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Transtorno mental e dores no corpo são as principais causas dos afastamentos de policiais civis

Conforme a pesquisa, os delegados  foram os que mais apresentaram problemas de saúde. No período da pesquisa 176 foram afastados para tratamento médico e as delegadas são a maioria 16/08/2015 às 20:05
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Delegado Paulo Sampaio usou como fonte de pesquisa todos os atestados de licença médica da junta médica pericial da SSP, em 2012.
Joana Queiroz Manaus (AM)

Uma pesquisa realizada pelo delegado da Polícia Civil Paulo Sampaio apontou que o maior percentual de afastamento por licença médica de servidores da PC no Estado está relacionado a doenças de transtornos mentais, seguido de doenças de músculos esqueléticos (doenças relacionadas a dores no corpo), e por último, pelas doenças do aparelho cardíaco.  As mulheres representaram 100% como portadoras dessas doenças.

Os dados estão descritos na tese de mestrado em Segurança Pública, Direitos Humanos e Cidadania da UEA apresentada em 2012. Sampaio disse que pelas suas verificações,  a pesquisa, na época, apareceu como a pioneira no assunto no Amazonas e provavelmente no Brasil. “Só há uma semelhante, mas  com policiais militares, no Rio de Janeiro, e em Santa Catarina com policiais federais.  Sampaio titulou a sua tese de “Policial Bom é Policial Vivo”

Sampaio explicou que a pesquisa teve como objetivo conhecer as principais causas de adoecimentos que acarretam os policiais civis do Amazonas. Ela foi realizada em cima  de dados  de 2012 e ele usou como fonte de pesquisa todos os atestados de licença médica  oriundos da junta médica pericial da Secretaria de Segurança Pública (setor  por onde o policial passa para obter a licença médica).

“Eu tive que calcular a taxa dos policiais afastados  por motivos de doenças, identificar os principais tipos de doenças, segundo  causas e grupos de acordo com a classificação  internacional de doenças,   relacionar esses afastamentos com idade, sexo e o cargo que ocupavam assim como o nível de escolaridade de cada um”, revelou Sampaio.  O delegado trabalhou com grupos de delegados, escrivães, investigadores, peritos criminais e legistas.

A população pesquisada foram investigadores, delegados, escrivães e  peritos  ativos e os que foram  afastados por licença pra o tratamento de saúde no período de janeiro a dezembro de 2012. De acordo com Sampaio, na época existiam na polícia 2.672 funcionários, desses  542 foram  pesquisados. A pesquisa mostrou que aproximadamente 20%  do quadro de funcionários ficaram afastados por atestado médico.

Conforme a pesquisa   os delegados  foram os que mais apresentaram  problemas de saúde. No período da pesquisa 176 foram afastados para tratamento médico e as delegadas são a maioria.  “Há  hipótese,   que precisa ser estudada,  que deve-se a jornada dupla de trabalho que elas tem. Além  de ser policial, a delegada  chega em casa e enfrenta mais uma jornada. Na relatividade da taxa, elas são as que mais adoecem” revelou o delegado.

Os servidores com mais de 15 anos, na questão de doenças psiquiátricas, registraram maior taxa de incidência, depois os delegados (as) alcançaram taxas mais elevados estatisticamente quando comparados com os investigadores. A depressão aparece na pesquisa como a principal doença, com 30,8 % de casos,   seguido pelo estresse pós-traumático, transtorno do pânico e transtorno bipolar.

No grupo de doenças músculo e esqueléticas as mulheres apresentaram índices maiores que os homens e os delegados (as) foram que mais apresentaram esse tipo de situação, sendo l a lombalgia a principal, com 40% dos causos.  Já as doenças cardiovasculares  aparecem quanto maior a idade e o tempo de serviço. “

Para o delegado Paulo Sampaio,  a dependência química é um problema sério na classe policial, porque a maioria dos que são dependentes não declara ser, embora  os sintomas sejam visíveis  e também muitas vezes  fica claro nas conversas com as famílias. Isso ocorre, segundo Sampaio, primeiro que ele tem medo que a instituição o  discrimine e  ele venha ser expulso, mas  alguns estão perdendo o medo.

De acordo com a assessoria de imprensa do Centro de Reabilitação em Dependência Química Ismael Abdel Aziz, na estrada AM-010, não há registro de nenhum policial civil ou  militar que tenha procurado tratamento no local.

‘É um trabalho lento, mas dá resultado’

Para o delegado Paulo Sampaio, depois das informações  obtidas pela pesquisa, foram criados mecanismos  que apresentam mudanças no quadro da qualidade de vida dos  policiais. É um trabalho lento, mas que dá resultado.

 “Quando concluí a pesquisa, a minha  primeira preocupação foi constituir um corpo técnico formado por profissionais  de saúde formado por enfermeira, auxiliar de enfermagem,  psicólogo e assistente social”, destacou.

Atualmente, ele é o diretor do Departamento de Controle e Avaliação (DCA) da Polícia Civil, hoje, quando  chega uma  licença médica   com mais de 30 dias, o servidor passa  ser acompanhado  sistematicamente pela equipe de profissionais de saúde.  A média atual de servidores que adoecem por mês é de  90 a 102  policiais.

Antes de 2012 era mais de 250 por mês “Isso me assustou  e me motivou a fazer  a pesquisa. Dos  doentes que eu identifiquei,  muitos foram recuperados e voltaram a trabalhar. Conseguimos encaminhar três policiais dependentes químicos  para tratamento na Escola Fazenda e ficaram um ano em tratamento.  Dos três, dois concluíram”, disse Sampaio.

De acordo com o delegado, o pior para ele foi quando fazia o mapeamento da pesquisa e descobriu colegas que estavam com câncer,  outros com transtorno de pânico, mas  que estavam isolados dentro de casa e a família sem saber o que fazer, sem apoio institucional para eles.

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