Terça-feira, 24 de Novembro de 2020
eleições

Em Manaus, apenas nove candidaturas se declaram indígenas

Apenas 0,63% dos 1,4 mil candidatos que disputam a eleição para vereador em Manaus se autodeclararam indígena, de acordo com levantamento



indios2020__5__A43B4B6C-A063-41A7-ACC8-D025AEBCAA9D.JPG Enfermeira Edilene Kokama, candidata a vereadora pelo PSC, avalia que falta união entre os próprios indígenas para que haja mais representação no meio político. Foto: Iago Albuquerque.
27/10/2020 às 17:42

A necessidade de afirmar as suas origens levou a atriz Socorro Papoula, 58, ainda durante a faculdade a mapear as origens dos índios do Médio Solimões que constituíram os seus antepassados. Autodeclarada indígena e uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT) em Manaus, há 40 anos atua em projetos sociais que lutam por melhores condições e oportunidades para seus "parentes".

Candidata a vereadora, Papoula tem como principal bandeira o amparo aos indígenas da zona urbana, pois estes precisam muitas vezes abdicar de suas raízes para serem aceitos na sociedade e terem acesso a serviços básicos como saúde e educação que não respeitam as diferenças culturais das etnias.



“Nós temos um número alto de indígenas nos bairros de Manaus com vários problemas principalmente agora no covid-19, porque: Ah, não pode atender porque é indígena e ficou aquele cidadão sofrendo por falta de hospital”, relembra.

Em Manaus das mais de 1,4 mil candidaturas à Câmara Municipal apenas nove são indígenas. Há quatro anos, 29 candidatos indígenas disputaram a eleição. Em todo o Amazonas, este ano eles somam 497. Um crescimento de 39% relação a última disputa municipal, quando totalizaram 355. Segundo dados do Cimi, em 42 dos 62 municípios do Amazonas há candidaturas indígenas.

Assim como Socorro, no Brasil 896 mil pessoas se declararam indígenas, segundo o último levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 57,7% ainda residem em terras demarcadas e 36,2% moram em zonas urbanas. A população indígena brasileira é composta por 305 etnias e o Amazonas lidera o ranking dos estados com habitantes indígenas, totalizando 183,5 mil.

Diálogo

Assegurar condições dignas de vida á esse segmento da população ainda é um desafio, segundo a candidata. E um dos caminho para se alcançar essa meta é o diálogo com o Poder Executivo. “Um vereador indígena seria de extrema importância para ser o interlocutor dos índios que moram na cidade de Manaus e poderia buscar melhorias em todas as áreas: na educação indígena diferenciada, saúde indígena, porque querendo ou não nós somos diferentes em algumas coisas”, esclarece.

A busca de uma sociedade ‘sem exclusão’ é o desejo da enfermeira, Edilene Kokama, candidata a vereadora pelo PSC. Ela veio ainda pequena para a cidade com os pais analfabetos e descobriu na educação uma forma de conquistar o seu espaço.

Edilene analisa que ainda falta união entre os próprios indígenas para que haja mais representação no meio político. Para ela, por conta da miséria muitos acabam dedicando seu voto a candidatos assistencialistas e sem real preocupação com a causa.

Políticas públicas

A enfermeira afirma que uma representação na Câmara Municipal de Manaus (CMM) é importante para propor discussões sobre políticas públicas pensadas pelos próprios indígenas. “Se o vereador não tiver representatividade não tiver esse conhecimento, a gente não vai chegar a lugar nenhum para alcançar essas políticas”, reintera a enfermeira que atua no sistema de saúde público e tem dentre as duas especialidades a saúde indígena.

Em Manaus, segundo Fundação Estadual do Indigena no Amazonas (FEI), 10 mil a 15 mil indígenas devem ir às urnas no dia 15 de novembro.

Maior aldeia urbana

Os dados do último censo realizado pelo IBGE apontaram que Manaus possuía, até 2010, cerca de 4.020 indígenas autodeclarados, representando 92 etnias, distribuídos em 62 bairros. Esse número segundo informações da Coordenação dos Povos Indígenas em Manaus e Entorno (Copine) pode ter quadruplicado nos últimos dez anos.

Um exemplo prático do processo de migração dos indígenas para a capital pode ser observado no Parque das Tribos, localizado no bairro Tarumã Açu, Zona Oeste da cidade, onde habitam aproximadamente 2,5 mil indígenas, a maior aldeia urbana na cidade. A revisão das necessidades da comunidade pela prefeitura é o feito apelo do engenheiro agrimensor e indígena Ismael Mundurucu.

