Sábado, 04 de Julho de 2020
ENTREVISTA

Confeiteira venezuelana abre linha de tortas e doces por encomendas em Manaus

O doce sonho de Nelarys Lanz, de 49 anos, que deixou a sua terra natal e superou a perda de um filho para recomeçar a vida no Brasil com o sonho de exercer sua profissão e paixão: a confeitaria



1569803_7319719D-245C-49CC-A59E-0B52826CEFBF.JPG Foto: Eraldo Lopes/Freelancer
11/02/2020 às 16:16

Confeiteira há mais de 15 anos, a venezuelana Nelarys Lanz deixou a sua terra natal para buscar uma nova vida. Após quase cinco anos de luto pela morte do filho mais velho e, apesar de ter seu trabalho reconhecido no estado de Lara, norte da Venezuela, ela chegou ao Brasil com apenas uma mala e o sonho de reconstruir sua carreira na confeitaria, levando o amor através de suas receitas.

Em pouco mais de um ano e meio na cidade de Manaus, ela passou por muitas dificuldades, mas encontrou ajuda no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e agora começa a reescrever um novo capítulo na sua história, como empreendedora, usando as redes sociais como aliadas do seu negócio.



Como era sua vida na Venezuela?

Lá eu era empresária e vendia doces. Era a melhor do meu estado, fornecia para um restaurante e tinha meus clientes. Era casada há 20 anos e estava morando em Caracas com meu primeiro filho. Ele [filho] era portador de síndrome de Down e faleceu faz 6 anos. Sou mãe de 3 filhos, ele era meu primeiro. Depois tive minha filha, que está morando na Argentina e meu filho mais novo, que tem 19 anos e mora na Venezuela com seu pai.

Como foi esse momento de perda?

Quando ele [filho mais velho] morreu, eu estava louca. Não sabia lidar, pois ele era minha companhia, era quem estava comigo desde que nasceu. Ele nunca se separou de mim. E meu luto durou quase 5 anos, porque eu não quis viver. Foi como se ele ainda estivesse por aqui e em qualquer momento ele fosse voltar. Acho que [cozinhar] foi a melhor forma para eu para não enlouquecer.

Como você conheceu Manaus?

Eu conheci Manaus porque meu irmão já morava aqui e ele me convidou para esquecer um pouco. A primeira vez que conheci Manaus foi há 6 anos. Eu cheguei aqui com meu carro e fiquei apaixonada.

Como foi a viagem da Venezuela até aqui?

Eu vim no meu carro e cheguei a Santa Helena de Uairén [divisa Brasil/Venezuela] eu e minha mãe. Não tínhamos dinheiro porque no país só era permitido fazer transações por transferência. Quando fui retirar minha habilitação para dirigir no Brasil me disseram que eu não poderia, porque tudo mudou dois meses antes da minha chegada. Você imagina deixar todas as suas coisas, roupas, materias que estavam no carro?

Eles falaram: você não pode passar, eu pensei: E agora o que eu faço? Porque eu não tinha com o que trabalhar. Então, precisamos ir para Boa Vista porque nosso dinheiro ficou em Caracas ligamos para um tio que mora nos Estados Unidos para que mandasse dólares e nós convertamos em reais para buscar meu ex-marido, que ficou em Santa Helena. Eu vim com uma mala e com todos os meus sonhos.

Como você fez para se manter no Brasil?

Quando nós chegamos aqui começamos a vender as coisas na rua, ele [ex-marido] começou a vender água, mas brigávamos todos os dias porque eu nunca precisei vender na rua, nunca! Comecei a pesquisar como fazia dindim, mas não dava em nada. Então, tentamos vender pastéis e eu comecei a pesquisar, porque fazia em casa mas não para vender. As pessoas daqui que já conheciam o meu trabalho compravam, mas era uma briga com as pessoas da fiscalização, eles diziam que eu não podia vender porque eu era imigrante.

O idioma foi uma barreira?

O meu ex-marido me ajudava mas ele não tinha a facilidade do idioma. Eu comecei a fazer aulas no meu país para aprender o português, só que eu não praticava e esqueci, mas eu tinha alguma noção.

A recepção dos manauaras foi boa?

As pessoas pensam que é fácil chegar aqui porque tem muitos turistas, mas não, os brasileiros são muito fechados.

Como você descobriu o Sebrae?

No mês de outubro, uma moça que estava em um grupo de WhatsApp, que também é venezuelana, e está há mais tempo aqui, me convidou para o Sebrae. Eu não sabia o que era, mas fui fazer uma oficina de empreendedorismo. Quando eu fiz isso foi uma mudança completa, porque é outra realidade. Eu era a única venezuelana lá, porque eu acho que a barreira do idioma acaba dificultando muito. Eu não sabia se eu ia entender, mas eu fui para lá e precisava falar, porque tinha que explicar o meu projeto. Eu fiz aquele projeto e vi que estava no caminho certo.

Quando você voltou a sonhar com a confeitaria?

Meu irmão sempre falava que não era fácil porque eu já tinha um nome no meu país e aqui não. Eu precisaria começar do zero. Mas eu sempre arrumei um jeito, porque eu acho que só consegui porque sou uma empreendedora nata. Eu não sabia disso mas, descobri quando fiz uma capacitação com o Carlos Oshiro. Fiz um teste para ver qual era minha personalidade e eu sou empreendedora por natureza, mas sinto muito medo de fazer coisas novas. [Hoje] Eu já tenho todo meu plano de negócios para este ano, com tudo que eu quero para o meu empreendimento.

Além do Sebrae você fez outras capacitações?

Eu cheguei a fazer seis cursos cada um de R$ 30, do Panadeiro Brasil e da loja Shallow, que são mais econômicos. Outro que também fiz com a Confeitaria Casagrande de São Paulo que faz bolos e publica em ‘lives’, depois que eu fiz a capacitação com o Carlos Oshiro. Eu estava vendendo meus bolos como se fossem um material como um artigo e não era assim. Eu aprendi muita coisa com ele. Foi como um furacão que foi me levando.

O que você tenta transmitir através dos produtos?

Quero que as pessoas se conectem comigo de outro jeito. Não é apenas um bolo que eu estou vendendo. Eu quero cativar os corações das pessoas. Eu falei: eu posso fazer bolo como todo mundo faz bolo, mas o amor que eu dou para cada bolo é diferente. Eu quero que quando alguém prove o meu bolo ela diga: Ah! O amor está aqui.

Como você imagina sua vida daqui há 10 anos?

Como a dona do pedaço! Pode ser? Mas não com as lojas ou franquias, eu quero que todo mundo que chegue a Manaus queira conhecer a minha loja minha doceria venezuelana, porque aí vou poder vender meus doces. Quero uma coisa bem ‘Paris vintage’, com calor humano para que você sinta que aí você vai pensar em outra coisa que não seja estresse ou trabalho.

Serviço

O que? Doceria Nela’s Cakes

Preços? Variam entre R$ 60 e R$ 120.

Pedidos? (92) 8198-2025

Instagram: @nelascakes–ve

News giovanna 9abef9e4 902c 428b a7c8 c97314664fb7
Repórter
Repórter de A CRÍTICA. Sempre em busca de novos aprendizados que somente uma boa história pode trazer.

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.