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Trabalho de pesquisador amazonense revela que malária pode causar problemas cardíacos

Em tese de doutorado, o cardiologista amazonense Aristóteles Comte Filho mostra que Plasmodium vivax pode ser perigoso para órgão, dado até então inédito para a medicina 29/10/2014 às 13:31
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Aristóteles Alencar durante a apresentação do trabalho sobre malária em congresso na Espanha. Interesse pelo tema da tese de doutorado dele é justificado pelo número de pacientes
Ana Celia Ossame Manaus (AM)

Uma contribuição inédita mostrando alterações cardiovasculares em pacientes com malária vivax, considerada benigna pela maioria dos médicos, foi o tema da tese de doutorado defendida pelo cardiologista da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Aristóteles Comte Alencar Filho, e apresentada em um congresso europeu de cardiologia.

De acordo com o médico, a constatação obriga o médico que trata um paciente com malária Plasmodium vivax a ter mais cuidado com a hidratação para não sobrecarregar o coração. “Como esse tipo de malária é erroneamente considerada benigna, isso acaba induzindo um comportamento mais displicente do profissional”, alerta. A pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O envolvimento do sistema cardiovascular em pacientes com esse tipo de malária por Plasmodium vivax tem sido pouco estudado no País, apesar de só em Manaus haver o registro de mais de 7,1 mil casos anuais, conforme dados notificados pelo município em 2013. Segundo ele, existem rotinas de hidratação com soro utilizadas em pacientes internados com malária, no período em que ele sua bastante, que pode causar complicação cardíaca porque o vaso não está funcionando bem, principalmente em nível pulmonar. “Isso ocorre por conta de uma redução do vaso, dificultando o coração de jogar o sangue e obriga o médico a ter cuidado com a hidratação dos pacientes para não sobrecarregar o coração”, adverte.

Aristóteles diz ser mais comum pacientes com o Plasmodium falciparum apresentarem maiores complicações, mas o mesmo pode acontecer a pacientes contaminados pelo P. vivax, tanto que podem ocorrer casos graves e mesmo fatais. O paciente que tem o Plasmodium vivax, devido à fase hepática da doença, pode fazer um ciclo de malárias repetidas que eclode em vários episódios e que, por isso, afeta capacidade de trabalho devido às repetências, afirma ele, chamando a atenção para o aspecto cardiovascular que pode surgir em alguns pacientes.

A tese, orientada pelo médico Marcus Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical Heitor Dourado, despertou a atenção de médicos especialistas do exterior por trazer esse aspecto novo em relação à malária. Após apresentar o trabalho no último Congresso Europeu de Cardiologia em Barcelona, na Espanha, e em São Paulo, Aristóteles observa que o objetivo principal é incentivar uma maior interação entre os médicos infectologistas e os cardiologistas. “De modo geral, não existe uma interação que permita o acompanhamento simultâneo do paciente, o que muitas vezes é necessário, porque, eventualmente, pode alterar o desfecho da doença”, disse ele, alertando para a necessidade de modificação da abordagem clínica dos pacientes portadores de malária, sejam falciparum ou vivax. “Trata-se de um novo modo de encarar uma doença ancestral que continua como um importante problema de saúde pública, sem perspectivas reais de erradicação”, finaliza.

Alterações são reversíveis

De acordo com Aristóteles Alencar, a maioria das pesquisas sobre malária tem focado no Plasmodium falciparum, devido ao maior índice de mortalidade em comparação à vivax. Entretanto, a grande morbidade e o elevado custo financeiro decorrentes da malária por vivax impõem a necessidade de maior entendimento sobre a doença e a busca por estratégias terapêuticas.

A letalidade de pacientes com malária é considerada baixa, mas quando acontece, em sua maioria, decorre de comprometimento do sistema nervoso central, anemia e insuficiência renal. Em relação ao acometimento cardiovascular durante a fase aguda da doença, há poucas informações na literatura a respeito de sua fisiopatologia e quadro clínico e laboratorial, explica ele, reafirmando a necessidade de se ter uma abordagem integrada para o controle de doenças infecciosas como Aids e malária em combinação com doenças crônicas, como doenças cardiovasculares, diabete melito e câncer. Na conclusão, o médico aponta que pacientes com forma não grave da malária por Plasmodium vivax apresentam alterações cardíacas e endoteliais reversíveis após o tratamento.

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