“Um representante indígena seria muito importante porque ele lutaria por essas causas diferenciadas. Por escolas municipais que tivessem professores indígenas que ensinassem na língua daquele indígena, que fizesse com que nossas escolas primárias pudessem conhecer melhor o seu próprio povo”, afirma.

Em números: 9 Indígenas disputam a eleição em Manaus: Enfermeira Edilene Kokama (PSC), Odimar Guimarâes (PT), Patrícia Baré (PMN), Kapiro Apurinã (PTB), Kamila Mura (PTB), Delmir Tikuna (PT), Socorro Papoula (PT), Marcos Apurinã (MDB), Profa Elizoneide Afro Indígena (PCdoB).

Quase 80% dos candidatos em São Gabriel são índios

O município de São Gabriel da Cachoeira, localizada na região do Alto Rio Negro, possui a maior concentração de comunidades indígenas no Amazonas. E também a maior participação proporcional de candidatos indígenas do Estado. De um total de 165 pedidos de candidatura a prefeito, vice e vereador 78,1% se autodeclararam oriundos de alguma etnia. São 129 candidatos.

Dos seis nomes que concorrem à prefeitura, quatro são indígenas. Para o professor José Carlos Almeida Cruz, 40, da etnia Piratapuia, candidato a vereador pelo PSL, o número expressivo de candidaturas indígenas é o reflexo de um processo educacional de formação políticas de novas lideranças.

Ele conta que foi por meio dos estudos sobre Filosofia, muito presente nas escolas que frequentou, e a partir de reflexões sobre a política, que despertou para a busca da autonomia e do acesso a direitos. “Eu me formei no ensino médio com esse pensamento de que um dia nós poderíamos ser autônomos, podemos construir a nossa própria política”, afirmou.

O professor afirma que há muito tempo o município vem experimentando esse processo de maior participação política das comunidades, fruto também do movimento indígena. Embora ainda prevaleça casos de favorecimento do poder econômico, no movimento indígena a luta é para colocar mais representantes das próprias comunidades na Câmara Municipal.

Cruz avalia que novamente será eleito um líder indígena para a prefeitura. Atualmente o município tem como prefeito, Clóvis Corubão (PT), que disputa a reeleição contra Advogado Ednaldo (DC), Cláudio Pontes (Pode), Edinho Gonçalves (PSC), Pascoal (SD) e Professor Geraldo (PV). O PT é a sigla que mais lançou candidatos indígenas no Amazonas. Foram 54. Seguido do SD e PSC com 39 cada; do PP com 36, do PSD e MDB com 33 cada.

Análise

Clayton Rodrigues - Mestre em antropologia social

‘Falta um projeto’Para iniciar essa discussão sobre a (não) presença de indígenas no cenário político atual brasileiro, tanto no Poder Executivo quanto no Legislativo, nos faz pensar em como funciona o sistema político eleitoral. O sistema brasileiro passa por um processo de descredibilidade muito grande. Na última eleição nacional pudemos observar o grande percentual de votos não válidos e das abstenções e isso é sintomático.

Pensar essa situação considerando a representação de uma pequena parcela da população brasileira tão espoliada e expropriada de todo e qualquer direito básico humano é não apenas necessário, mas obrigatório.

Se pensamos que é necessário termos representantes comprometidos para que tenhamos acesso aos direitos básicos nas câmaras municipais e nas prefeituras, por que é tão difícil o acesso de representantes de minorias, como é o caso dos indígenas? Ainda que em diversos municípios tenhamos a experiência da gestão de prefeitos (as) indígenas, ainda é bem pouca a permanência destes agentes nos pleitos. É muito difícil sobreviver ao peso do sistema político partidário e eleitoral brasileiro, extremamente viciado e cristalizado em corrupção e descompromisso com as causas públicas.

Torna-se muito mais difícil para indígenas permanecerem neste "jogo político" de interesses majoritariamente pessoais, por muito tempo.

Faço uma análise empírica (pois necessitaria de mais dados e tratamento destes dados para afirmar mais concretamente algo), mas, percebo que falta aos indígenas, principalmente do Estado do Amazonas, formação política, formação em gestão pública, formação em gestão de recursos públicos e para além disso, falta aos indígenas conseguir construir um projeto político, se não nacional, ao menos regional.

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