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Transexuais também comemoram o Dia Internacional da Mulher

Ao se identificarem psicologicamente e socialmente como mulheres, elas se sentem prontas e com direitos para comemorar este dia 08/03/2015 às 17:19
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Diana Brasilis, 22, luta para ter a identificação social reconhecida na Ufam, onde cursa o 7º período de Filosofia. Há um ano ela assumiu a transexualidade e hoje se sente no direito de comemorar o Dia da Mulher
LÍVIA ANSELMO Manaus (AM)

Elas têm todas as características físicas do sexo constante da sua certidão de nascimento, porém se sentem como pertencentes ao sexo oposto. Essa é a definição “técnica” dada aos transexuais em uma busca rápida na internet. Mas para quem, diariamente, enfrenta a vida com a delicadeza, os trejeitos e a identificação psicológica e social de uma mulher, sabe que não se trata apenas de não aceitar a genitália que o acompanha, mas de algo que ultrapassa as definições.

São “mulheres” que não querem tomar o espaço das “mulheres que nasceram com o órgão”, como elas mesmas definem. Elas querem estar ao lado, dividir as lutas pelos direitos, ter deveres, comemorar as vitórias, lamentar as derrotas e, antes de tudo, serem respeitadas com a identidade que lutaram para aceitar e assumir em uma sociedade ainda presa a preconceitos.

Por se identificarem e se inserirem como tal, elas sentem que também podem e devem comemorar o 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Sem medo dos julgamentos, a universitária Diana Brasilis, 22, está à vontade para se reafirmar como mulher no dia em que todas as atenções se voltam às causas femininas. Essa é a primeira vez que a data ganha destaque na vida da jovem. “Eu assumi minha identidade transexual há cerca de um ano. Foi um processo difícil, até eu me convencer de que não tinha uma doença. Quem tem doença são os que vivem no preconceito. Mas hoje é importante me inserir nesse dia. Eu também faço parte dele”, diz.

Aluna do curso de Filosofia da Ufam, Diana se engaja, principalmente, na luta das mulheres “trans”. Para ela, o reconhecimento delas é uma forma de minimizar as transfobia. “É muito comum eu chegar em um local e, por causa das minhas características físicas, não ser tratada como uma mulher, mas como uma pessoa que não merece respeito”.

Vaidade

Mesmo com todas as dificuldades, ela não perde a vaidade de sair de casa sempre vestida com as roupas femininas que gosta, unhas compridas, sobrancelha e maquiagem bem feitas. Ela passa por um tratamento hormonal para atingir a forma e o corpo que, para ela, deveria ter sido seu desde o início. Isso não a diminui e nem gera dúvidas sobre sua posição. “Eu quero fazer mudanças porque só assim as pessoas não vão me olhar e questionar quem eu sou. Mas sei que não preciso de alguém para me definir. É mais uma vaidade”, ressalta.

Enquanto mulher e jovem, Diana deseja que as conquistas femininas superem a data comemorativa. “As mulheres em geral já conquistaram tantas coisas e conquistar a igualdade de gênero e deixar de rotular, definir pessoas, é um avanço”.

Mudanças

Andressa Torres, 25, também é uma das transexuais que assumiram sua condição e se desafiam como mulher. Hoje, após cinco anos de mudanças físicas, ela diz se sentir como sempre quis.

Apesar de ainda se ver como vítima do machismo e preconceito, Andressa se sente madura como mulher e pronta para novos desafios. “Quando ainda tinha presença masculina as pessoas me desrespeitavam mais. Hoje, que já fiz quase todas as mudanças e ninguém percebe que nasci com o sexo masculino, é mais raro. Também não ligo”, lembra.

Para ela, o Dia da Mulher é apenas uma data para reflexão sobre as conquistas e o que ainda preciso ser feito pelas mulheres. “A mulher ganhou muito espaço, muitas vezes está exercendo papéis em que se sai melhor que eles (homens) e isso tem que continuar”.

Para 2015, uma das metas de Andressa é voltar a fazer faculdade. Quando decidiu fazer tratamento e mudanças no corpo, ela cursava odontologia na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Segundo ela, essa é a realidade de muitas transexuais que desejam buscar mudanças para serem aceitas. “Voltei a estudar e quero mudar de área. Vou apostar na medicina, porque hoje já estou madura e sei o que quero”, ressalta.

Blog: Luís Cláudio Chaves, Juiz de Direito

Para o juiz da 4ª Vara de Família do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), Luís Cláudio Chaves, que em 2012 decidiu pela alteração do registro civil de uma transexual, a justiça deve pensar primeiramente na dignidade humana. “Se existe um laudo médico que ateste que essa pessoa realmente se identifica como homem ou mulher, quem sou eu para condenar essa pessoa a viver na humilhação e infeliz?”. Segundo ele, poucos juízes ainda decidem pela permissão por se basearem em princípios que contrariam os “bons costumes”. “Eu cumpri a lei, que garante o direito à dignidade e a felicidade de todo brasileiro. Está na Constituição”, afirma Luís. Na época, a decisão do juiz de autorizar a mudança do registro foi divulgada como a primeira do Estado.

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