Sexta-feira, 03 de Abril de 2020
REPRESENTATIVIDADE

Mulheres da tecnologia falam sobre os desafios da inclusão feminina no ramo

Minoria nas carreiras de exatas e tecnologias, a presença feminina na carreira de tecnologia, das faculdades às empresas, vira tema de debate na atualidade



_MG_2753_772EFECD-F62A-451D-A8BC-42C6F9D1B149.jpg Integrantes do PyLadies - uma comunidade que busca incentivar a permanência de mulheres na área de programação e informática / Fotos: Keysson Ramires e divulgação
11/03/2020 às 12:21

A igualdade de gênero é um debate constante na sociedade. Mas, apesar de elas serem mais da metade da população brasileira (52%), as mulheres ainda buscam espaço no mercado de trabalho. Esse fator se agrava no ambiente tecnológico. Dados da Associação Brasileira de Startups (Abstartups) mostram que 40% das startups não contam com a presença feminina no quadro de funcionários.

Essa relação pode ser observada desde a faculdade. Em turmas finalistas de Sistema da Informação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), nas quais a quantidade de alunos em geral é baixa, a presença de mulheres em algumas turmas chega a ser inexistente.



Esse quadro é apontado professora e doutora pelo Instituto de Computação (Icomp-Ufam), Thais Helena, principalmente, nos períodos iniciais quando, segundo ela, os homens ainda possuem uma cultura que exclui o gênero feminino.

Qualidade

Por outro lado um levantamento realizado por um grupo de doutoras da Ufam comparou dados dos alunos calouros e veteranos dos cursos de Engenharia e Ciência da Computação e Sistema da Informação do Icomp, de 2000 a 2017.

Nele foi possível verificar que nas turmas de calouros, apenas 17% dos alunos são mulheres e que embora elas sejam a minoria na entrada dos cursos, são elas quem mais os concluem com êxito.

Ainda de acordo com a pesquisa para as alunas fatores como trabalhar com novas tecnologias e facilidade para operações matemáticas são mais significativos do que ter uma boa remuneração.

Novas gerações

Para isso a professora adota medidas de integração para que eles percebam as vantagens que as meninas trazem para os projetos. Entretanto, Thais nota que a aproximação das novas gerações com a tecnologia tem facilitado a identificação delas com as novas profissões.

“É um novo estilo de meninas que chegam cada vez mais seguras, assumindo seus lugares e mostrando para os colegas sua a criatividade, organização e novos pontos de vista na elaboração de trabalhos”, conta.

Essa nova geração é bem representada na aluna do primeiro período do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Eny Alves, que inspirada pelo irmão ela planeja se tornar programadora.

Eny diz ter ficado receosa ao ingressar na área devido ao estigma da predominância masculina, mas que tem se surpreendido com a receptividade e integração entre os alunos.

“Meu maior receio era pelo fato de ser uma área dominada por homens até o momento. E devido ao senso comum de que mulheres não servem pra área de exatas. Esse foi o receio inicial, mas não se tornou um empecilho pra mim. Pelo contrário. Quero mostrar que eu posso sim e que meu sexo não me limita”, diz a universitária.

No ecossistema de inovação, de acordo com a líder de comunidade do Jaraqui Valey e consultora de negócios Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), Glaucia Campos, aponta o crescimento local da quantidade de mulheres em programas que ajudam no desenvolvimento de novos negócios.

“A gente vê a mulher empreendendo e intra-empreendendo em programas estratégicos para condução de empreendedorismo na cidade”, explica.

A comunidade Jaraqui Valey estuda a realização de Meetups voltados para os negócios inovadores desenvolvido por mulheres.

Comunidade incentiva meninas

Para captar mais meninas para os cursos de ciências exatas e tecnologias, as PyLadies - uma comunidade que busca incentivar a permanência delas na computação, usando como ferramenta a linguagem de programação que dá nome ao grupo, o Python.

As Pyladies promovem cursos, debates e mesas redondas para levantar a problemática de gênero e assim fazer como que mais meninas sintam-se confortáveis e não desistam dos cursos.

Na mesma linha de atuação,o projeto Cunhantã Digital, no Amazonas, aponta o horizonte do mundo digital para as alunas de ensino fundamental e médio.

“A maioria dos empregos vão começar a ter mais funções envolvendo questões tecnológicas na industria 4.0 e cada vez mais vão surgindo oportunidades envolvendo conhecimento de tecnologia e como que a gente vai manter metade da população afastada dessa área?”, questiona a desenvolvedora.

Além disso, a desenvolvedora de software e também como líder de comunidade do Google Developers Group (GDG) que atua no Cunhatã Digital, Ludmylla Lobo também cita o trabalho realizado pelo GDG no Woman Tech Makers (WTM) que promove a diversidade e inclusão na área de tecnologia proporcionando palestrantes femininas nos eventos.

Mulheres em postos de líderes

No Amazonas, institutos de tecnologia e startups já são comandadas por mulheres que falam de representatividade

A representatividade é uma fator que pode colaborar para melhoria do número de mulheres na área.

Em eventos realizados pela Woman Tech Makers, foi possível notar um aumento no número de participante mulheres para 40% enquanto exposições sem a participação feminina não chegam a 13%.

Nos eventos realizados com 100% de mulheres no palco, as inscrições delas chegaram a 60% do público.

Exemplos como história da diretora administrativa do Instituto Sidia de Ciência e Tecnologia, Vania Capela, que atualmente é um dos nomes femininos de maior destaque no meio ‘tech’.

Com mais de 28 anos de atuação na indústria a engenheira eletrônica, pós-graduada em engenharia de produção começou sua vida profissional aos 16 anos e já acumula no currículo passagens em empresas de diversos ramos na região.

“Eu entrei na faculdade de engenharia com 17 anos e comecei a trabalhar como técnica em eletrônica na época em que eram pouquíssimas as mulheres nessa área de exatas. No meu departamento só era eu de mulher”, conta Vania.

Hoje, ela está a frente de mais de 900 funcionários no maior instituto da America Latina da área e acaba de assumir a presidência da Associação do Polo Digital de Manaus (PDM), entidade responsável pela articulação do setor de tecnologia.

Junto com a Vania a desenvolvedora de novos negócios da Softex, Marcella Cunha também ‘toca’ o PDM e diz que o ecossistema igualitário da empresa favorece ainda mais o sua liderança como mulher.

“A área de tecnologia por ser prioritariamente masculina, principalmente em Manaus, aqui na Softex por incrível que pareça nós temos mais mulheres que homens trabalhando com inovação”, contou a desenvolvedora.

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