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Cotidiano
União

Umberto e Ritta Calderaro: uma parceria perfeita na família e nos negócios

Ritta de Araújo Calderaro desdobrou-se no trabalho como professora e no apoio ao marido, Umberto, na gestão do jornal A Crítica e da Rede Calderaro de Comunicação (RCC) 26/06/2016 às 21:04 - Atualizado em 27/06/2016 às 16:21
acritica.com Manaus (AM)

A parceria formada por Umberto e Ritta Calderaro forjou uma química perfeita na família e na empresa e só a morte dele foi capaz de desfazer. Os dois se conheceram numa viagem ao Rio de Janeiro no navio Almirante Alexandrino, do Lloyd Brasileiro e que durava 30 dias contados para terminar, tempo suficiente para que o insistente Umberto conquistasse a esposa.

Trabalhando como professora e assistente social, Ritta ia fazer um tratamento de saúde na então capital federal e ele, participar de um período de experiência no jornal O Globo, do amigo Roberto Marinho.

Aproveitando a amizade com os primos de Ritta, que viajou acompanhada deles e do tio Rui Araújo, Umberto passou a viagem toda cortejando a jovem, que segundo depoimento dela para o livro “A Crítica de Umberto Calderaro Filho” chegou a ficar bastante chateada com a paquera.

Calderaro passou a opinar sobre quais locais do navio e quais horários ela e a prima Eneida deviam frequentar ao longo da viagem. “Eu falava para a Eneida: Só me faltava essa. Esse pintado querendo mandar em mim”, revelou no livro, já demonstrando a personalidade forte e independente que imprimiu ao assumir o comando da Rede Calderaro de Comunicação, em 1995.

Quando chegaram ao Rio de Janeiro, Umberto ia todos os dias na casa de Rui Araújo com o pretexto de conversar sobre  política amazonense, uma vez que ele fora deputado estadual e hoje dá nome ao plenário da Assembleia Legislativa. Nessas visitas, esperava por um minuto da atenção de Ritta, que não resistiu à paquera, mas mantinha a distância regulamentar como a tradição da época mandava .

 Oito meses se passaram e já em Manaus o namoro corria solto. “Onde Ritta estava, lá aparecia o Calderaro. Às festas ou reuniões nos institutos e escolas do pai dela - o desembargador André Araújo - o repórter nunca faltava”, escreveu Júlio Antônio Lopes, biógrafo de Umberto.

O lance final da corte aconteceu quando o futuro sogro foi assumir uma vaga de deputado federal no Rio de Janeiro e para lá se mudaria com a família. Sob o pretexto de dar algumas explicações, ele finalmente fez o pedido de casamento, prontamente aceito.

O casamento aconteceu no dia 21 de junho de 1951 em um cartório do Rio de Janeiro e após um mês de lua de mel, o jovem casal voltou a Manaus para tocar o primeiro filho deles: o jornal A CRÍTICA.

Atuação multitarefa

A construção e fortalecimento do jornal A Crítica passa pelo faro jornalístico e empresarial de Umberto Calderaro Filho, mas com uma alta dose de colaboração de Ritta, que foi conselheira do marido e alguém que pegou no pesado para fazer da empresa uma das maiores do Norte. Nos primórdios de A Crítica, Ritta Calderaro, falecida no sábado aos 88  anos, foi revisora, colunista social - assinando com pseudônimo - e muitas vezes, motorista da reportagem.

 “Fiz de tudo. Até dirigir o jipe do jornal, levando os repórteres para cobrir incêndio eu fiz”, contou certa vez Ritta. Os primeiros anúncios ilustrados da imprensa do Amazonas também tiveram a marca da empresária. “Eu desenhava a titulagem, porque nós não tínhamos dinheiro. Virava dia e noite desenhando para o jornal”, contou a empresária por ocasião dos 54 anos do jornal, em 2003.

O sucesso do jornal e a transformação em rede, com a compra da TV Baré, nos anos 80, e a rádio A Crítica, eram  motivos de muita satisfação para o casal.  “A gente sente o orgulho, boa vontade de colaborar e prestar serviço entre os nossos funcionários e isso só podemos pagar com muita gratidão”, costumava dizer.

