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Eleições
ANÁLISE

Desesperança e cheia vão ‘inflar’ abstenção nas eleições suplementares do Amazonas

Especialistas preveem 25% de abstenção em todo o Estado, podendo chegar a 40% no interior e batendo recordes históricos 17/07/2017 às 05:00
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Erguidas nas beiras dos rios, grande parte das cidades do interior convive com reflexos das estações. Este ano eleição vai pegar o “começo do fim” da cheia. Foto: Márcio Silva – 06/06/2017
Camila Pereira Manaus (AM)

Analistas políticos estimam que o primeiro turno da eleição suplementar, marcada para o dia 6 de agosto, terá uma abstenção superior a 25% nas urnas, o que representa 584.498 eleitores. Há quem fale em um índice superior a 40% no interior do Estado. Tal previsão se encontra refletido no atual cenário político local e no pleito fora de época. 

Durante o curto período de campanha, os candidatos tentam ir ao maior número de municípios possível, para poder divulgar a sua candidatura para os eleitores e incentivá-los a participar do pleito. No entanto, seria impossível chegar a todos os 62 municípios do Estado. 

“A eleição é fora de época e acredito que nem tenha clima para isso. O tempo é limitado e os cabos eleitorais, assim como os candidatos, não conseguem chegar em cada lugarzinho do Estado. Acreditamos sim que vai ter uma abstenção maior que de costume”, destacou o presidente da Associação Amazonense dos Municípios, João Campelo. 

No interior do Estado, moradores revelam que a movimentação tem esquentado após a retomada das eleições, mas muitos ainda divergem se pretendem ou não ir às urnas. 

O estudante Júnior Duarte, morador do município de Barreirinha, diz que estão acompanhando o andamento das eleições através dos noticiários: “Depois que derrubaram a liminar, as pessoas ficam procurando saber quem são os candidatos. Com todas as dificuldades que enfrentamos, vejo que as pessoas estão dispostas a votar sim, porque é uma esperança pro município”. 

Em Benjamin Constant, a comerciante Antônia Campos, diz não saber se irá votar. “Não sinto vontade. Com toda a confusão se iria ter eleição ou não, acabamos desanimando. E também até agora nenhum candidato apareceu, não sabemos as propostas, nem o que eles farão pelo município”, destacou. 

O desconhecimento não  é apenas sobre as propostas, mas também sobre os candidatos. “Por conta das matérias que temos acesso, vemos que temos outros candidatos jovens, mas não conhecemos muito para podermos avaliar. Tem alguns que  eu nem tinha ouvido falar”, disse a comerciante Iracema Ramos, do município de São Gabriel da Cachoeira.

Já a dona de casa Adelaide Nascimento, do município de Japurá, acredita que o cancelamento da eleição e depois a sua retomada deixou muitos eleitores confusos. “A gente já não acredita muito nos políticos e ainda acontece essa confusão. Nós somos obrigados a votar, mas eu não gostaria. E ano que vem vamos precisar ir de novo”.

O comerciante Josué Vasconcelos diz que vê alguns colegas e vizinhos que querem se manifestar. “Mas ainda não teve a visita de nenhum candidato, conhecemos muitos só de nome mesmo”, afirmou.

Chefes de cartório 'escalados' 

Para tentar evitar um indíce alto de abstenções nas urnas da eleição suplementar para governo do Amazonas, o  Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AM) tem promovido uma série de ações, principalmente com os chefes do cartório do interior do Estado.

Segundo o diretor geral do tribunal, Messias Andrade, desde o começo do mês chefes de cartórios tem feito campanhas de conscientização aos eleitores, de que é necessária a participação deles para a escolha de um novo governador. 

“Nossa ideia é que consigamos fazer com que os chefes de cartórios façam reuniões com líderes comunitários em cada município para que diminua a possibilidade de abstenção”, afirmou Andrade. 

Nesta semana, o TRE-AM vai providenciar um vídeo que circulará em todo o estado sobre a necessidade da população votar, principalmente por conta do cenário político. 

“Mesmo com essas medidas nós acreditamos que a abstenção vai ser bem maior que aquela ocorreu em 2016, que fomos a capital com o menor indíce de abstenção. A gente acha que vai ser entorno de 17% a 20%, mas essas são estimativas pragmáticas”, destacou.

‘Eu não vejo as pessoas empolgadas’

A cientista política Tereza Lima acredita que algumas pessoas deixarão de ir às urnas por conta do momento conturbado da política local e nacional. “Não vejo as pessoas empolgadas. Aliás, faz tempo que não tem empolgação. Por outro lado, nós somos obrigados a votar”, afirmou. “O cidadão comum se sente meio amarrado, porque a ele não foi perguntado se ele queria uma nova eleição. Se ele queria uma eleição direta ou indireta, não foi dada a oportunidade de refletir. Não existe um referendo, um plebiscito. Penso que poderia ter uma consulta pública. A gente é muito pouco participativo na vida política do País”.

Lima defende que os eleitores passaram por uma mudança de comportamento importante, que pode refletir nas urnas: “Uma boa maioria pensa a respeito de suas escolhas políticas. Isso coincide com uma transformação tecnológica que o mundo passa. Essa eleição hoje se reflete muito no todo que está acontecendo no País”.

Há locais de votação sem adaptação para enchente

Com uma eleição atípica acontecendo em agosto, uma das grandes preocupações é o comportamento dos rios, por onde boa parte das urnas são enviadas para os municípios do interior. No entanto, segundo a gerente de hidrologia do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Jussara Cury, a expectativa é que o nível dos rios estejam um pouco mais baixos até o mês da eleição suplementar, uma vez que o período de vazante deve começar nos próximos dias. 

“Estamos ainda num momento classificado como ‘pico da cheia’, que é um tempo que o rio fica parado antes de começar a vazante maior. Em Manaus, a vazante começou um pouco antes, por isso que a nossa sensação é de que a cheia acabou, mas no Solimões e no Alto Rio Negro ainda está baixando pouco. Tabatinga também está no processo de vazante”, explicou a hidróloga. “A água nas cidades do interior está meio parada, porque (o rio) ainda tá cheio, mas a vazão tanto do Rio Negro quanto do Solimões são vazões boas. O rio continua com o seu fluxo, só que em algumas localidades ainda poderá estar cheio até lá”. 

Segundo Cury, uma das dificuldades que poderá ser encontrada são nos locais de votação. “As cidades da Amazônia são muito próximas do rio, justamente por conta do acesso. Os povoados, as comunidades, sempre ficam próximas do rio.  Os moradores possuem construções tradicionais e  tentam se adaptar à subida dos rios, vai subindo o assoalho, mas as escolas são em alvenaria, não dá pra fazer essa adaptação”.

Segundo dados da Defesa Civil do Estado, 38 municípios ainda estão na situação de emergência, por conta da cheia dos rios. Ao todo, mais de 62 mil famílias foram afetadas. 

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