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Cotidiano
Foco, fé e força

Universitários do interior do Amazonas passam horas na estrada para chegar à aula

Nessa árdua rotina, muitos deles chegam a acordar às 3 da madrugada para garantir um assento no ônibus 09/06/2016 às 20:12 - Atualizado em 10/06/2016 às 10:30
Náferson Cruz Manaus (AM)

Eles acordam às 3h e passam até duas horas viajando para chegar à faculdade com o um único propósito, de concluir o tão sonhado curso superior. A exaustiva rotina faz parte da peleja de  centenas de estudantes que saem dos municípios de Manacapuru, Novo Airão e Iranduba e encaram ônibus e estradas, parte delas em más condições, para estudar em Manaus.

Apesar dos percalços, um fato é unanimidade entre eles: ser alguém na vida, ensejo que encoraja os alunos a acordarem na madrugada para enfrentarem a  dura jornada de ida e de volta da faculdade.

O trajeto até a capital envolve um número expressivo de estudantes. Somente de Manacapuru, interligada à capital pela rodovia Manoel Urbano (AM-070), são 950 estudantes nos três turnos. Cotidianamente, eles cruzam dois municípios para ter acesso à faculdade.

Antes de ocuparem os assentos dos veículos, parte dos estudantes encaram a escuridão da madrugada. Solitários em pontos nas estradas, os estudantes relatam as dificuldades para conseguir chegar a tempo na sala de aula. A saga do estudante André Conde, 25,  que cursa farmácia e pedagogia no Centro Universitário do Norte (UniNorte), retrata bem esse universo de estudantes que buscam aprimorar o desenvolvimento pessoal.

Ele conta que até se acostumou com a árdua rotina e ainda encontra tempo para atuar no laboratório de uma unidade hospitalar em Manacapuru. O graduando comenta que, além da rotina de estudo durante a tarde, as estradas ainda fazem parte da realidade no período noturno. “O maior problema é a volta, porque já estudamos por quatro horas e, no fim do dia, ainda temos que pegar a estrada para voltar para casa”, observa.

Há também uma realidade ainda mais delicada e acrescida com alguns obstáculos. Mãe de uma menina de 3 anos, a estudante Larissa Queiroz, do 2º período de engenharia da UEA, mora na entrada do município de Novo Airão. Ela também destaca toda a dificuldade acima e salienta os esforços que faz para cuidar da família e ainda viajar para ter no currículo uma graduação completa. “Acordo todos os dias às 4h para esperar o ônibus que passa na entrada do ramal. Após a aula na UEA, ainda vou para o estágio e chego em casa 20h”, disse Larissa, ressaltando que no futuro tudo irá valer a pena. A estudante Maria Luana Silveira, 21, acorda todo dia às 4h30  para conseguir chegar na escola às 7h. “Tenho que pegar o ônibus na estrada em meio à escuridão. Mas vale a pena todo esse esforço”, afirma a aluna da UEA.

Em casa após horas de estudo e enfrentar a rodovia

Depois da aula, os alunos voltam a fazer o mesmo trajeto, com mais duas horas de viagem em 89 km de estrada.  Alguns não aguentam e acabam dormindo nos bancos do ônibus. Por volta de 20h30, mesmo depois de jantarem e tomarem banho, os estudantes ainda não podem descansar, pois precisam fazer as tarefas de casa, como é o caso do estudante Caio Geovanne, 20 anos, do 3º período de geografia da UEA. “Acordo às 3h para me arrumar e uma hora depois estou na fila para aguardar a saída do ônibus às 5h. Depois de 2 horas já em Manaus e vou para aula, no período da tarde faço estágio e chego às 19h30 em Manacapuru e ainda vou estudar”. Ele revela que, apesar das dificuldades de estudar em outra cidade, todo o esforço é válido. “Hoje tudo é sacrifício, eu sei que, mais tarde a recompensa vem”, diz.

Há ainda, os estudantes do turno noturno, que chegam por volta de 1h. Tempo apenas para chegar em casa e descansar, pois no dia seguinte a rotina os espera.

Desafios e preparação para superar as horas de estrada

Os estudantes acreditam que o melhor caminho é aquele que você foca e segue em frente. A estudante de enfermagem Erineide Silva de Souza, 38, mora de aluguel com duas filhas no bairro da União, em Manacapuru. Conta que além dos estudos, trabalha no final de semana e quase não tem vida social. “É um sacrifício que fazemos para um futuro melhor”. A preparação para enfrentar a rotina também faz parte da vida dos estudantes, que o diga Jobson de Albuquerque, estudante de produção e TV. Na mochila, ele traz roupas para eventual necessidade, garrafa térmica com café, às vezes, o almoço na marmita. Em média, cada aluno gasta em torno de R$ 400 a R$ 500 com alimentação e outros serviços da faculdade. “Seguir na ‘estrada’ não é fácil, mas com determinação os obstáculos são superados”, diz Jobson.

Sem vida social

O técnico de saúde bucal e estudante de administração José Lima, 30, que mora na estrada que dá acesso à Vila do Paricatuba, no município de Iranduba, conta que atua pela manhã em uma unidade de saúde na comunidade, à tarde, estuda na capital, tendo apenas um curto período à noite para a família.

“Não tenho vida social, estou dedicado integralmente aos estudos e ao trabalho, para garantir o sustento de três filhos e da mulher”.

Blog: Luís Jorge, 65 anos, estudante de direito

“Muitos colegas dizem que se espelham em mim para fazer esse sacrifício: se um idoso de 65 anos consegue, por que um jovem de 18 anos não vai conseguir? Portanto, as dificuldades que enfrentamos não é só pela distância, mas pelo desconforto, pois as empresas de transporte não oferecem um serviço descente, o calor é insuportável, além do desgaste para o estudo, há o da viagem. Embora o esforço seja válido, o que os universitários dos municípios  da Região Metropolitana de Manaus (RMM) pleiteiam não é transporte, mas opções de cursos e faculdades em parte dos municípios”.

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