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Cotidiano
‘Pílula do câncer’

Audiência Pública apura informações técnicas da Fosfoetanolamina

Audiência pública promovida pela DPE discutiu a distribuição da substância sob pesquisa a pacientes terminais 30/08/2016 às 05:00 - Atualizado em 30/08/2016 às 11:17
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Paciente oncológica, Carola Caldas relatou melhorias após o uso da pílula (Foto: Evandro Seixas)
Silane Souza Manaus (AM)

O Amazonas deve encerrar este ano com o registro de 5,2 mil novos casos de câncer, sendo mais de 3,8 mil apenas em Manaus, de acordo com estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Entre as mulheres, a incidência maior é de câncer de colo do útero (680 novos casos) e de mana (440), já entre os homens, os mais comuns são de próstata (520) e de estômago (270). 

Para todas essas pessoas que já receberam ou ainda vão receber o diagnóstico de câncer, as discussões acerca da Fosfoetanolamina, conhecida como a “pílula do câncer”, são muito relevantes, uma vez que, em meio a uma polêmica, a substância aparece como mais uma alternativa para o tratamento das neoplasias malignas. A tese foi defendida ontem por pacientes oncológicos durante audiência pública realizada pela Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM).

O problema é que, por não ter registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a substância não pode ser comercializada nem distribuída. As pessoas que fazem tratamento com a pílula e relatam melhoras  só conseguem o fornecimento do medicamento através de ação judicial e é isso o que muitos pacientes oncológicos amazonenses estão almejando. 

“Nós queremos que pelo menos aquele paciente terminal, que tem pouco tempo de vida e que não pode mais esperar, tenha acesso à substância como a última alternativa de tratamento. Isso não trará prejuízo nenhum porque ele não tem mais a quem recorrer. Essa é a última alternativa de tratamento que ele tem. Por que não se apegar a ela?”, indagou  paciente oncológica Carola Caldas.

‘Porém’

Mas a procuradora federal junto à Anvisa, Wládia Maracaba, lembrou que, como todas as substâncias que não passaram por estudos necessários para serem registrados pelo órgão, não se pode mensurar quais são os impactos que a Fosfoetanolamina pode causar aos pacientes. “Logo, a postura da agência, pelo menos por enquanto, é que tal medicamento não seja ministrado”, afirmou. 

Wládia disse ainda que, até hoje, a Anvisa não teve a oportunidade de começar os estudos que venham concluir ou não a possibilidade de comercialização da Fosfoetanolamina porque nunca houve um pedido de registro do produto. “Pela Anvisa não existe nenhum estudo clínico que ateste segurança, qualidade e eficácia desta substância química”, enfatizou.

Referência na região amazônica

Só no ano passado, a Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon) teve mais de 4 mil novos casos de câncer registrados, o que não significa que foram todos da região, já que o hospital é referência em toda a Amazônia Ocidental e recebe pacientes de Estados e países vizinhos.

Uso só  em pacientes ‘terminais’

De acordo com o titular da Defensoria Especializada de Atendimento de Interesses Coletivos (DPAIC), Carlos Alberto Almeida Filho, o objetivo da audiência pública realizada ontem foi trazer para o Amazonas a discussão sobre o uso da “pílula do câncer” e identificar a viabilidade do seu fornecimento aos pacientes acometidos com câncer no Estado. 

“Segundo o CRM, não havendo esperança e o tratamento convencional não funcionando, a única consequência é a morte e o tratamento pela substância, ainda que não aprovada pela Anvisa, apresenta uma expectativa de vida. Por conta disso, é muito provável que encaminhemos para judicialização, a fim de que o fornecimento do medicamento seja feito para aquele paciente que se encontra em estágio terminal”, disse. 

Personagem

Carola Caldas -  paciente oncológica

"A partir do primeiro dia que eu comecei a utilizar a Fosfoetanolamina, em janeiro deste ano, já senti melhora. No terceiro dia, os resultados foram muito positivos e só fui melhorando a cada dia que passava. Eu cheguei a fazer tratamento convencional, mas devido a problemas no fígado, tive que parar o tratamento e fiquei apenas tomando remédio para amenizar as dores. Passei três meses sem fazer tratamento algum até conhecer a pílula do câncer. Consegui o medicamento através de uma ação judicial que dei entrada em São Paulo. Hoje, voltei a fazer todas as minhas atividades diárias, coisa que não fazia quando estava fazendo o tratamento convencional ou quando deixei de fazê-lo. Minha disposição física voltou e me sinto muito bem, muito bem mesmo”.

Blog

José Bernardes Sobrinho - presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-AM)

"Não temos conhecimento nenhum dos benefícios e efeitos colaterais da Fosfoetanolamina, pois é um medicamento novo, que está em estudo. Existem alguns depoimentos de pacientes que passaram a tomar a substância e melhoraram, mas isso carece de estudo mais profundo e uma pesquisa clínica para que se possa comercializar ou não. Agora, são dois tipos de pacientes: aquele que está fazendo tratamento convencional contra o câncer e pode aguardar e aquele terminal, que não tem mais nenhum recurso de tratamento. Então, nesse último caso, acredito que é válido tentar, ou seja, utilizar a ‘pílula do câncer’, porque para quem está nessa situação, cujo fim está próximo, qualquer tentativa é importante, especialmente quando pode melhorar a qualidade de vida”.

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