Sábado, 31 de Outubro de 2020
Volta ao passado!

Teatro Amazonas está resgatando sua história através de documentos raros

No famoso espaço fundado em 1896, e que é administrado pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC), funcionários do setor de Acervo Histórico estão fazendo as buscas de importantes documentos que estão em arquivos de outros locais da cidade



ta1_EFF74FBE-CCC5-4283-9FEB-03518BC80485.jpg O trabalho já existia desde 2014, mas se intensificou a partir de abril do ano passado com o mapeamento e um cronograma de onde estaria toda a documentação histórica. A pandemia do Covid-19 atrapalhou o mapeamento, mas não o paralisou / Fotos: Aguilar Abecassis/Free Lancer
29/07/2020 às 14:27

Um importante trabalho de mapeamento e catalogação de documentos antigos relacionados ao Teatro Amazonas está resgatando a história do secular cartão-postal de Manaus.

No famoso espaço fundado em 1896, que é administrado pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC), funcionários do setor de Acervo Histórico do Teatro estão fazendo as buscas de documentos in loco, inicialmente, no Arquivo Público do Estado do Amazonas (Apeam), Biblioteca Virtual do Estado, que fica no Centro Cultural dos Povos da Amazônia (CCPA, antiga Bola da Suframa) e no acervo do escritor e historiador já falecido Mário Ypiranga.



“Esses foram os três locais iniciais, onde começamos. Primeiramente iniciamos o projeto de resgate da memória do Teatro tanto institucional, quanto como um todo. O local não tinha o costume de guardar a sua própria memória, de ter seus documentos históricos e atuais sobre eventos, funcionários e servidores que trabalharam aqui. Era sempre guardado em outros espaços, com outras pessoas, então começamos com essa preocupação de que o Teatro Amazonas é a ‘menina dos olhos’ de Manaus, e tem que ser referência. Todas as vezes que há pesquisas sobre ele, qual o primeiro lugar em que se procuram informações? Nele, não é mesmo? Recebíamos muitas solicitações de pesquisas e não estávamos conseguindo atender. Então, sentamos com a diretoria e propomos isso: porque não buscar esses documentos, toda essa trajetória, e trazer para ele, que é mais importante?”, explica Silvia Angelina, gerente do Acervo Histórico do espaço cultural.

O trabalho já existia desde 2014, mas se intensificou a partir de abril do ano passado com o mapeamento e um cronograma de onde estaria toda a documentação histórica. A pandemia do Covid-19 atrapalhou o mapeamento, mas não o paralisou. 

“No Apeam, por exemplo, há muita documentação histórica da década de 1800. Atualmente estamos fazendo a busca nos anos de 1900. Queremos fechar e verificar o que vamos trazer para digitalizá-los para termos, conosco, esse material. Demos uma pausa nesse trabalho, devido à pandemia, e estamos esperando as instituições nos retornarem para retornarmos nosso trabalho de busca”, disse a gerente.

Pra organizar

Um dos integrantes da pesquisa e funcionário do Acervo Histórico do Teatro Amazonas, o professor e historiador Hélio Dantas destacou que havia muita documentação guardada em caixas, mas necessariamente não havia um critério de divisão, uma lógica que permeasse tudo isso, carecendo de uma organização mais racional dentro de um padrão arquivístico.

“Agora, estamos em busca desse processo, e aí, como enxergamos várias lacunas, fomos fazer um trabalho de ver, em outros acervos, o material que tinha referente ao Teatro Amazonas. Existe todo um cuidado em salvaguardar e investir em pesquisa em cima desse acervo. Por isso, de 2019 para cá tivemos um avanço considerável nesse trabalho", salienta o mestre, sobre a árdua batalha que envolve, também, correr atrás de mobiliário e pessoal para trabalhar na minuciosa pesquisa que exige tempo, organização e paciência em preciosos documentos que não podem ser manuseados de qualquer forma.

“Digo que agora, desde 2019, nós estamos vendo um avanço considerável nos trabalhos. Estamos com uma equipe boa e focada em seguir com essa organização”, conclui o historiador.

Importância

O assistente de documentação e responsável pelo mapeamento externo do Teatro Amazonas, Allan Diego, 31, faz parte dessa equipe e ressaltou a importância da iniciativa.


Allan Diego, 31, e o documento original mais antigo do Teatro: um texto de 1896, ano da fundação, e referente a um concerto do barítono brasileiro Villaça

“Estamos tentando trazer essa documentação, essa memória, fazer esse resgate que é muito importante, além do próprio acervo iconográfico e a própria coleção fotográfica que nós estamos encontrando muito, mas é bem pertinente trazermos essa documentação da época, de governadores, das assembléias, dos debates em relação ao próprio Teatro, à construção, à aquisição de vários materiais, os engenheiros, pintura. Queremos trazer todo esse know-how, se dizendo assim, para centralizar aqui mesmo porque o acervo se encontra aqui. Queremos trazer essa memória e preencher essas lacunas que aqui existem”, contou ele, que é parintinense.

População pode ajudar

Você que tem em seu poder fotos ou qualquer documento alusivo ao Teatro Amazonas pode colaborar com o acervo do Teatro Amazonas entrando em contato com a direção do centenário local.

Primeiros anos são lacunas, diz historiador

De acordo com o historiador Hélio Dantas, as principais lacunas encontradas na pesquisa de acervo do Teatro Amazonas são referentes aos primeiros anos do suntuoso local.


