Segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
Mercado de trabalho

LGBT+ enfrentam dificuldades na busca por espaço no mercado de trabalho

Jovens profissionais LGBT+ falam sobre as dificuldades que enfrentam no mercado de trabalho, como falta de oportunidades e aceitação por parte dos colegas e chefes em vista do preconceito em Manaus



Nacho_DoceReuters_F4653BBC-ECEC-4C97-9038-F3518854AF35.jpg Nacho Doce - Agência Reuters
15/07/2020 às 09:20

Gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis, intersexuais e outras pessoas com distintas orientações sexuais e expressões de gênero ainda sofrem dificuldades para inserção no mercado de trabalho, em Manaus. Estas pessoas estão há décadas em constante movimento buscando por cidadania e direitos humanos, passando por discriminações por não se encaixarem numa norma social. 

“Quanto mais se fala sobre as pluralidades de gêneros e sexualidades, mais se chega à conclusão que as demandas são específicas para cada identidade que compõe essa sigla, principalmente demandas de saúde e para construirmos equidade necessitamos escutar as vivências dessas pessoas, sem suposições”, disse a psicóloga clínica Tainá Conde.



Machismo

Marília Freire, 37, é servidora pública do Estado e faz parte do Coletivo Feminista Humaniza. Ela conta que está inserida no funcionalismo público desde 2007. Porém, apenas em 2009 compreendeu sua orientação sexual como lésbica.

Marília Freire é servidora pública e relata ter passado por constrangimentos.

Ela relata que colegas de trabalho homens não queriam estar próximos a ela, pelo fato de gostar de mulheres. “Outros colegas homens me assediaram na tentativa de ‘testar’ a minha sexualidade”, compartilhou.

“No mundo machista, racista e patriarcal que a gente (infelizmente) vive, qualquer pessoa que não seja homem, branco, cisgênero e heterossexual precisa se esforçar mais pra ter seu valor minimamente considerado. (...) Adaptando a frase de Simone de Beauvoir para o contexto do século XXI, eu diria que o machismo faz com que o mais medíocre dos homens se sinta um semideus diante de qualquer outra pessoa”, afirmou.

Marília pontua que as empresas deveriam pelo menos cumprir medidas básicas como equiparar o quadro de funcionários e salários, questionar o sexismo em situações cotidianas, respeitar a estabilidade funcional de mulher gestante e em licença maternidade, não demitir esta mulher no retorno às funções, respeitar o uso do nome social por pessoas trans, promover um ambiente corporativo onde machismo, racismo e LGBTQIA+fobia não sejam tolerados, etc.

Privilégio

O professor e fundador da Associação Manifesta LGBT+, Gabriel Mota, 27, conta que nunca enfrentou problemas nesta questão. “As pessoas veem em mim um perfil de LGBT que é ‘aceitável’ estar inserido na sociedade. Homem, gay, sem uma expressão de gênero que destoe das normatividades impostas pela sociedade, e essa situação acaba criando um escudo de defesa social. E é preciso reconhecer esse privilégio. Por isso, eu uso essa ‘passabilidade’ ao favor da comunidade para ampliar o debate do respeito e da inclusão de cidadãos LGBT, que são tão cidadão quanto qualquer outro brasileiro”, afirmou.

Gabriel Mota é professor e fundador da Associação Manifesta LGBT+

Este, infelizmente, não é privilégio para muitos. Thiago Ribeiro Costa é um homem trans que compõe a equipe do Instituto Mana e é coordenador do coletivo O Gênero. Ele conta que ficou de 2016 a 2019 sem oportunidades de emprego. Este foi justamente o período em que estava fazendo a transição de sua identidade.

Thiago Costa é um homem trans e ele diz ter ficado quase 3 anos sem trabalho

Evasão escolar

A psicóloga Tainá Conde atua principalmente com demandas referente a gêneros e sexualidades, e é ativista pelos direitos da população LGBT+. Ela explica que as dificuldades iniciam com a grande evasão escolar entre a população LGBT, provenientes das violências vivenciadas dentro da escola, muitas vezes pela omissão dos profissionais ali presentes em não discutir sobre as pluralidades de gêneros e sexualidades. Além de crenças pessoais preconceituosas. 

Com esse déficit no acesso a educação, torna-se mais distante o trabalho no mercado formal, e, quando essas pessoas conseguem adentrar, sofrem represálias dentro deste ambiente, seja por parte de chefes, clientes e outros funcionários.

A exclusão é sistemática

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% da população trans busca a prostituição devido a falta de inserção no mercado de trabalho. “E isso tem uma explicação. A evasão escolar acontece em média aos 13 anos, ou seja, não chegam nem a concluir o ensino fundamental”, explica o professor e fundador da Associação Manifesta LGBT+, Gabriel Mota, em Manaus.

