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Eleições
ENTREVISTA

‘Cadê a folha de pagamento da prefeitura na internet?’, atira Serafim Corrêa

Prefeito de Manaus entre 2005 e 2008, Serafim Corrêa defende a necessidade de conversas entre entes administrativos e acredita que agora pode fazer uma administração melhor do que a anterior 13/09/2016 às 12:20 - Atualizado em 13/09/2016 às 12:21
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Na entrevista, o candidato teceu críticas às últimas gestões municipais e disse que a Prefeitura tem, hoje, orçamento muito maior do que o de sua época (Foto: Aguilar Abecassis)
Lucas Jardim Manaus (AM)

Prefeito de Manaus entre 2005 e 2008, o deputado estadual Serafim Corrêa (PSB) foi o primeiro a se jogar de cabeça na campanha deste ano com a convenção de sua sigla acontecendo semanas antes dos demais partidos.

O candidato à chefia do Executivo local falou a A CRÍTICA sobre o que esperar de uma nova gestão sua e porque acredita que pode fazer melhor agora do que fez na sua primeira passagem pela prefeitura da capital. 

O senhor já foi prefeito e não foi reeleito. Por que acredita que pode fazer uma gestão melhor agora?

Em primeiro lugar porque nós fizemos obras e ações que melhoraram a vida das pessoas, coisas que foram feitas para as próximas gerações, não para as próximas eleições. Até por isso perdemos, mas o julgamento do povo é soberano.

Manaus tem a tradição de não reeleger prefeito. Só reelegeu um, que foi o Alfredo Nascimento, mas ela resgatou dois prefeitos anteriores. Primeiro foi o Amazonino [Mendes] e segundo foi o Artur [Neto]. Eu estou na fila, eu sou próximo.

A sua gestão trouxe vários investimentos em saneamento básico, mas a cidade ainda sofre com essa questão. O que pretende fazer sobre isso se eleito?

Hoje, há problemas de gestão. Os problemas estruturantes da questão da água foram resolvidos quando obrigamos a concessionária a investir R$ 140 milhões, a prefeitura investiu R$ 60 milhões em rede e aí talvez está uma das causas da minha derrota. Foi que eu tive de rasgar ruas e, quando você rasga rua, você causa um desconforto. Naquele momento, isso teve um efeito negativo, mas hoje tem rede em quase 100% da cidade, e o Governo do Estado, que tinha ficado com o dinheiro da venda da concessão do serviço de água e esgoto, concordou em colocar parte do dinheiro que ele tinha ficado no investimento de água, que foi o Proama. Nessa relação entre município e Estado, o município sempre saiu perdendo.

Já que o senhor falou sobre rasgar ruas, quais os planos da sua gestão para a mobilidade urbana?

Nós precisamos ter um plano que tenha início, meio e fim. [Um plano que] tenha obras pequenas, médias e grandes. Essas obras grandes só serão possíveis com recursos de fora, mas as pequenas e as médias são possíveis de serem feitas com recursos do município que, aliás, melhoraram muito. Eu tive, no meu período, R$ 5,8 bilhões. A atual administração já tem mais de R$ 13 bilhões e o ano ainda não terminou.

Sobre a relação entre município e Estado na área da saúde, como o senhor imagina que se dará na sua gestão e qual a sua proposta para o setor?

Eu entendo que falta conversa. O problema da saúde no Brasil é, lá no início, há 25 anos, quando começou o [Sistema Único de Saúde] SUS, o governo federal era quem mais colocava dinheiro na saúde. Ao longo do tempo, ele foi diminuindo a participação dele, foi se retraindo. Como ele mandava muito dinheiro, ele mandava para os Estados, e os Estados não queriam municipalizar, porque tinha dinheiro demais no SUS. O tempo foi passando, o governo federal foi saindo, aí os Estados foram passando as bombas para o município. Tem que ter conversa e tem que ter conta no bico do lápis.

A necessidade de conversa remete ao Pacto de Governança, que tem sido uma luta sua na ALE-AM...

Enquanto deputado, desde o meu primeiro discurso, eu defendo o Pacto de Governança. As instituições têm que conversar independentemente das pessoas, mas Manaus, lamentavelmente, tanto no âmbito do Estado quanto no âmbito do município, perdeu a capacidade de conversar. Ninguém quer conversar. Todo mundo quer brigar, todo mundo quer ser valente. Eu acho que, por esse caminho, a gente não chega a lugar nenhum.

Eu, enquanto prefeito, coloquei a relação institucional acima de qualquer relação pessoal. Eu me mantive aberto a todas as conversas, eu procurei manter com o Governo do Estado a melhor relação. Não fui correspondido, todos sabem. Eu não vou dizer novidade alguma. O então governador Eduardo Braga é uma pessoa de difícil convivência. Ele não quer ter aliados ou companheiros, ele quer ter vassalos, e essa era a postura dele enquanto governador. Com isso, eu não concordo.

