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‘Supermãe’ divide amor com 63 filhos, em Manaus

Waldiza Araújo transformou a casa onde vive em um lar para dezenas de crianças abandonadas e resgatadas das ruas 08/03/2015 às 11:24
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Waldiza (ao centro) com uma pequena parte do ‘exército’ de filhos, que é composto por mais de 60 pessoas, sendo 22 filhos adotivos registrados por ela e dois biológicos
Oswaldo Neto ---

Uma centena de pães não é o suficiente para abastecer o café da manhã na movimentada residência da dona de casa Waldiza Ribeiro Araújo. Aos 57 anos, ela tem uma família que não segue um perfil convencional e isso faz dela uma mulher diferente da maioria das mães do mundo. O motivo é que a dona Wal, como gosta de ser chamada, abriga 63 “filhos do coração” na casa dela, provando que o amor maternal vai além de uma ligação sanguínea e pode ser repartido em dezenas de partes iguais.

O dia começa cedo no Lar da Wal, localizado na avenida Laguna, bairro Lírio do Vale, Zona Oeste, e a maior parte das crianças já foi pra escola. Todos os números na residência são altos: 12 quartos, 8 banheiros, 10 televisões, duas cozinhas, centenas de móveis e pessoas espalhadas por toda parte. “Na hora de sair e no almoço é uma esculhambação”, brinca Waldiza, ao receber a equipe de A CRÍTICA. Waldiza, que nasceu no município de Manacapuru e é formada em Administração, conta que chegou a trabalhar em uma empresa de cosméticos, porém o amor pelos filhos a fez se dedicar totalmente à maternidade. Ela ainda revela que o maior sonho era ter 10 filhos, porém, o destino acabou sendo mais generoso com ela.

“Larguei tudo por eles e há mais de 30 anos venho adotando. Começou quando as mães vinham deixando eles comigo, elas falavam que vinham buscar, mas não voltavam. Aí eles vão crescendo e vão ficando”, disse. Além de crianças deixadas pelas mães, Waldiza se emociona ao falar sobre o resgate dos seus outros filhos, que saíram de vidas difíceis e encontraram uma chance de recomeçar ao lado dela. “A ‘minha’ Érica, de 36 anos, veio em situação de risco e ninguém acreditava que ia mudar, mas mudou e hoje, quando eu não estou aqui, ela é quem toma conta. Já tirei meninos da praça, da Ponta Negra, alguns eram viciados em drogas, cheiravam cola e hoje eles estão recuperados”, contou.

‘Conselhos de Mãe’

Wal não sabe ao certo quantos filhos ela já ajudou nesses 30 anos. “Acho que mais de 200”, aposta. O que é certo no Lar da Wal são as contas mensais, que mostram valores altíssimos. A conta de luz, por exemplo, apresentou o valor de R$ 3 mil no mês de fevereiro. Wal ainda estima que os gastos por mês, incluindo alimentação, serviços de TV e Internet, produtos de limpeza e higiene pessoal cheguem a R$ 15 mil. Por conta disso, ela recorre constantemente à ajuda de amigos e vizinhos para não deixar faltar nada ao seu “exército” de filhos.

“Eu vivo de doações e não recebo ajuda do Governo. Nunca pensei em criar um instituto ou uma ONG, nada disso. Recebo todos os dias 100 pães como doação, mas não dá. Tem menino que quer comer três ou quatro e aí não dá pra nada”.

Exemplos

Nessa multidão, onde 22 pessoas são registradas oficialmente pela dona de casa com o marido dela, Francisco Eduardo Ribeiro, Wal afirma possuir dois filhos biológicos. Um deles é advogado, já o outro é militar do Exército. Segundo ela conta, as mesmas orientações repassadas aos primogênitos quanto à importância da educação ela tenta impor a todos àqueles que decidiram tê-la como mãe. Ela diz “não passar a mão na cabeça de ninguém”.

“Eu faço de tudo para eles se formarem e estudarem, porque o que vai ficar é o estudo e isso ninguém vai tirar. Herança eu não tenho para dar, por isso cada um aqui tem que ir fazendo a sua parte. Eu dou o caniço para eles pescarem, o peixe é por conta deles”, disse.

As gêmeas Suzy e Sayra, de 19 anos, por exemplo, dão orgulho a Wal. “Elas chegaram aqui novinhas e hoje estão cursando Letras. Todas elas correram atrás”.

Obstáculos

O espaço do Lar da Wal “diminuiu” com o tempo para abrigar tantos filhos, e hoje abriga até um neto. O coração dela poderia receber outras centenas de crianças, porém o local não suporta mais a quantidade. “A dificuldade está em manter o que é preciso. Por mim aumentaria aqui com certeza, construiria salas de aula, mas infelizmente não tenho condições, porque se tivesse daria prioridade para o ensino”.

Dentro do lar, independente de idade ou origem, todos os filhos chamam Waldiza de “mãe”. Ao ser questionada sobre o que ela sente diante das supostas dificuldades, ela responde: amor. “É incrível! É como se cada criança tivesse saído de mim. Parece que é meu filho. Não tem diferença de filho biológico e adotado, o amor é o mesmo. A pessoa que cria sabe”.

Mutirão para cuidar de um batalhão

A residência onde Waldiza e os 63 filhos de coração vivem conta com a ajuda de outros seis voluntários, responsáveis por auxiliar na preparação da comida e limpeza dos cômodos. Algumas filhas mais velhas também contribuem nas atividades domésticas.

Em passeios de família ao cinema e balneários, por exemplo, Waldiza conta que é necessário fretar dois ônibus para transportar o gigantesco grupo de filhos adotivos.

Os aniversários no Lar da Wal são comemorados de três em três meses há muitos anos. Segundo ela, uma pessoa comparece à residência para celebrar os aniversariantes e uma grande festa é feita para todos.

A vida de Wal também é objeto de estudo para alunos do curso de Técnico em Segurança do Trabalho, do Centro Literatus. O local funciona como ponto de reunião para a disciplina de “humanização”, tendo em vista a quantidade de crianças que moram na residência.

Na última quinta-feira, Waldiza recebeu da Câmara Municipal de Manaus um reconhecimento pelo trabalho que realiza no Lar pelo Dia Internacional da Mulher.

Além de doações, a renda da família é complementada com a ajuda de filhos que já trabalham e da auto-escola de Francisco, em Manacapuru.

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