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'Sou mais amazonense do que paraense’, diz a voz do Garantido

Levantador de toadas do Boi da Baixa do São José, Sebastião Junior, quase muda a geografia para unir duas de suas paixões, Juruti e o Amazonas. Em entrevista para A Crítica, ele fala sobre rivalidade, família e a conquista da galera 07/07/2013 às 10:26
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Sebastião Junior
aruana brianezi Manaus (AM)

Se dependesse de Sebastião Júnior, o município paraense de Juruti seria no Amazonas. Levantador de toadas do Garantido, o músico fez história no Festival de Parintins ao ser escolhido para o posto a apenas uma semana da disputa, em 2010. Além de ser um ilustre desconhecido do grande público e ter como adversário o consagrado David Assayag, Sabá teve também que superar a desconfiança de torcedores dos dois bumbás pelo fato de não ser parintinense. Quatro festivais depois, ele explica que tirou de letra a tarefa porque sempre se sentiu mais amazonense do que paraense.

Natural de Juruti, no extremo oeste do Pará, onde viveu até os 23 anos, desde menino Sabá teve uma relação mais próxima com a capital do Estado vizinho, por exemplo, do que com Belém. O amor pelo Amazonas, no entanto, não o impede de correr para casa sempre que pode. Em Juruti, além do carinho de pai, mãe, irmãos e do casal de filhos (que só em 2014 se mudarão definitivamente para Parintins), encontra um complemento perfeito para o agito de Parintins: o silêncio. É da mistura de festa e calmaria que ele tira força para, se não mudar a geografia, ao menos inaugurar uma nova tradição: a de que que paraense também é nota 10 no boi de Parintins.

Como um músico de Juruti, apresentador da  tribo Munduruku, virou levantador do Boi Garantido?

Em 2006, toquei com o grupo Ajuri, de Parintins, que fazia os ensaios e pré-show nas festas do Garantido. Ali, muita gente me viu cantando. Em 2010, a convite do Demétrius (Haidos), um dos compositores do boi, fui de novo para Parintins, dessa vez para ajudar nos ensaios da Batucada, que estava só com um cantor. Passei o ano com eles, mas voltei para casa, em Juruti, logo depois do último ensaio técnico, a uma semana do festival.

Quer dizer que, a uma semana da sua estreia, você nem sonhava em ser o levantador oficial?

Eu não sabia que o Robson Jr  (então levantador) estava com problemas de saúde. Logo que cheguei em Juruti, integrantes da diretoria do Garantido me ligaram, chamando para reunião. Para falar a verdade, não levei muito a sério. Nunca passou pela minha cabeça ser o levantador. Mas voltei. Daí o Fred Góes e o Chico Cardoso (diretores do boi) explicaram que o Garantido precisava de um “plano B”. Me mostraram o repertório das três noites de apresentação e perguntaram: “Qual dessas você não sabe?” Fui marcando, deu umas 20 e poucas músicas. O Chico disse: vou gravar um CD e você tem que aprender todas! O anúncio oficial foi no teste de som, já no Bumbódromo, dois dias antes do festival.

E você já tinha noção do peso, da responsabilidade de ser item do boi?

Ah, não... Eu estava mais preocupado em aprender as toadas. E sempre pensei que não há, na vida, uma primeira chance. O que existe é a única chance. Aquela era a minha, então fui para a arena pensando em conquistar a galera. Nem pensei em jurados. Na primeira passagem de som com o Bumbódromo lotado, senti como se estivesse batendo um pênalti decisivo. A Daniela Mercury apertou minha mão e disse: “As coisas não acontecem por acaso. Se você está aqui é porque esta missão é tua. Vai lá e mostra tua voz”. Aquele foi o maior público na minha carreira.

E você já tinha escolhido um boi? Já era Garantido?

Sim, Desde 2004 passei a ir direto para o festival. No começo, ficava na fila da galera pra conseguir lugar. Uns anos depois, arranjei emprego na prefeitura de Juruti e daí tive como comprar arquibancada especial.

Qual você considera seu ponto forte na arena?

O Festival de Parintins é um teatro. Temos que apresentar como teatro. Esse é meu ponto forte: a cênica. Canto desde os 13 anos, mas sempre cuidei do aspecto da interpretação. Participei de vários festivais de música e costumava observar isso nos vencedores. Eles não iam lá e simplesmente cantavam. Havia uma entrega ao que dizia a letra. Os festivais me prepararam para isso, para interpretar. E tem mais: eu penso no público. Fico imaginando que a pessoa não paga ingresso para me ver parado cantando. Eles querem show.