A educação, até pela escolha da sua vice, deve ser um ponto forte na sua gestão?

Sim, e a educação casada com a saúde. Veja, nós temos um universo de 220 mil crianças nas escolas municipais. Nós temos propostas de três programas que dizem o seguinte: o primeiro, preocupado com a visão dessas crianças. Uma boa parcela delas não consegue enxergar o quadro, portanto ela não aprende porque  não enxerga, então todas serão submetidas à exame de vista. Quem necessitar de óculos, vai receber. Isso é uma política de Estado, de inclusão social.

Outro programa é voltado para a odontologia. Os filhos de classe média e alta recebem aplicação de fluor, aprendem a escovar os dentes, mas as crianças das classes mais baixas não têm essa oportunidade, então o setor de saúde do município, em convênio com as universidades particulares, com os acadêmicos de odontologia, vai fazer a aplicação de fluor e ensinar a escovar os dentes.

Por último, a Prefeitura de Manaus tem quatro grandes laboratórios, que têm capacidade de fazer os exames de sangue, fezes e urina desse universo de 220 mil crianças. Aí, vamos verificar quem tem anemia, quem é pré-diabético, quem tem tendência a ser hipertenso e cuidar desde cedo.

Como o senhor pretende tratar a invasão das calçadas por comerciantes, por exemplo, e a problemática de se conseguir uma urbanização uniforme em Manaus, em geral?

As calçadas têm que ser para os pedestres. Eu fui a Curitiba, onde fizeram um plano diretor de calçada. Qual é a regra? Tem que usar ‘paver’ e tem que usar grama na calçada. Em uma calçada padrão, por exemplo, [de] dois metros, tem que ter a pista central, que é ‘paver’, que é aquele tijolinho de cimento em que infiltra água, e grama do lado e do outro. Se a calçada for menor, tem que ser ‘paver’ e grama, mas sempre assim, nesse padrão. As novas calçadas, as novas ruas, já serão assim, e qualquer coisa que se faça na calçada, tem que ser nesse padrão. Daqui a alguns anos, Curitiba inteira estará assim e eu entendo que esse é o melhor caminho para nós, [mas] tem uma série de coisas, que envolvem múltiplos atores, e aí tem um ator fundamental, que é a população, que tem que contribuir para que a calçada esteja liberada. Os lojistas jogam um papel fundamental: não pode colocar produto no meio da calçada.

No tocante a transporte público, o senhor apoia modelos como o Bus Rapid Transit (BRT)?

Eu entendo que a melhor opção para Manaus é o BRT, mas Manaus perdeu uma oportunidade. O governo federal disponibilizou R$ 800 milhões na Copa do Mundo e obviamente que mobilidade urbana de uma cidade é com o município, mas o governo federal, até hoje - e isso eu falo isso valendo para todos os presidentes, não leu o artigo 1º da Constituição, que diz: ‘O Brasil é uma república federativa, formada pela união indissolúvel de Estados e municípios’. O prefeito está no mesmo nível do governador. Eles estão no mesmo nível. Aí, quando chegou nessa hora, o que aconteceu? O governo federal disse: ‘Olha, tem R$ 600 milhões para o Governo do Estado e R$ 200 milhões para a prefeitura, para resolver a mobilidade. Aí Eduardo Braga e Amazonino não se entenderam. Omar [Aziz] e Amazonino não se entenderam. Depois, já estava na reta final da Copa do Mundo e Omar e Artur também não se entenderam. Aí [...] virou o PAC Copa do Mundo, entrou o PAC Mobilidade, e esse dinheiro não ficou mais disponível.

Além desses pontos, que outro o senhor gostaria de fosse forte na sua gestão?

Eu falaria em mudar o tipo de gestão. Nós defendemos uma gestão transparente, tudo na internet. Não se justifica e não se explica que Manaus, tendo recebido do [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] BNDES, por empréstimo, R$ 15 milhões para ter o melhor parque tecnológico - e é muito bom o parque tecnológico que Manaus tem, ela esteja em 23º lugar dentre as capitais. São 26 capitais. No Amazonas, ela perde para Benjamin Constant, Itacoatiara e Silves. Isso é inexplicável. Então as informações têm que estar disponíveis. Cadê a folha de pagamento da prefeitura na internet? Isso está na Lei da Responsabilidade Fiscal, no item que trata da Lei da Transparência.

A forma de administrar vai ser transparente, não terá propaganda pessoal, o brasão [da cidade] voltará a ser o único símbolo da prefeitura e as informações estarão todas disponíveis… e volta o diálogo e volta a conversa. Eu não quero que prevaleça a minha ideia, eu quero que prevaleça a ideia que seja a melhor para a cidade. Eu não tenho nenhum problema em reconhecer erros, voltar atrás e buscar fazer o melhor.

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