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Eleições
Entrevista

Nestas eleições, ‘temos que separar o joio do trigo’, diz arcebispo de Manaus

Dom Sérgio Castriani aconselha os eleitores amazonenses a estar atentos ao eleger hoje os vereadores e o prefeito porque “tem aqueles que estão ali só pelo poder, pelo dinheiro” 02/10/2016 às 04:05
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Foto: Aguilar Abecassis
Geizyara Brandão Manaus (AM)

Neste domingo (2), mais de 2,3 milhões de eleitores do Amazonas vão às urnas escolher os candidatos a prefeito e vereador que governarão os municípios do Estado pelos próximos quatro anos.

Em busca de fazer uma reflexão sobre o papel do eleitor no processo democrático, o arcebispo de Manaus, dom Sérgio Castriani, concedeu entrevista ao jornal A CRÍTICA. De acordo com o arcebispo, a corrupção “veio à luz”, mas medidas como o voto nulo não devem ser uma opção para o eleitor. Confira:

O eleitor tem a consciência da responsabilidade política que possui?

Acho que, pelo menos, deveria ter. Porque hoje o nível de informação é muito bom. A importância das eleições é muito grande. Às vezes há até um excesso de informação das questões nacionais hoje, do impeachment da presidente, Lava a Jato, muita informação. Então se supõe que as pessoas tenham consciência.

Já que possui muita informação, o que falta?

Creio que o eleitor ainda não se ligou muito na questão das consequências da eleição. Acho que isso ainda falta na nossa sociedade. Falta a compreensão de que a política é importante. A atividade política é importante. Precisamos ter a consciência de que podemos controlar a política. E não apenas no momento da eleição. A população tem que ter os mecanismos de controle do governo.

Quais são esses tipos de mecanismos?

Os conselhos paritários, conselhos tutelares. A participação no controle social do governo. Acho que isso falta muito, a gente vota, depois “deixa de lado” e só daqui a quatro anos vai pensar nos políticos. Tem gente que não sabe quem elegeu, não sabe quem foi eleito. Acho que se informar é o primeiro passo para exercer seu papel. Atualmente, na internet tem a possibilidade de visualizar o orçamento, acompanhar os pagamentos. Portanto, o controle social é importante.

O que as pessoas precisam fazer com os políticos que foram eleitos?

As pessoas precisam acompanhar o político e perceber a incidência que a política tem na vida de cada um de nós. A política faz parte da vida prática das pessoas. São os políticos que governam, são os políticos que tem o poder de governar, de controlar o orçamento. O prefeito é o que tem o ‘talão de cheques’ na mão, que tem o poder de decidir para onde vai um dinheiro que é nosso. Depois, é preciso ter consciência de que são serviços nossos, que o dinheiro do Estado é o dinheiro do povo, dos impostos que nós pagamos.

O eleitor perdeu a credibilidade no sistema político?

Veio à luz a corrupção. O sistema é corrompido. Todo mundo sabia da corrupção, mas ninguém imaginava que fosse tanto e tão grande, que fosse um sistema completamente corrompido. Nós vemos a política econômica, agora com a operação “Maus Caminhos”, em que a própria governança é corrompida. O sistema de governo de terceirização facilita a corrupção. E tudo isso tem decepcionado muito as pessoas. A gente sempre soube que existe a corrupção, mas não tanto e isso dá um desânimo. O que é ruim porque o governo vai continuar, eu votando ou não votando vai ter governo. Então o melhor é que o eleitor vote, que participe e escolha alguém.

O que o senhor acha sobre votar nulo?

É errado. Tem gente boa? Tem. Nós temos que procurar os bons políticos porque eles existem. Existem políticos honestos, existem políticos que tem vocação por esse tipo de serviço. Tem aqueles que estão ali só pelo poder, pelo dinheiro. Mas tem muita gente boa na política, temos que separar o joio do trigo. Saber que existe trigo, gente boa na política. Precisa procurar e se informar que, com certeza, a gente acha.

Qual o papel do eleitor antes, durante e depois das eleições?

Antes: se informar, conhecer o passado do candidato, a história do candidato. Não apenas o que ele promete para o futuro, mas o que ele já fez. O nível de compromisso que ele tem com a população, com a sociedade.  Durante: Não votar em candidato ficha suja. Se a justiça deixa um “ficha suja” concorrer, que nós cassemos o mandato dele. No dia da eleição: Votar e votar conscientemente, fazendo uma escolha boa. Não deixar se influenciar. Depois: controlar aquele que foi eleito através da informação, no controle social, dos conselhos paritários, das redes sociais.