Segredo do sucesso

Desde os primórdios da empresa, o trabalho conjunto de todos os membros da família foi a base sobre a qual a RCC cresceu. E a receita continua a mesma. A união da família, capitaneada pelo casal Umberto e Ritta, é um dos segredos do sucesso do grupo empresarial fundado por ambos e que se transformou na Rede Calderaro de Comunicação (RCC).

Nos primórdios do jornal, Umberto Calderaro Filho contava com a ajuda do pai dele, Umberto, para fazer a máquina funcionar, da mãe, Maria, para fiscalizar os gráficos e fazer o café da manhã deles, e Ritta para fazer todo o resto. Mas manter todos juntos foi trabalho duro. “Dona Maria era jogo duro, todos os dias de manhã ela ia na gráfica conferir o resto das bobinas de papel e não podia faltar uma senão ela denunciava para Umberto”, conta o chefe da diagramação do jornal, Antonio Mendes, que neste ano completa 45 anos de trabalho na casa.

Em entrevista concedida para o livro A Crítica de Umberto Calderaro Filho, Ritta lembra a personalidade forte da sogra. “Dona Maria era difícil. Queria mandar em tudo. Tempos depois nos acertamos e ela ficou próxima de mim, pedindo minha opinião para as mínimas coisas, pessoas e do jornal”, contou.

O sogro era o queridinho da empresária. “O Umberto (pai) era um homem muito bom, me tratava como uma filha. Fazia todas as minhas vontades. Era habilidoso e dedicado. As máquinas do jornal, tudo, era ele quem punha para funcionar. Quando foi diagnosticado (com câncer), o Umberto (filho) não tinha dinheiro para levá-lo para o Rio de Janeiro. Eu tinha uma poupança e retirei todinha para  que ele tivesse toda a assistência”, lembrou.

A filha do casal, Cristina, era o xodó e desde muito cedo frequentava o jornal. “Ela foi criada praticamente dentro do jornal, pequenina, diariamente eu levava ela para o jornal. Com um ano de idade ela ia, até antes, toda tarde. O passeio da Cristina, de todos os dias, era ir ao jornal. Ela fazia bagunças, mexia com todos lá dentro, agitava a redação. Ia para o braço de todo mundo lá dentro”.

Os três netos mais velhos de Umberto e Ritta seguem a tradição da empresa familiar e trabalham na diretoria da Rede Calderaro de Comunicação. A adolescente Cris também se prepara para atuar na empresa fundada pelos avós.

João Bosco Araújo

Professor e irmão de Ritta Calderaro, João Bosco Araújo: “Ritta foi uma lutadora. Iniciou exatamente pelo magistério no Instituto de Educação, ainda muito nova. Foi professora de desenho geométrico e desenho artístico até se aposentar como professora. Exerceu também atividade de assistente social na Legião Brasileira de Assistência (LBA). Quando ela casou com Umberto Calderaro, mergulhou fundo na luta do jornal, que começou muito pequeno, muito pobre. E ela era aquilo que a gente chama hoje de designer, desenhava os títulos, as colunas, fazia as charges. Enquanto ela pôde andar, conversar, decidir, ela esteve lá. Só se afastou quando lhe faltou a saúde de uma maneira absoluta”

Bernardo Cabral

Ex-senador e fundador do Sindicato dos jornalistas, Bernardo Cabral: “Fui um dos primeiros a colaborar com Umberto e Ritta no jornal A Crítica, como colaboro até hoje. Eu defino a dona Ritta como uma heroína, uma grande companheira. Eu lamento muito que nós tenhamos perdas do tipo da dona Ritta e do Umberto, porque estreita cada vez mais nosso horizonte. Lá atrás nós éramos jovens, não sabíamos que isso chegaria um dia: assistir a partida de um amigo nosso. Mas o legado fica. E ela foi sobretudo uma defensora da liberdade de expressão. Era uma mulher que sabia que a democracia se faz com muita dificuldade,  mas que é feita pelas pessoas que sabem respeitar a opinião dos outros, e foi o que a dona Ritta sempre fez. É uma mulher que vai ficar registrada na história do Amazonas”.

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