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Tratamento insano: a dura rotina de pacientes portadores de transtornos mentais no AM

Com a lei da reforma psiquiátrica, aprovada em 2001, o Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro já deveria ter sido desativado. Entre um prazo e outro, a unidade continua funcionando em condições estruturais precárias 15/12/2015 às 09:20
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Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro não foi desativado e segue recebendo pacientes em condições precárias
Luana Carvalho Manaus (AM)

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Aldeci Maria de Carvalho, de 51 anos, veio para Manaus ao saber que o filho dela, de 23 anos, havia tentado suicídio pela segunda vez. Na manhã da última quinta-feira, ela chegou ao Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, para onde o jovem foi encaminhado, e a primeira impressão foi assustadora. “Estou estranhando e não sei se devo deixar meu filho aqui. Confesso que estou com muito mais medo agora”, desabafa. 

O prédio centenário, na avenida Constantino Nery, Zona Centro-Sul, funcionou como manicômio durante 120 anos, onde 60 mil pessoas circulavam por mês. Com a lei da reforma psiquiátrica, aprovada em 2001, o local já deveria ter sido desativado. As condições estruturais estão precárias. O prédio é escuro, os forros estão caindo aos pedaços, falta manutenção nos equipamentos do hospital e os bancos da recepção estão todos quebrados. 

“Moro no Iranduba, mas vim para Manaus porque o meu filho tentou se matar novamente. Ele foi levado para o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) da Zona Norte e o encaminharam para cá por causa da crise. É difícil, ainda mais vendo essa estrutura, mas é o jeito. Agora é esperar coisas boas daqui para frente”, completa Aldeci, olhando para baixo, como se tivesse se sentindo ameaçada. 

O portão lateral do hospital estava aberto. A equipe de reportagem entrou no prédio e alguns funcionários ficaram aliviados com a nossa chegada. A cozinha inóspita dá acesso à lavanderia, onde a servidora Valda de Oliveira trabalha, de forma precária.  “Me sinto humilhada. Aqui nem a máquina de lavar funciona. A gente tem que ficar ‘cutucando’ para ela pegar. Precisamos espremer a roupa à mão e estender, para poder secar”, conta. 

Precariedade

 O refeitório dos funcionários quase não é frequentado.  Os forros estão caindo de tantas folhas e sujeira. “O pior é que aparecem muitos ratos, a qualquer hora do dia. É horrível”, relatou outra funcionária, que preferiu não ter o nome divulgado, pois é contratada por uma empresa terceirizada.

Na enfermaria, o paciente Ailzo dos Santos Pereira reclamava da falta de iluminação na “pracinha”. “Estou aqui porque eu sofro de ansiedade. Não consigo dormir à noite e a nossa pracinha, que é um local para circularmos, não está iluminada”. 

A diretora do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro,  Andrea Barker Costa, diz que não está muito otimista em relação às melhorias na unidade, no entanto, afirma que a mudança “já esteve mais longe”.

Sem prazo para desativação

“Só este ano nós tivemos três previsões de desativação do hospital e, de tanto ouvir, é até um descrédito. A gente embarga em várias coisas, inclusive na crise. Mas existe a lei da reforma psiquiátrica que denota que não deve haver o manicômio, nessa estrutura que existe hoje”, explicou Andrea Barker Costa, diretora do hospital.

Segundo ela, ainda é muito expressivo o número de pacientes com transtornos mentais que dependem da unidade. Só este ano, 15 mil receitas foram emitidas no hospital Eduardo Ribeiro. “Muitas coisas das atividades de antigamente foram desativadas, como a retirada das grades que separam os pacientes dos servidores. Hoje a unidade funciona para internações prévias. Quando o paciente está em crise, ele é trazido para ser medicado. Porém, o tratamento é feito fora daqui”. 

A rotatividade é grande e, segundo Barker, há dias em que os 28 leitos estão lotados. “Temos uma demanda regional e atendemos pacientes do interior. Se pudéssemos escolher, claro que optaríamos por uma mega reforma, uma unidade completamente reformulada, com outro olhar. Mas este prédio tem mais de cem anos. O telhado, a fiação, está tudo comprometido. É difícil até colocar internet aqui”.

‘Legislações são descumpridas’

O médico psiquiatra Rogélio Casado, membro da Associação Chico Inácio, filiada à rede Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial,  afirma que, além da Lei da Reforma Psiquiátrica nacional,  a Lei Estadual de Saúde Mental, sancionada em 2007, também vem sendo ignorada. “Nós temos uma lei estadual e quase ninguém sabe disso, pois há uma falta de articulação e de vontade política imensa”. 

De acordo com Casado, hoje o principal responsável pelo serviço de saúde mental é o município. “Em  2004 foi assinado o acordo de municipalização do serviço. Porém, passaram-se mais de dez anos e nós temos apenas três Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para uma cidade com dois milhões de habitantes e cinco policlínicas fazendo esse atendimento”. 

Os CAPS são as unidades que oferecem serviços específicos para os pacientes psiquiátricos, realizam o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários. “O que dá sustentação aos serviços de fato são os CAPS’s, mas a cidade padece com a falta destes centros. Esse serviço faz toda a diferença na vida do paciente, pois as atividades são voltadas para as necessidades dele”. 

Em Manaus, nenhum hospital geral possui enfermarias psiquiátricas, por isso, os atendimentos continuam acontecendo no Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas (Susam), a legislação determina que a desativação aconteça mediante a criação de serviços substitutivos.

O serviço de Urgência e Emergência Psiquiátrica, ainda segundo a pasta, será transferido para o Pronto Socorro Platão Araújo, com 29 leitos.  No entanto, a pasta não informou a previsão. 

Saiba mais

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), existem três CAPS sob administração municipal, sendo dois na Zona Sul e um na Zona Leste. Na Zona Norte, existe outro CAPS, criado pelo Governo do Estado.  A secretaria foi questionada sobre a construção de novos Centros de Atenção Psicossocial em Manaus, mas não respondeu o questionamento.

Em números 

38.671 é o número de pessoas com doenças mentais no Estado, segundo o último Censo (2010). Em Manaus, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 19.530 pessoas possuem algum tipo de doença intelectual ou mental. A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada 10 pessoas no mundo sofre de algum distúrbio mental. 

 

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