Terça-feira, 13 de Abril de 2021
DESAFIO GLOBAL

Vacina expôs abismo entre pobres e ricos

Luz no fim do túnel da pandemia, vacina precisa superar desigualdades entre pobres e ricos para ser de fato uma vitória



1891559_3F01E631-7822-4E23-BA2E-8452ED92C404.jpg Homem filma enfermeiro manuseando vacina momentos antes de receber a dose do imunizante em Bogotá, na Colômbia. Foto: Raul Arboleda/AFP
07/04/2021 às 10:51

No ano em que o coronavírus se tornou o principal protagonista da história da humanidade, interferindo na vida e na morte de bilhões de seres humanos, no planejamento social e econômico de centenas de sociedades em todo o planeta, ficam alguns questionamentos sobre o que celebrar neste 7 de abril, Dia Mundial da Saúde.

Com o tema proposto pela OMS para 2021 – “Construindo um mundo mais justo e saudável” –, estão em pauta as avaliações sobre o contexto da aquisição e distribuição das vacinas, que expôs a desigualdade mundial.



De acordo com o vacinômetro do Mapa Mundi da OMS, até ontem mais de 678 milhões de doses da vacina anticovid19 foram administradas em todo mundo, quase metade delas em apenas dois países: EUA e China. Enquanto algumas nações, como Israel, já vacinaram 59% de seus habitantes, há países como o Vietnã e a Namíbia onde apenas 0.1% da população foi vacinada.

O Brasil está na 49ª colocação do ranking que considera a porcentagem de habitantes vacinados: com 8,2% (equivalentes a 21,9 milhões de doses aplicadas) e, apesar da estrutura de vacinação do País ser exemplar, a campanha nacional ainda não decolou por falta de imunizantes.

Amazonas na ponta

O Amazonas está entre os estados brasileiros que mais vacinam pessoas. Até esta terça-feira (6), 593,8 mil doses da vacina tinham sido aplicadas. A maior parte na capital Manaus, que concentra mais de 300 mil dessas doses, de acordo com o vacinômetro da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM).

Manaus é também a capital que apresenta estatística de vacinação de diversas faixas etárias, começando pelos idosos com 90 anos ou mais e já alcançando a faixa etária 45 anos. Então, é de se esperar que o advento da vacinação seja o principal fator de “comemoração” e esperança no cenário que ainda continua sendo ditado pela doença.


Funcionário da prefeitura organiza chegada na fila da vacina em Manaus. Foto: Valdo Leão / Semcom

Esperança

A imunização já aponta caminhos de que a pandemia pode ser controlada. É o que pensa o clínico-geral e médico do Exército  Iran Sadayoshi Mendes. Ele avalia que a preservação da vida é a principal motivação para celebrar o Dia Mundial da Saúde.

“A vacina é uma luz que está se acendendo no fim do túnel e que em breve será realidade, será a manutenção da saúde e da vida da nossa sociedade. Nosso país é continental e tem muitos desafios a vencer até lograr êxito nessa batalha. Mas, com fé em Deus em breve comemoraremos o controle efetivo dessa pandemia”, disse Iran.

Injustiça é da era ‘pré-Covid’

Para o sociólogo Marcelo Seráfico, as análises sobre o tema proposto pela OMS necessitam de uma problematização preliminar: “O que seria necessário para produzir um mundo mais justo e saudável? A injustiça e o adoecimento não nasceram com a Covid-19, são anteriores a ela, que as têm aprofundado”.

Postas no contexto da pandemia, continua Seráfico, as questões da injustiça e do adoecimento revelam aspecto dramático da realidade político-social: o compromisso das classes dominantes e suas elites com a manutenção de uma ordem iníqua.

“A miséria, a pobreza e o adoecimento são vistos como estatísticas frias, desinteressantes, enquanto os índices das bolsas de valores e as cifras das contas bancárias provocam furor”, analisa.

Essa também pode ser a ótica a ser examinada no processo de vacinação mundial. “Essa é a lógica que preside, por exemplo, a aspiração dos mais ricos em acessar a vacina antes dos demais. Não passa pela cabeça deles a ideia de proteção comunitária”, exemplifica.

Para ele não há, portanto, muitos motivos para comemoração: “Direi o que me parece digno, senão de comemoração, pelo menos de registro. Ao falar da necessidade de construção de um mundo ‘mais justo e saudável’ reconhece-se a gravidade do problema, e esse é um passo importante, ainda que insuficiente, para superá-lo”.

Solange Dourado de Andrade Infectologista da FMT

“Inegável que impera a maior das tristezas... Uma pandemia que nos tira a paz, nos leva entes queridos, nos afasta do lazer tão necessário. Mas sim, há o que comemorar: a vacina! Uma conquista histórica da comunidade científica. Luz no fim do túnel para encarar a pandemia. Já temos o “produto”, falta a produção. Ainda há muito que se trabalhar para abastecer uma clientela nunca antes vista: todos que habitam o planeta. Sim, pois em breve, até mesmo as crianças devem ser vacinadas. Não há como fugir das relações diplomáticas neste momento, para que a vacina chegue onde deve chegar. É necessário estabelecer parcerias, garantir o fluxo livre entre nações. A OMS lança o tema para construção de um mundo mais justo e saudável. Isso só será possível se conseguirmos pensar no outro e não somente em nós mesmos”.

Acesso justo

Em fevereiro deste ano, o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade resolução proposta pelo Reino Unido exigindo acesso justo às vacinas contra a covid-19. A resolução apela também à solidariedade e ao cessar-fogo nos países em conflito para melhor lutar contra o vírus e realizar vacinações.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.