes até lá para reclamar. Até que uma vez um engenheiro americano que trabalhava para a empresa fornecedora ficou meio bravo e me disse: Diga pro seu tio que o petróleo daqui sempre vai ser desse jeito. Se ele quiser um produto melhor. Mande ele fazer uma refinaria, que eu abasteço com o melhor petróleo do mundo. Eu sabia que esse petróleo era  o mesmo que o nosso - de Urucu - porque a bacia se estendia até o Marajó. Então, eu voltei para o Brasil e dei o recado.

 E o que ele respondeu? Esse foi o início da primeira refinaria do Estado?

Sim. Ele disse: “é difícil?”. E eu respondi: “tudo é fácil e tudo é difícil, depende do estudo e trabalho empregado”. Então, meu tio, que era um homem das coisas grandes me fez a seguinte pergunta: “qual é a maior refinaria do mundo?”. Ele queria me mandar para essa refinaria mas ficava para os lados da Arábia e como eu não dominava o idioma fiz grandes estágios em refinarias mais próximas. Ele era um homem muito inteligente. O grande industrial foi ele, eu fui apenas um grande ajudante para ele.

Como foi iniciar aqui um projeto tão visionário?

Difícil. Se eu falasse para alguém que estávamos tentando instalar uma refinaria naquela época ninguém ia acreditar. Aqui não tinha nada, nenhum equipamento necessário. Buscamos tudo de fora. Para levantar a maior torre da refinaria, que tinha 60 metros, gastamos um mês e meio, com 40 engenheiros trabalhando dia e noite. Usávamos dormentes - estruturas de madeira - para erguer a torre e íamos subindo a ferragem pouco a pouco. Era a mesma tecnologia utilizada – acredita-se – para erguer as pirâmides do Egito. Um trabalhão. Mas era importante fazer a refinaria, não só para nós mas para o Estado que teve muitos ganhos em arrecadação. Começamos com cinco mil barris e logo passamos para dez mil, com a ajuda de um grande projetista e amigo, Roberto Campos.

O que Roberto Campos representou para a história de vocês?

Ele era cônsul de terceira categoria iniciante no consulado brasileiro em Los Angeles e nos ajudou a comprar a refinaria nos Estados Unidos, mas fez muito mais que isso tempos depois. É graças a ele e ao engenheiro Arthur Amorim, que temos o projeto da Zona Franca de Manaus. O projeto voltou da mesa de roberto três vezes por parecer de mais com a zona Franca do Panamá. “Isso já existe, dizia ele. Precisamos criar algo diferente. Colocar indústria nesse projeto, não apenas comércio”. E foi assim que tudo começou.

Como os seus terrenos entraram na história do desenvolvimento do polo industrial de Manaus?

Todas aquelas terras do distrito eram minhas e da minha família. Quando a Suframa foi instituída e foi necessário o espaço para a construção do Polo, eu e meu sócio fomos procurados. Ele não quis vender a parte dele. Então, eu desfiz a sociedade e vendi só a minha parte. Mas eu planejava receber o pagamento. Só que o pagamento foi parcelado em trinta  vezes por causa do alto valor e seis meses depois veio a inflação do Sarney que chegou a 90% ao mês. Então eu só recebia 10% do valor e no final dos trinta meses os papéis já não valiam mais nada. Acabei fazendo uma doação compulsória (risos). Mas não lamento. Foi uma boa contribuição.

Como o senhor se sente em relação à Zona Franca de Manaus hoje?  O que pensa em relação a essa crise que enfrentamos atualmente na indústria?

  Eu me sinto frustrado. Principalmente levando em conta o potencial do projeto. Mas, não posso dizer que passamos por uma grave crise, considerando outros momentos mais delicados. Um deles foi após a Segunda Guerra Mundial, quando voltamos a ficar não competitivos em preço da borracha e deixamos de escoar para o resto do País. Não havia dinheiro para nada por quatro anos. Depois disso, em 1975, a importação de insumos foi contingenciada e passamos a ter  que produzir com itens nacionais, independentes da qualidade. Empobrecemos tecnologicamente. Quando, quinze anos depois, o Collor abriu a economia e a competição, sentimos os efeitos. Fábricas fecharam e o número de empregos foi reduzido pela metade. E ainda teve o confisco (da poupança), onde muitas pessoas ficaram sem quase nada em suas contas bancárias. Essas foram situações críticas. O que temos hoje é apenas resultado de um ‘desgoverno’ generalizado.

 E quanto à crise da Petrobras? Qual sua avaliação tendo sido, por muitos anos, empresário da área?

Acho que tivemos uma área de infeliz politicagem que  nos deu o resultado a que chegamos, bastando mencionar alguns maus negócios como o da refinaria de Pasadena, o da refinaria da Bolívia, cujo valor nada recebemos e o da Venezuela, um ferro velho desgastado pelo enxofre. É triste.

Além de toda essa trajetória e vivência, o senhor também é um dos fundadores da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas e deu contribuições em diversas áreas como a doação do terreno de sua própria casa para a Ufam se instalar em Itacoatiara. O senhor ainda pensa em contribuir de alguma forma com o Estado?

Sempre. Dois projetos principais me impulsionam. Um, que está um pouco longe de se tornar realidade em função da legislação ambiental, é a plantação de mudas de pinhão manso, uma planta da qual se pode produzir um combustível, mais sustentável. Meu objetivo é ocupar a fronteira do nosso Estado, gerando atividade econômica para aquelas pessoas. Porque a única atividade na fronteira é o tráfico de drogas.

E qual é o outro plano?

É a plantação de uma espécie indiana chamada neem. Ela produz um tipo de amêndoa cujo óleo é o melhor inseticida  do mundo. Onde nós plantamos experimentalmente até agora, os mosquitos não chegam perto. A ideia é plantar o máximo possível, para evitar sobretudo o mosquito da dengue. Espero conseguir.

 Quais são suas atividades atuais?

Faço bastante coisa, mas resumidamente, sou 1º vice-presidente na Fieam, empresário, membro do conselho de notáveis e vendedor de terrenos no bairro Tarumã (risos). Quer comprar um? (risos).

Perfil

Moysés Israel

Idade: 89 anos

Currículo: 1º vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, membro do conselho estadual de notáveis e empresário.

Histórico: Sócio na empresa Isaac Sabbá & Cia, tendo participado da construção de uma das primeiras refinarias do País. Atuou na agro indústria e auxiliou de diversas formas  o segmento industrial. 

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