Isso é uma crítica ao David Assayag, seu principal adversário na arena?

Não falo pensando nele. Esse é um conceito que formei muito antes de Parintins. Uma vez, fui escolhido para representar o Oeste do Pará num festival em Belém. Ali, vi o que era interpretação. A moça que ganhou o concurso deu show de olhos fechados. Ela cantou de uma forma que parecia que estava voando.

Como é para um novato ganhar do David? Essa era uma meta sua?

Quem se apresenta melhor, ganha. E vai ser sempre assim. Perdi na estreia em 2010. Mas o pior foi que o boi perdeu. Me preocupo muito mais com o todo. Então, o importante é o Garantido ganhar. Em um momento de raiva já falei que vou aposentar o David. Mas foi mais por decepção... Eu escutava os CDs do Garantido e sempre gostei do David cantando. Mas não conhecia esse outro lado dele, de desmerecer os outros. Pensei que houvesse uma humildade muito grande nele.  Mas meu foco não é vencer o Davi. Meu foco é ganhar o festival.

Imagino que vocês se encontrem com frequência. Como vocês se tratam? Se falam normalmente?

Sim, claro. Eu sei de onde vêm as provocações. Eles têm que alimentar a rivalidade. É algo que a galera gosta. Uma vez o David chegou a me falar isso. Agora, quando passa para o lado pessoal, não é bacana. Porque o Davi canta muito, é um artista que todo mundo reconhece, mas no mundo não é só ele que canta, não. Não sou só eu também.

Quando você usa a deficiência numa provocação também não é levar para o lado pessoal?

Eu faço o máximo para não entrar nesse argumento. Na vez que usei a camisa com os dizeres “Eu canto, eu danço, eu venço... pena que o contrário não vê”, foi um erro meu.  Ganhei a camiseta ao subir no palco e vesti sem ver direito. E, num primeiro momento, não achei que a referência ao “contrário” era direta ao Davi. Mas não usaria aquela camiseta de novo. Usaria “eu canto, eu danço, eu venço... pena que o Caprichoso não vê”. Mas a gente se fala normal, eu e o Davi. Esse ano fizemos juntos o duelo do centenário em Itacoatiara, Santarém e Urucará.

Você cantaria no Caprichoso?

Não. Isso não passa pela minha cabeça pois tenho uma dívida muito grande com o Garantido. Eles me ajudaram, me valorizaram. O artista preza muito isso. Um aplauso, um desejo de boa sorte. E a torcida do Caprichoso falou muito mal de mim sem me conhecer. Assim como falavam do Davi, que agora é imperador deles. Acho isso chato. Eu não sei viver assim. Não sei conviver com pessoas que você sabe que não estão sendo verdadeiras, que te paparicam por uma circunstância.

Você sentiu preconceito ou rejeição por ser “de fora” de Parintins?

Em Parintins, não. Os batuqueiros, a banda, todos já me conheciam.  Essa resistência partiu de Manaus. As críticas foram daqui para lá, mas nunca chegaram a afetar meu trabalho. Sou muito tranquilo. E eu sou amazonense. Me sinto mais amazonense do que paraense.  Na minha vida toda, fui uma vez a Belém. Mas perdi as contas de quantas vezes vim a Manaus, Parintins, Itacoatiara. O rio Amazonas passa na frente da minha cidade! Sempre digo que sou da Amazônia. E para mim, ter origem nessa “divisa” entre Pará e Amazonas é ótimo, pois reúno as coisas boas dos dois Estados. É uma soma.

Qual sua maior saudade de Juruti?

Muita coisa. Eu gosto de silêncio, de estar no sítio. Depois de todo o agito, ensaios, festival, barulho, preciso voltar pra casa. Claro que a festa vale a pena. Esse ano, mais ainda, que foi o festival do centenário. Mas penso assim: missão cumprida, agora vou descansar para depois começar tudo de novo. Volto para Juruti principalmente para ver meu pai e minha mãe. Ela é aposentada e está em uma idade em que sente nossa falta, é preciso a presença dos filhos. Somos quatro homens e duas mulheres, sou o caçula e o único que mora fora. Enquanto ela não me vê, não fica tranquila. É como se estivesse sempre faltando alguém.

Perfil

Sebastião Junior

Idade: 26 anos

Família: Casado com Jamily Barbosa e pai de Lavine, 6 anos,  e Sebastian, 3 anos

Experiência: Apresentador dos Munduruku no Festival de Tribos de Juruti até 2010 e há nove anos produtor do CD da festa

Resultados em Parintins:  Como item número 2, perdeu para David Assayag em 2010, venceu em 2011 e 2013 e empatou em 2012

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