Segunda-feira, 12 de Abril de 2021
QUALIDADE DA ÁGUA

Uso de poço artesiano para ter água em casa gera série de riscos à saúde

Apesar de parecer ter vantagens tentadoras, muitos poços são perfurados de forma irresponsável, trazendo riscos à saúde humana e ao meio ambiente



21/03/2021 às 12:10

O abastecimento de água tem relação direta com a saúde da população. Quanto melhor a rede de fornecimento e a qualidade da água que chega à casa do consumidor, menor será o número de ocorrências de doenças como rotavírus ou problemas intestinais.

As vantagens de abastecimento por poços artesianos podem ser tentadoras: possibilidade de aumentar o volume do abastecimento; controle da água e redução de custos. Porém, muitas pessoas e empresas clandestinas perfuram poços de forma irresponsável, trazendo riscos à saúde humana e ao meio ambiente.



No Brasil, conforme dados do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento de 2017, cerca de 88% dos poços tubulares, chamados também de poços artesianos, são clandestinos, o que faz aumentar o índice de doenças relacionadas ao consumo de água contaminada.

Segundo o médico sanitarista Homero de Miranda Leão, este é um dado preocupante: “Apenas 12% dos poços são legalizados, ou seja: só uma minoria é controlada pelos órgãos de vigilância sanitária. Na maioria dos casos, não se sabe a qualidade dessa água. E esse é um controle que o cidadão comum não consegue fazer. Uma água que parece limpa a olho nu pode estar cheia de doenças”.

Miranda alerta a população para o perigo “oculto” que existe, por exemplo, em postos de abastecimento de garrafão. “A oferta pode até ser gratuita, mas é importante observar que o manuseio também é um ponto de risco. Mesmo que a água saia limpa dos 120 metros de profundidade (do poço), quando você pega e passa a envasar em garrafões que não estão esterilizados e transporta em carrinhos de mão ou carregando nos ombros, ela não tem segurança sanitária”, explica.


Homero de Miranda Leão: busca por água de qualidade pode levar consumidor ao oposto disso. Foto: Junio Matos

Para que a água seja segura para consumo, ela tem que passar por análises de diversas naturezas. Não só a que identifica coliformes fecais, mas também exames bacteriológicos para verificar se há outros organismos que podem causar doenças.

Doenças

Além do número pequeno de poços artesianos que obedecem aos protocolos sanitários, há ainda muitos poços com torneiras quebradas, vazamento de água, localizados em lugares não higienizados, dentre outras características que fogem das exigências dos órgãos de vigilância.

Conforme Homero de Miranda Leão, causas biológicas provocam doenças de veiculação hídrica que aparecem rapidamente. E há também o risco da contaminação por substâncias químicas presentes em águas não tratadas da maneira correta, que podem se manifestar ao longo do tempo, trazendo resultados danosos para a saúde, como transtornos neurológicos, reprodutivos, imunológicos, insuficiência renal e hepática, doenças pulmonares, respiratórias, e até câncer.

“A principal preocupação é com as doenças de veiculação hídrica, como as diarreias em crianças. A diarreia é fruto, na grande maioria das vezes, de doenças levadas pela água como parasitoses intestinais. A hepatite A também é transmitida pela água contaminada, dentre outras. O risco de beber água de poços muito rasos é muito grande. É preciso que as pessoas tenham consciência disso”, alerta o médico sanitarista.

Poço ‘nasceu’ de mobilização

Moradora do bairro Petrópolis, a pedagoga Ruth Pereira, 52 anos, usa há mais de 30 anos águas de poços artesianos. Ruth lembra que nem sempre a população teve acesso à uma água de qualidade para consumo em casa. “Desde 1989 venho de dois em dois dias pegar 20 litros de água nos poços. Antigamente a água (da torneira em casa) tinha uma cor amarelada, tinha até gosto. Não dava para beber. Esse poço é fruto da mobilização de várias pessoas do bairro e me sinto segura pois sei que ele é fiscalizado pelos órgãos competentes a cada dois anos”.

Riscos também para o meio ambiente

O geólogo e analista ambiental do Ipaam Daniel Nava destaca que a perfuração de poços artesianos por profissionais não credenciados pode causar danos irreparáveis ao meio ambiente.

Ele cita como por exemplo a contaminação de grande volume de água pura: “O poço tubular é uma obra de engenharia e só poder ser construído por uma empresa cadastrada no Ipaam. Do contrário, as consequências e impactos muitas vezes são imensuráveis”.


Daniel Nava alerta para ameaças ao meio ambiente. Foto: Junio Matos

Nava compara a abertura de um poço a uma delicada cirurgia, feita na Terra, para captar água de qualidade. “O reservatório do Amazonas, principalmente de Manaus, está no aquífero conhecido como 'Aquífero Amazônico'. É um reservatório com quase 200 metros de profundidade. Se você perfura e leva algum contaminante para esse aquífero, pode contaminar todo o manancial de água cristalina”, alerta Nava.

Ipaam: ‘Estamos combatendo ilegais’

No Amazonas, é o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) que atua na emissão dos documentos que autorizam a construção de poços.

Segundo o gerente de recursos hídricos (GERH) do órgão, Sérgio Martins, são analisa diversas exigências antes de dar a autorização. Só no Amazonas, estima-se se que há mais de 10 mil poços.

“Existem vários requisitos técnicos que são analisados por uma equipe formada por geólogos antes de se autorizar um poço. Uma vez que tenha sido autorizado, o órgão ambiental atua de forma preventiva. A gente sabe que muitos poços são perfurados ilegalmente. Mas estamos combatendo isso”, informou Martins.

A cada mês, o Ipaam recebe em média 15 solicitações para regularização de poços antigos, uma vez que essa é uma das exigências dos bancos para financiar um imóvel.


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