Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019
Entrevista

'Eu tenho pena de Manaus', afirma governador José Melo

O governador José Melo aceitou receber o A CRÍTICA para falar sobre as críticas que o prefeito Artur Neto tem disparado contra o governo dele depois de anunciar aliança com o senador Eduardo Braga.



08/08/2016 às 11:55

Três dias depois de ser acusado pelo prefeito Artur Neto (PSDB) de ter fracassado como governador, José Melo (Pros) afirma em entrevista ao A CRÍTICA que a reação do tucano contra ele é previsível, mas que o povo de Manaus sabe identificar quem trabalha e “quem faz oba oba”. “O povo sabe. Pergunte ao pessoal da zona Norte e da zona Leste se eles estão satisfeitos com a buraqueira que tem lá. Não adianta fazer oba oba, mostrar uma coisa que é irreal”, declarou.

Para Melo, ao contrário do que diz o prefeito, o Estado sacrifica investimentos em outras áreas para fazer no sistema de saúde de Manaus o que é dever da prefeitura. O resto é “bravata”, segundo ele. “A prefeitura não tem estrutura. Não adianta vir com bravatas, palavras de efeito. A realidade é outra. Se ela tivesse estrutura, nós não estaríamos sacrificando nosso governo. Essa que é a grande verdade”, afirmou o governador.



Sobre a aliança de Artur com o senador Eduardo Braga (PMDB), Melo declarou que na política, nem sempre, dois e dois são quatro, e vai pagar para ver o resultado da união. “Eu não participaria de qualquer aliança política com o Eduardo Braga, porque ele já mostrou como trata a coisa pública como governador do Estado. Vou pagar pra ver”, comentou.

A respeito da disputa eleitoral em Manaus, Melo diz que ainda é cedo para dizer que candidato vai apoiar, uma vez que muitos o ajudaram a chegar ao governo. “Não posso, de forma irresponsável, virar as costas para esse pessoal todo e tomar uma decisão sem pensar. Isso não quer dizer que eu esteja abrindo mão de meu comando”, ressaltou.

O prefeito diz que seu grupo o ‘abandonou’ e cita como exemplo o reordenamento no sistema de saúde da capital proposto pelo Estado. O senhor concorda?

A questão da saúde não é simples, é complicada, e sabe por que? Porque a Prefeitura não faz a sua parte. A prefeitura deveria estar fazendo o atendimento da atenção básica, e não faz. A Prefeitura não tem estrutura. Não adianta vir com bravata, vir com palavras de efeito, porque a realidade é outra. A saúde precisava de uma arrumada, era um modelo antigo da época do Amazonino. Nós estamos fazendo as coisas de forma muito responsável, até agora não fechamos nenhuma unidade. De cada dez pessoas que se atende nos SPAs, 9 deveriam estar sendo atendidas na rede municipal. Nas urgências, ou seja, nos prontos socorros esse número está entre 70%. No Brasil todo as maternidades são geridas pelos municípios. Aqui em Manaus o município tem uma maternidade, pequenininha. Funciona direitinho, mas é uma maternidade pequena. Vocês sabem que eu nunca tratei desse assunto da forma como estou tratando hoje. Eu sempre fui muito ético com a Prefeitura de Manaus. Sempre disse que os problemas eram muitos, que os problemas eram de todos nós. No entanto, a última declaração feita pelo prefeito (Artur Neto) foi um tanto quanto fora do contexto, para não usar um adjetivo mais forte. Quem na verdade carrega o peso da saúde pública em Manaus é o Estado.

O prefeito e aliados dizem que seu governo fracassou. Concorda?

Ao contrário, eu acho que o nosso governo, entre os governos brasileiros, foi um dos que tomou as decisões certas, nos momentos certos, de forma correta e corajosa, de forma responsável e sem ter medo das consequências que pudessem surgir de popularidade, falta de popularidade. O Governo do Amazonas foi considerado o 1° em equilíbrio fiscal. Fiz tudo isso em cima de uma crise que não construí. Eu sou tão vítima quanto o povo. O meu governo não fracassou, pelo contrário, é extremamente vitorioso, porque soubemos trabalhar de forma responsável. O povo sabe da verdade, o povo sabe quem faz oba oba. Pergunte ao pessoal da zona Leste e Norte se estão satisfeitos com as buraqueiras que estão lá. Ninguém está satisfeito. Não adianta fazer oba oba, mostrar uma coisa que não é real. O meu governo não faz isso. O meu governo enfrenta, segue em frente e toma as medidas que devem ser tomadas para manter o equilíbrio. O que eu não posso é quebrar o Estado.

Como avalia a aliança de Artur com o senador Eduardo Braga?

Acho que todos nós temos direito a escolhas. Na política nem sempre dois mais dois é igual a quatro. Na política sempre se paga um preço muito alto pelas escolhas. De minha parte, não participaria de qualquer aliança política que tivesse o Eduardo Braga, porque ele já mostrou como é que trata a coisa pública. Eu vou pagar para ver. O tempo tratará de mostrar o preço que se terá que pagar.