Como o eleitor pode participar efetivamente da política?

Pode ser membro de um partido político, se filiando a um partido. Tem as associações da sociedade civil: associação de bairros, conselhos comunitários, conselhos de igreja, associação de pais e mestres. Tem que participar de uma sociedade organizada, que são instrumentos de participação, não é só política partidária que existe. Participar dessas associações intermediárias entre o estado e a sociedade civil.

Qual a contribuição da igreja para a formação política?

A igreja quer formar cidadãos, na igreja e fora da igreja. Que seja sal da terra e luz do mundo. Se o sujeito tem dignidade, sabe da sua dignidade, a igreja empodera a pessoa, no sentido de descobrir a sua dignidade do batismo, do filho de Deus, da dignidade humana. A pessoa é a protagonista da sua história, o sujeito e isso é o primeiro papel da igreja.  Depois quando não tem organização, ela organiza, não para si. Porém, para participar de uma organização social, incentivar o leigo, a leiga a participar da organização, do partido da política, da sociedade civil. E, também, no aspecto de denunciar as injustiças sociais, corrupção, maldade.

Essa formação política deve fazer parte das escolas?

Claro. A pior política é dizer que não faz política. A formação política é importante, saber como que funciona o partido, quais são as ideologias. Claro que ninguém é neutro, mas sabendo disso é importante discutir a política.

Qual sua opinião sobre a escola sem partido?

Isso é impossível! Isso é ilusão! Porque a escola sem partido será do partido dominante, eliminando a oposição, eliminando a reflexão. É preciso que os alunos reflitam e tenham consciência crítica, sejam formados para a vida política.

É possível, em qualquer fase da vida, o eleitor estar atento à sua responsabilidade?

É necessário. O jovem do primeiro voto traz a novidade, traz a inovação, os sonhos. O eleitor mais maduro já é mais sábio. O idoso, então, mais sábio ainda. Acho que é importante em todas as etapas da vida participar da política.

Podemos apontar um culpado para a atual situação política?

São muitos culpados, cada um de nós tem um pouquinho de culpa. A corrupção, por exemplo, é difusa, não é só o político que é corrupto. Na sociedade tem a corrupção social, quando eu dou um ‘jeitinho’ nas coisas, quando furo uma fila, isso é corrupção. É claro que tem gradualidades, mas a culpa é geral. Uma ‘conversão’, em termos religiosos, sendo uma conversão de todos. [...] Nós brasileiros ‘damos um jeito’, somos ‘espertos’. Claro que os partidos políticos tem responsabilidade maior, pois chegaram ao poder e usaram o poder para corromper, aí é perigoso.

O eleitor pode ter esperanças para um futuro melhor?

Sem esperança a vida acaba. A esperança é uma virtude cristã. Quando acaba a esperança, acaba tudo, porque no fundo todo mundo quer o melhor.

É preciso tomar alguma medida na hora do voto?

O eleitor tem que ter muito cuidado, porque nós temos a lei da ficha-limpa, mas infelizmente a justiça deixa passar gente que tem ficha-suja. Não é cabível, ainda, eleger pessoas corruptas. Eleger pessoas que roubaram, claramente, a população é o fim do mundo. Não deveria ser eleito nenhum corrupto, o povo deveria cassar o mandato deles.

Precisamos de uma reforma política?

Sabemos que a reforma política é urgente, mas quando ela não vem, votemos de forma inteligente. A democracia não é um sistema perfeito, mas com certeza é o melhor.

Qual a diferença do eleitor de antigamente para agora?

Antes o eleitor era ingênuo, acreditava mais nas coisas. Hoje, com esses escândalos todos nós perdemos muito a confiança nas pessoas. A chamada perda de confiança. Hoje nós temos uma dificuldade de acreditar no discurso do político.

Perfil

Dom Sérgio Castriani

Idade: 63 anos

Nome: Sérgio Eduardo Castriani

Formação:  Filosofia e Teologia pelo Instituto Poullart de Places (Faculdade Nossa Senhora Medianeira).

Experiência: Arcebispo Metropolitano de Manaus desde fevereiro de 2013. Recebeu a ordenação presbiterial no ano de 1978 em São Paulo.

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