O historiador Hélio Dantas e a planta do teto do Salão Nobre do Teatro: relíquia incalculável

 “A construção, os primeiros anos de funcionamento, são como se fossem uma caixa preta que ainda temos pouca documentação. A reforma da Odebrecht, na década de 1970, é muito bem documentada, com relatórios, livro da comissão que acompanhou as obras com as fotografias do trabalho da equipe. Mas por exemplo, a primeira reforma, ocorrida na década de 1920, que foi feita durante o governo de Efigênio Sales, a gente não tinha nada, absolutamente nada. Ficávamos nos perguntando onde é que está, pra onde foi? E da mesma maneira as outras duas reformas – no governo de Gilberto Mestrinho, no início dos anos 1960, e que é pouquíssimo documentada e do qual encontramos muito na imprensa pois as obras dele tinham muita visibilidade – e dos anos 1990”, disse ele.

Documentos-relíquias a serem resgatados

Uma das documentações mais curiosas relativas ao Teatro e que não se encontra no próprio, mas sim no Arquivo Público do Amazonas, é a que se trata do que mais simboliza o local: a sua famosa cúpula verde e amarela como a bandeira do Brasil. É o que explica Allan Diego. 

“O documento era uma solicitação de retirada da cúpula do Teatro. Existia um jogo político, na época, para essa cúpula ser retirada. Uma licitação foi discutida na Assembléia. Mas de uma hora para outra essa idéia foi esquecida. Foi uma discussão de âmbito político, até porque eram desavenças políticas contra o governador Eduardo Ribeiro onde (os críticos) diziam que a cúpula era uma vaidade pessoal dele de trazer essas cores. Fizemos todo esse mapeamento e esse documento ainda se encontra lá na Apeam. Ainda estamos vendo como fazer esse translado, se vai haver acondicionamento no Teatro ou não. Ou, então, uma forma de digitalizar e ter esse documento, que é bem interessante”, detalha o assistente de documentação e responsável pelo mapeamento.

Outras relíquias a serem resgatadas são significativas fotografias alusivas à própria reforma e mudanças pelo estilo do governador Efigênio Sales (exerceu o mandato de 1925 a 1929). As imagens faziam parte da coleção do escritor e historiador Mário Ypiranga e trazem uma riqueza de detalhes de como era o Teatro antes da grande restauração realizada em 1974 que tentou trazer os moldes originais à época do século 19, da construção do local. 

“Também estamos tentando fazer esse resgate para cá para o Teatro Amazonas”, destaca Allan, que é natural de Parintins (a 325 quilômetros de Manaus).


A equipe do Acervo Histórico do Teatro Amazonas: engajados no resgate histórico 

Outros documentos, estes já no acervo do Teatro, são fotografias que destacam a primeira grande restauração da obra, em 1974, quando praticamente o Teatro foi todo remoldado, instalaram centrais de ar, toda a sala de espetáculo foi removida e houve a polêmica troca das cores da fachada de rosa e branco para azul e branco, explica ele.

A equipe do Acervo encontrou um documento que só havia em original no CCPA que é o Auto de Inauguração do Teatro Amazonas, do dia 31 de dezembro de 1896. “Esse documento estava assinado pelo alto escalão da época, mas é um Auto de Inauguração oficial declarando que o Teatro foi inaugurado naquele dia, e pessoas influentes assinaram como o governador Eduardo  Ribeiro”, disse Diego.

“Esse documento é referente ao que nós temos, hoje, com as placas de inauguração, registrando quem estava presente”, ressaltou o historiador Hélio Dantas.

O documento original mais antigo do Teatro Amazonas é de 1896 e referente a um concerto do barítono brasileiro Villaça, informa Allan Diego.

Projeto

O que mais chamou atenção no material a ser resgatado para o Teatro Amazonas, segundo a gerente Silvia Angelina, nem é uma documentação original, mas a digitalização da proposta do projeto de criação do Teatro Amazonas, por parte do deputado estadual Fernander Júnior, datado de 1881, e que está no Arquivo Público do Estado.


Silvia Angelina, gerente do Acervo Histórico do Teatro, e a versão digitalizada de criação do monumento: busca pelo manuscrito

 O documento em questão seria o manuscrito, já que o Arquivo Histórico do Teatro Amazonas possui, em seu acervo, a versão digitalizada dele, mas em anais de ata da então Assembléia Legislativa Provincial do Amazonas. “Aí se passaram vários anos, várias modificações até chegar ao que o Teatro é hoje. O do primeiro contrato, de 1883, ainda estamos tentando trazer para cá”, explica ela.

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Silvia Angelina, gerente  do Acervo Histórico do Teatro Amazonas

“Essa preocupação com os documentos, com a memória, infelizmente ainda não é de todos. Quando eu cheguei aqui no Teatro Amazonas as pessoas não tinham conhecimento do que era Arquivologia, História, da importância disso tudo, do porquê um documento existe e qual a sua finalidade. Temos um trabalho de fazer os próprios funcionários conhecerem, a sociedade. Nossa preocupação é que há muita pesquisa internacional, e vêm muitos estadunidenses e europeus pesquisar sobre as coisas do Teatro. No próprio Estado não se acham pesquisas. Queremos fazer com que a própria população se interesse pela memória dela, sobre o que aconteceu e está acontecendo”.      

Repórter de A Crítica

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