O Sr. também rompeu com o prefeito?

Ele que rompeu comigo, eu não rompi com ninguém. Foram as palavras dele. Eu separo o joio do trigo. Eu acho que é uma responsabilidade muito grande de quem recebe o aval do povo para governar a coisa pública. Agora, do ponto de vista político, diante desse pleito que está aí, estamos rompidos. Ele vai ficar com o Eduardo e eu vou ficar analisando todas essas nuances. A um governador não é dado o direito de tomar medidas intempestivas e irresponsáveis. Então, eu não posso de forma irresponsável virar as costas para esse pessoal todo e tomar uma decisão sem pensar. Isso não quer dizer que eu esteja abrindo mão do meu comando do processo político. Todos aqueles que estão sob o nosso rol de alianças, os meus amigos, o meu grupo, esses estão aguardando que eu dê a minha voz de comando. No momento certo vou anunciar a minha decisão.

O seu grupo fez uma convenção e membros do Pros anunciaram apoio ao Marcelo Ramos...

Não, o Pros não anunciou isso. A gente fez uma aliança com o PSD para disputar a proporcional, dos nossos vereadores. O que existiu foi o anúncio do Omar de apoiar o Marcelo, inclusive o vice é o deputado Josué, que aliás, é um excelente candidato. Eu adoraria disputar uma eleição tendo ele como vice. Mas como disse, a decisão de aliança política é do governador, e disso eu não abro mão para ninguém. Eu não posso sair por aí igual um maluco, ferindo companheiros.

Na expectativa de que o Sr. termine seu mandato, tem algum projeto político pós-governo?

Nenhum político pode dizer dessa água não beberei. Na política são os momentos. Mas se as coisas continuarem como estão, se fosse hoje, eu te diria que encerraria a minha carreira política como governador ao final deste mandato.

O senador Eduardo Braga é citado em delações da Lava Jato. O Sr. crê no envolvimento dele no recebimento de propina?

Não sou eu quem está dizendo isso, é a Justiça. A Justiça que anunciou isso, e eu me reservo o direto de aguardar o que a Justiça vai fazer. Embora não nutra nenhum sentimento carinhoso por este rapaz, eu não posso irresponsavelmente dizer isso. Acho que muita água ainda vai rolar nesse tempo que vem por aí.

Atuando junto com o Eduardo Braga, quando ele foi governador, o Sr. viu algum ato ilícito dele?

Nunca participei no governo do Braga de negócios. Nunca participei de obras, de contratos. Eu gerenciava o Estado macro, aqui em cima, secretários e etc. Ele nunca me permitiu que eu chegasse ao nível de licitações, de contratos, de pagamentos, de empenhos. Eu era o carregador do piano aqui em cima e ele, pessoalmente, era quem fazia essas coisas todas.

Quem é o melhor candidato à prefeitura?

Todo ser humano tem as suas qualidades, o que vai definir quem é o melhor candidato é quando cada um começar a apresentar os seus programas de governo e por isso que eu disse que vou ficar feito um magistrado esperando isso, porque isto é que vai dizer qual dos candidatos é que tem o melhor programa para a cidade de Manaus. Os meus compromissos com Manaus estão mantidos, porque eu amo essa cidade. Agora, tenho muito pena desta cidade.

Essa postura que o prefeito adotou agora com o Sr. vai fazer com que seja rompido algum convênio?

É aquilo que eu digo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Uma coisa é o povo, o transporte coletivo, embora, eu, Estado, não tenha nada a ver com isso. Se tivesse tempo hábil para fazer o subsídio legalmente, eu o faria.

O Sr. se sentiu surpreendido com as declarações do prefeito essa semana?

Acho que a palavra não é nem surpreendido. Eu fiquei, como muitos amigos, sem entender. Um prefeito que está em período de reeleição, precisando do apoio de todos, tirou cada dia para denegrir a imagem de um setor do meu governo. E eu fiquei absorvendo tudo isso e em nenhum momento fui para a imprensa falar disso, até que chegou ao ponto dele se aliar com o meu principal adversário. Essa foi a gota d’água.

Essa semana o Sr. se reuniu com algum candidato ou com o senador Omar Aziz?

Eu me reuni somente com o Omar, conversamos muito. Todos esses lances que estão aí eu fui consultado, ouvido. Não estou distante disso aí. Eu tenho uma maneira de ser. No campo político eu sou mais como um pato que põe o ovo e não faz barulho. Eu participei de tudo, temos conversado muito.

Perfil José Melo
Idade: 69 anos
Nome: José Melo de Oliveira
Estudos: Economista formado pela UFAM
Experiência: Foi secretário estadual de Educação na gestão Amazonino Mendes. Foi deputado federal duas vezes e uma vez deputado estadual. Presidiu a SNPH. Foi secretário de Governo de Eduardo Braga. Se elegeu vice-governador em 2010. Em 2014 assumiu o governo.


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