Terça-feira, 22 de Junho de 2021
Raio x dos latrocínios em Manaus

Um segundo entre a vida e a morte: um panorama dos casos de latrocínios em Manaus

Especialistas reafirmam que as vítimas de assaltos não devem reagir ao crime, pois isso pode levar ao descontrole do assaltante e causar o agravamento da situação



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01/05/2021 às 10:05

Em um instante, uma reação agressiva pode definir vida ou morte. O A CRÍTICA conversou com especialistas para entender o que acontece na mente humana durante um assalto, além de traçar um panorama da incidência de latrocínios (roubos seguidos de morte) ocorridos na cidade, nos últimos anos.

Considerado crime hediondo, o latrocínio tem pena prevista de reclusão de 20 a 30 anos. O subconsciente influencia reações que ocorrem em resposta a ameaças à vida, de acordo com a psicóloga Nazaré Mussa. “Tudo acontece muito rápido no nosso cérebro e só vamos nos dar conta depois que tudo já aconteceu. Diante de um perigo iminente, você não para e imagina como vai agir, tudo é muito rápido e instintivo. O instinto de sobrevivência é que vai sobressair-se”, disse.

Segundo Mussa, no momento de confrontação de uma ameaça, o cérebro humano libera substâncias que geram o comando de enfreamento ou fuga. Um desses componentes químicos é a noradrenalina, neurotransmissor que desempenha papel importante no momento de perigo, agindo como um alerta entre lutar ou fugir. “Ela age como motivador, preparando nosso corpo à ação, que, até o momento de sua realização, é desconhecida pela pessoa”, afirmou a psicóloga.

Mesmo diante desses fatores, comportamentos podem ser aprendidos e é necessário ter em mente que cada caso é único e não generalizável, ainda segundo a profissional. “Todos nós conhecemos exemplos nos quais, depois do ocorrido, a pessoa fala: ‘eu não sei como consegui fazer tal coisa’. É claro que o ideal diante de um assalto é manter-se calmo e não reagir”, disse.

De acordo com o delegado Denis Pinho, titular da Delegacia Especializada em Roubos, Furtos e Defraudações (Derfd), no momento em que vítimas de latrocínio se deparam com o crime, há uma perda da capacidade de reação, o que aumenta a necessidade de que não haja reação. “O indicado é que não haja reação, de qualquer forma, por parte das vítimas. No momento do crime, o efeito surpresa está com o criminoso. O correto é manter a calma, não fazer movimentos bruscos, que possam ser interpretados como reação, e deixar que os objetos sejam levados”.

As vítimas devem contatar a polícia por meio do número 190 e ir à delegacia mais próxima de casa.

Números em Manaus

De acordo com consulta feita ao site da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), dez pessoas foram vítimas de latrocínio entre janeiro e março deste ano, em Manaus. Em 2020, o órgão registrou 33 casos. Em 2019, 39 pessoas morreram vítimas do crime.     

O número de latrocínios é muito menor do que o de homicídios. Manaus foi cenário de 657 casos de homicídio em 2020, 840 em 2019, e 209 entre janeiro e março deste ano. A discrepância entre os casos de latrocínios e roubos é ainda maior. Em 2020: 34.458, em 2019: 42.102. Entre janeiro e março deste ano, a SSP-AM registrou 7.655 ocorrências de roubo. 

Essa diferença entre os latrocínios e os demais crimes se dá pela diferença da causa de cada um deles, conforme o delegado Pinho. Os casos de homicídio, por exemplo, têm outras motivações, como o confronto entre organizações criminosas, tráfico de drogas, brigas decorrentes de bebida alcoólica, dentre outros, o que gera maior número de ocorrências. “É complicado comparar o crime de homicídio com o de latrocínio, que está atrelado ao crime contra o patrimônio, sendo outro tipo de delito”, disse.

Modo de ação criminoso

O “modus operandi” dos criminosos que efetuam latrocínios é o mesmo dos que praticam roubos, conforme o delegado titular da Derfd. Os infratores buscam vítimas fáceis e objetos de valor. “Está havendo grande incidência de roubos de celulares e efetuados ao transporte público”, afirmou.

Ainda conforme a autoridade policial, a forma de se combater os latrocínios deve se dá por meio de ação incisiva contra quadrilhas que atuam em assaltos. Segundo Pinho, o latrocínio é uma consequência do roubo. “O indivíduo quando pratica o crime de roubo, portando arma branca ou de fogo, quer se apoderar do objeto de valor da vítima. Se ele perceber alguma hostilidade, atentará contra a vida da vítima. Esse é um crime que depende de várias circunstâncias”, disse.

Crime hediondo

Considerado uma forma qualificada do roubo, o latrocínio está inscrito na parte especial do Código Penal brasileiro, na classificação de crimes contra o patrimônio, segundo o defensor público Messi Elmer Castro. “É um crime da mais alta gravidade para o ordenamento jurídico brasileiro, que necessariamente implica que o agente condenado tenha um início de cumprimento de pena em regime fechado”, afirmou.

Além da pena prevista de reclusão de 20 a 30 anos, os condenados pelo crime também devem pagar multa.  Caso a infração não resulte em homicídio, mas lesão corporal grave, a pena será de 7 a 18 anos e a classificação do crime será de roubo qualificado com lesão corporal grave. “O latrocínio, para assim ser classificado, é um caso em que o agente, para subtrair alguma coisa do patrimônio de outra pessoa, vale-se de violência que resulta em morte da vítima”, afirmou Castro.

Casos recentes

O corpo de Helder Luís Menexes Bresson, 49, foi velado na funerária Leão de Judá, localizada na Zona Norte de Manaus, em abril deste ano. O homem foi atingido com um tiro durante assalto realizado a ônibus da linha 640, na avenida Max Teixeira, situada no bairro Cidade Nova, também na Zona Norte da capital.

À época, a equipe de reportagem conversou com Márcia Cristina Machado, 49, companheira de Helder, que estava em um relacionamento com o homem há cinco meses após reencontrá-lo depois de um intervalo de 35 anos. Ambos se conheceram no ensino fundamental, quando estudavam no Rio de Janeiro (RJ).

José Geraldo Rabelo, 60, morreu esfaqueado após reagir a um assalto ocorrido enquanto ele caminhava na avenida das Torres, situada no bairro Nova Cidade, na Zona Norte de Manaus, em março de 2021.  De acordo com Boletim de Ocorrência (BO) registrado no 15º Distrito Integrado de Polícia (DIP), José foi abordado por um homem desconhecido, que, em posse de uma faca, pediu o celular dele. O idoso se recusou a entregá-lo e foi esfaqueado.

Conforme a delegada Deborah Souza, titular do 15º DIP, as investigações em torno do caso estão em andamento e mais informações não podem ser repassadas à imprensa para não atrapalhar as investigações policiais.




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