Na pesquisa da Antra, de 2018, 72% desta população não concluíram o Ensino Médio e 56% não concluíram o ensino fundamental. Apenas 0,02% acessaram o ensino superior. “Isso é a exclusão sistemática. E é importante lembrar que fazer parte desses 0,02% não elimina o preconceito. A população trans ainda enfrenta estigma e exclusão mesmo quando consegue se capacitar. Eu penso que os números por si só expressam a principal demanda: políticas públicas de respeito à identidade de gênero e orientação sexual das pessoas que reforcem o progresso dessas pessoas na sociedade”, acrescentou o ativista.

Empregabilidade

Gabriel defende que sejam criadas políticas públicas de respeito à identidade de gênero e orientação sexual que reforcem o progresso dessas pessoas na sociedade.

“Eu acredito que as empresas devem quebrar o paradigma de gênero e não só valorizar a diversidade, mas, enquanto responsáveis pela roda da economia girar, capacitar pessoas LGBT, em especial pessoas trans, ao mercado de trabalho”, afirma.

A psicóloga Tainá Conde acrescenta que a promoção de empregabilidade gera cidadania, ou seja, reconhecimento, sentimento de pertencimento à comunidade e autonomia financeira. Estas questões abrem portas para possibilidades de vivências mais saudáveis, principalmente para a população LGBTQIA+ que muitas vezes, necessita lidar com o desamparo familiar e financeiro desde muito cedo.  

“Existe uma lógica social de que a população LGBTQIA+ sofre por expressar quem são, pelas suas identidades, isso não é verdade, é totalmente equivocado. Essa lógica coloca a culpa nas existências desses cidadãos e não na sociedade e cultura heteronormativa que os discriminam e excluem dos espaços de direitos, como o mercado de trabalho”, afirmou a psicóloga. 

Também educador social, Thiago Costa ressalta que as política sociais de empregabilidade devem ser feitas especialmente para a população trans. Estes são excluídos do mercado do trabalho por não conseguirem “disfarçar” algumas características em processos seletivos, por exemplo.

“Num processo seletivo são feitas análises a partir do currículo, vendo onde a pessoa estudou e etc, as pessoas trans não têm essa possibilidade”, conta Thiago.

Ele afirma que as empresas precisam mudar o olhar e realizar processos de educação social para que estes lugares estejam preparados para ser um local seguro para o LGBTQIA+ permanecer.

“Muitas vezes, acontece da pessoa conseguir o emprego e ela ficar visada, porque todo mundo já identifica que ela é a única LGBT na empresa. O pessoal começa a fazer chacotas e a pessoa não consegue continuar no trabalho por não manter a saúde mental”, relata. 

Thiago é muito crítico às empresas que oferecem vagas para LGBTQIA+, mas que não conseguem realizar a manutenção desta vaga e oportunizar o crescimento desta pessoas na empresa, fazendo com que ela sempre esteja em cargos de salários baixos, sem oportunidade de crescimento gradual.

Representatividade 

O objetivo com a criação destas políticas públicas é fazer com que crianças e adolescentes LGBTQIA+ enxerguem possibilidades. “Quando eu vejo toda a estabilidade de vida que eu tenho, eu penso em quantos meninos gays devem esta confusos sobre sua sexualidade e sobre a vida deles e quando olham para mim sentem um pouco mais de esperança na vida”, conta Gabriel.

O ativista explica que assim é com todas as outras siglas. “Precisamos de exemplos, precisamos sentir que somos parte da sociedade e que o preconceito fica para quem não quer progredir. No caso das empresas, todas têm o compromisso com o progresso das pessoas e também do país. E, enquanto houver desigualdades decorrentes da raça, gênero e sexualidade das pessoas, continuaremos parados enquanto nação”, afirmou. 

Esforço

A verdade é que as pessoas da população LGBTQIA+ acabam precisando estar um passo à frente de tudo. “Isso é problemático pois é o primeiro fato de ansiedade de muitos de nós”, pontua Gabriel.

Ele acredita que esta pressão cria um senso de independência, autonomia, responsabilidade e coragem, porém não podemos romantizar. 

“Historicamente, fomos estigmatizados demais. Alguns países até patrocinaram propagandas contra nós. Em determinado momento do século  era normal expor o nome de LGBTs em jornais para excluir do mercado de trabalho. Hoje em dia nossos nomes são expostos no jornal, mas desta vez falando com muito orgulho que chegamos até aqui e somos cidadãos como todos que não são LGBTs, e que por tal, gozamos dos mesmos direitos constitucionais”, disse. 

Thiago concorda. “O público LGBT precisa se esforçar muito mais para mostrar o seu valor. (...) A gente acaba tendo que ser muito mais produtivo”, afirma. Muitas vezes, a pressão vem da própria vítima. “Pensamos que temos que ser mais produtivos, se não, seremos a primeira pessoa a perder emprego quando a empresa tiver  que cortar gastos”, compartilha. 

“Essa é uma característica das pessoas LGBT+, quando são contratadas, a empresa ganha muito, porque a pessoa sempre vai dar o melhor em gratidão ao auxílio que está sendo prestado”, concluiu. 

Repórter de A Crítica

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